Obras podem ser visitadas até 30 de julho em Espinho

O médico cardiologista Adão Cruz começou a pintar por volta da década de 80 e nunca mais parou. “Ainda tenho umas coisitas dessa época muito ingénuas”, relembrou o pintor e escritor durante a conversa com o labor na Galeria Zeller, em Espinho, onde tem patente a exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro”.

Adão Cruz teve três ateliers que deveriam ter sido o refúgio dele e das suas telas brancas e onde a sua arte não teria fim, mas apenas o quarto e último atelier perdurou até aos dias de hoje. E esse quarto atelier é precisamente junto ao seu quarto de dormir. Por muitas vezes “levantava-me e pintava até de madrugada” em momentos que considera ser “momentos de necessidade espontânea de exprimir o que está cá dentro”, confidenciou o pintor.

Sempre que começa uma nova obra até pode ter “umas ideias na cabeça, mas nada é predefinido. A minha pintura não tem nada de académico, nada de esquemas, é de um amadorismo total de um autodidata, é gestual, espontânea, muitas vezes grosseira, mas não estou preocupado com nada disso”, revelou Adão Cruz ao labor.

Para o médico, pintor e escritor, “qualquer obra de arte, seja um poema ou um quadro, qualquer artista ou qualquer pessoa introduz dentro da obra, quer de forma consciente, inconsciente ou subconsciente, toda a sua vida, cultura, ilusões e desilusões, alegrias e tristezas e a sua visão das coisas e do mundo” e “qualquer pessoa que vá ver a obra não a vai ver com os meus olhos e vivências, mas segundo a sua própria visão e vivências”.

A obra de arte é “um estímulo que vai despertar, às vezes, muita coisa que está hibernada dentro de nós. Muitas vezes nem sabemos até nem conhecemos muita coisa que está cá dentro”, considerou Adão Cruz.

O título desta exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro” “parece uma coisa sem sentido nenhum, mas não é”, responde o pintor à questão do labor.

“Nunca fiz nada na minha vida quer do ponto de vista da poesia, da arte e até do ponto de vista profissional que no fim me satisfizesse completamente. Agora transplantando para a poesia e para a arte nunca fiz uma obra em que chegasse ao fim e dissesse isto é o melhor que consegui fazer, cheguei sempre ao fim com uma desilusão”, explicou.

Nesta procura pela obra prima que começa sempre por ser cativante, continua incessante e acaba sempre por ser frustrante, algo que “não me parece ser só meu, mas parece que é comum à maior parte dos artistas”, sempre ficou com “a sensação de que estava sempre agarrado às grades de uma prisão a olhar para uma belíssima paisagem e da qual não podia usufruir. Sempre essa sensação”, confessou Adão Cruz ao labor.

O médico, pintor e escritor chegou a uma idade, 81 anos, em que “não me apetece fazer exposições”, assumiu ao nosso jornal.

A prova disso está nos dois convites que recebeu para realizar exposições individuais em Madrid e na Galiza, em dezembro do ano passado, e que declinou porque tem uma vida muito ativa e ocupada em grande parte pela família.

Esta exposição apenas foi feita devido à “picardia” de muitos amigos e por a Galeria Zeller ser uma espécie de família.

As centenas de obras de sua autoria estão expostas em sete países desde Portugal, Espanha, França, Berlim, Irlanda, Croácia, Suíça até ao Brasil.

Os refugiados, a inocência e a infância

Entre as cerca de 40 obras da exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro”, estão cinco quadros com três aspetos em comum. Um barco, pessoas e o mar. Num deles existe a uma grande distância uma cidade. O que nos levou a questionar se de alguma forma estariam ligados ao drama vivido por milhares de refugiados. E estávamos certos.

“Foram todos feitos de seguida exatamente numa altura em que o problema dos refugiados me estava a tocar muito. Está relacionado sem dúvida. Sou uma pessoa que penso muito e tenho necessidade de muitas vezes exprimir os meus pensamentos quer através da poesia, da literatura e da pintura”, assumiu Adão Cruz ao labor.

Um outro quadro que chamou a nossa atenção tem um menino a olhar para duas pombas brancas que “não é nada de especial”, mas é “um quadro que o meu filho Manuel Cruz (ex-vocalista dos Ornatos Violeta) gosta muito, é muito simples, é um momento de inocência”, indicou o artista. Outro fator que constatamos é que pelo menos três obras têm casas isoladas com árvores e vegetação. Essas obras têm “uma ligação à parte rural. Eu cresci e vivi numa aldeia (em Vale de Cambra). A única verdadeira saudade que tenho é da minha infância passada em contacto com os animais e a natureza e do luar e das estrelas no campo. Eu vivi ligado a tudo que era a natureza”, admitiu Adão Cruz, confirmando, assim, a influência da sua infância nos seus quadros e que inclusive teve pessoas que o chamaram à atenção sobre isso.

Todas as obras são em acrílico porque é “muito mais fácil em termos técnicos” do que o óleo que chegou a usar, explicou o pintor que usa “uma técnica mista tanto com pincéis, farrapos, esponjas, mãos e tudo que tiver à mão para dar efeito”.

Neste momento, não está a trabalhar em nenhum quadro novo. “Tenho uma tela preparada para começar quando esta exposição acabar”, adiantou Adão Cruz ao labor.

A exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro” de Adão Cruz pode ser visitada até ao dia 30 de julho na Galeria Zeller em Espinho.

Próximo livro poderá ser publicado em 2019

Até ao momento, o médico já publicou 12 livros de pintura, poesia e contos. “Tenho um livro de poemas, uns 30, que ainda não foram publicados. Vamos ver se é lá para o princípio do ano”, contou Adão Cruz.

Continua a dar consultas em S. João da Madeira

O médico cardiologista continua a dar consultas, duas vezes por semana, às terças e às quintas-feiras, no seu consultório em S. João da Madeira.

Além disso, marca sempre presença todas as terças-feiras, às oito da manhã, na reunião de serviço de cardiologia de intervenção de Gaia.

O médico cardiologista continua a ter um número considerável de doentes. “Alguns deles são muito antigos e outros, ao contrário daquilo que pensava, são doentes de primeiras consultas” o que estará relacionado com o facto de a saúde estar “muito mal. As pessoas são tão mal atendidas e as pessoas procuram mais do que o ato médico em si. Elas procuram um bocado de conforto, carinho e a explicação daquilo que têm porque qualquer doente percebe desde que seja usada uma linguagem simples”, constatou Adão Cruz.

O que sobra do seu tempo e tem que ser muito é absorvido pela família. “Dá-me um gozo muito grande dedicar-me à família”, concluiu Adão Cruz ao labor.

 

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