“Tenho medo do cancro”

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Em entrevista exclusiva ao labor, Manuel Sobrinho Simões falou sobre aquele que continua a ser um dos maiores flagelos mundiais. O patologista mais influente do mundo diz ter “medo do cancro” por saber que “há uma componente de pouca sorte”

Se não fosse patologista o que seria?

Seria sempre médico. E provavelmente seria um neurocientista médico, porque aquilo a que acho mais graça é o que chamo de “sócio-cultural”. Queria compreender as coisas, como é que a cabeça funciona, como é que a gente corrige.

Tem medo do cancro?

Tenho. Tenho muito medo do cancro.

É por isso que o estuda há já 40 anos?

Hoje em dia, 40% dos casos de cancro dão chatices às vezes. Mas, em média, 60% são controlados. Aliás, atualmente continuamos a morrer mais de enfarte do miocárdio.

Por que tenho medo? É pela insegurança. Quando comecei a estudar o cancro sabia-se muito pouco. Hoje sabe-se muito mais. 60% de sobrevivência é muito bom, variando de órgão para órgão, como é evidente.

Tenho sempre medo porque sei que há uma componente de pouca sorte. É a mesma coisa em relação à morte. Em relação à morte, não tenho medo, mas tenho pena de morrer.

“Relativamente aos cancros da mama e da próstata estamos avançadíssimos”

Por que é que ainda não há uma cura para o cancro?

Sabe que é muito diferente de órgão para órgão. Por exemplo, relativamente aos cancros da mama e da próstata estamos avançadíssimos.

Está a falar-nos a nível nacional?

Não apenas. Estou a falar a nível mundial. No caso do cancro do estômago não. Mas nos casos do intestino, mama e próstata curamos já muito perto de 70 a 80% dos casos. E nos da tiróide e do testículo 95%.

Só que as pessoas têm de “vos chegar às mãos” ainda numa fase precoce?

Claro. Mas – atenção – as pessoas têm de perceber o seguinte: quando dizemos “o cancro” há dois grandes erros. Primeiro: há cancros agressivos e cancros, sobretudo nos velhinhos, que são micro cancros que não são graves. É deixar os tipos sossegadinhos, porque vão morrer de outra coisa qualquer.

A outra diferença é o órgão. Isto é, o cancro do pâncreas é mortal, horrível. Porquê? Não sabemos. Mas o do intestino já não é. Há uma especificidade do órgão, percebe?

Que significa para si ter sido eleito o patologista mais influente do mundo?

Esta eleição deveu-se muito à minha atividade de formação de escolas em muitos sítios do mundo: Europa, Norte de África, América do Sul, China. Tenho quase a certeza que ganhei por votos dos países de Leste, onde dou aulas e tenho escolas, e na China ou na Argélia, Marrocos, Brasil ou Argentina, onde dou muitos cursos.

Não devo ter ganho pelos ingleses ou alemães. Percebe o que quero dizer? Tenho é muita atividade internacional em muitos sítios há muitos anos. E também porque faço muitos casos difíceis de graça. Há 20 anos que faço entre 200 a 300 casos de tiróide difíceis de todo o mundo.

E faz isso porquê?

Por duas coisas: primeiro porque aprendo com casos difíceis. Gosto de fazer investigação. Depois, porque ajudo. Mas mais importante do que ajudar é o que aprendemos a fazer isto. Se não o fizermos não aprendemos.

O IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto) é como se fosse um filho para si?

Sim. Mas éramos um grupo muito grande. Fizemos um congresso europeu que deu 300 mil dólares de lucro e foi com esse dinheiro que começámos o instituto em 1989. O IPATIMUP é fruto de uma equipa.

“Arouca é o centro do mundo”

Como correu esta conferência em S. João da Madeira. Toda ela foi “regida” pelo seu bom humor.

E não só. Senti um ambiente muito curioso e amigável. A sala estava cheíssima e o Nicolau é uma pessoa também muito simpática, que faz isto [moderar sessões] muito bem.

Aqui não houve aquela coisa que há muito das pessoas que vão contra. As pessoas estavam realmente interessadas em ouvir a minha opinião.

O seu bom humor é genético?

Não. Eu gosto é de pessoas. Digo sempre isto: nunca fui um cientista muito, muito bom. Era, antes, bom médico e professor. A ciência, para mim, foi sempre para forçar a minha caraterística de médico de diagnóstico e de professor.

Portanto, como sou professor, todos os dias falo com pessoas. E acho graça a perguntas, que é uma coisa que na nossa cultura não é muito frequente. Sou um tipo que pergunto sempre e mesmo que, às vezes, fique envergonhado por fazer uma pergunta estúpida.

Qual a sua ligação a Arouca?

A minha mãe é do Bombarral. Eu nasci no Porto, mas o meu pai era de Arouca. A nossa família em Arouca vem da parte do meu pai. O meu avô paterno era médico e veio de Anadia casar com uma senhora de lá, o meu bisavô a mesma coisa, etc.. Para ter uma ideia: o primeiro presidente da câmara liberal de Arouca chamava-se José Santos e era meu tetravô.

Para mim, Arouca é o centro do mundo.

Portanto, tem ligações familiares a Arouca?

Sim. E muito fortes. Temos lá casa. Procuro ir uma vez a Arouca de dois em dois meses.

Acaba por ser um “bálsamo para alma”?

Vou porque tenho lá a minha mãe. Há quatro anos, ela foi viver para a casa de Arouca.

Também faço lá as “Jornadas de Ciência” em dezembro. Vamos no quarto ou quinto encontro, não tenho a certeza. Com o Manuel Brandão Alves e a Amélia Rodrigues, da Escola Secundária de Arouca (ESA).

Esses encontros são organizados com que intuito?

Há uma estrutura chamada Círculo Mais Democracia que criámos porque queríamos ligar as pessoas e depois acabámos por nos associar à câmara municipal e à ESA.

Geralmente, os alunos, médicos e especialistas, cientistas, que são dos Estados Unidos da América, vêm a Arouca passar o Natal. Então aproveita-se a sexta-feira para fazer apresentações aos miúdos de Arouca. Depois, no sábado, são os miúdos a fazer apresentações aos estrangeirados.

Qual é o seu doce conventual de Arouca preferido?

Se é para comer em quantidade normal, gosto muito de pão de ló húmido. Se é para uma gracinha, como castanhas doces e morcelas doces. Mas isto por graça. Não posso comer muito [risos].

Quem é Manuel Sobrinho Simões?

Nascido no Porto em 1947, Manuel Sobrinho Simões é um dos mais reputados patologistas a nível mundial. É professor catedrático e diretor do Departamento de Patologia e Oncologia da Faculdade de Medicina do Porto e presidente da direção do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP).

É também membro da direção do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S). Preside atualmente ao Conselho Nacional de Centros Académicos Clínicos, ao Grupo de Trabalho para a constituição da Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica e ao Conselho de Curadores da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES).

Em 2015 foi eleito o patologista mais influente do mundo pela revista britânica The Patologist.

 

 

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