Tiago Moita tem um novo romance. Chama-se “A Fórmula do Peregrino” e vai ser apresentado hoje em S. João da Madeira, cidade onde o escritor de 43 anos vive desde os 10.

Com mais de uma década de vida literária e mesmo já sendo considerado “um dos mais promissores novos autores portugueses”, Tiago Moita ainda não “se dá ao luxo” de viver apenas da escrita

 

Deus tem futuro?

Costumo dizer que antes de responder a essa pergunta devemos perguntar “que futuro tem o Homem sem Deus?”. Porque, basicamente, o que o meu livro fala é dessa ideia de o Homem se ter desligado da essência que, no fundo, retrata a sua própria criatividade e evolução.

A própria noção de Deus, sobretudo aquela que foi explorada ao longo dos séculos, principalmente a mais oriental, é aquela que vê Deus no campo de todas as possibilidades infinitas que é a realidade. Porque sempre vi e sempre explorei Deus não enquanto conceito abstrato – porque Deus está muito para além do próprio nome de Deus (este, sim, foi inventado pelo Homem) – mas como a essência que move o campo onde nunca podemos fugir, que é a realidade. Campo onde todas as possibilidades acontecem e onde através da forma como as encaramos podemos evoluir ou dar um passo em frente à nossa própria espécie.

O Tiago “está em sintonia” com Deus?

Estou sempre em sintonia com Deus cada vez que me apercebo da forma como sinto as coisas. Porque, como o próprio romance indica, o sentimento é a linguagem de Deus, a linguagem com que Deus comunica connosco. Muitas vezes não nos apercebemos que cada vez que sentimos algo, seja negativo ou positivo, esse algo vai construir e atrair tudo o que é necessário para a construção da nossa realidade. É aquilo que o próprio Ralph Emerson dizia, que “o pensamento é a mente em ação” no sentido em que o pensamento pode construir a nossa realidade.

Sinto cada vez que estou em sintonia com Deus, cada vez que me apercebo de certa coisa, que, muitas vezes, chamamos de coincidência que obedece a um sincronismo, de um encadeamento de coincidências que me leva a decidir sobre qual o passo a tomar sobre determinada circunstância da minha vida. Aí sinto-me mais sintonizado com Deus. Sinto-me menos sintonizado quando acontece exatamente o contrário.

Em que se inspirou para escrever este seu novo romance? Por que o escreveu?

Desde 2007 que tenho vindo a fazer um conjunto de investigações por conta própria sobre fenómenos parapsíquicos e paranormais. E durante essa investigação, feita em algumas revistas e sites científicos, descobri argumentos a favor e contra a aliança da ciência e da espiritualidade. Mas foi sobretudo em 2014 quando surgiram dois acontecimentos que foram determinantes para a criação deste livro – o primeiro, foi o nascimento do Estado Islâmico que revelou, como todos vimos, o lado mais bárbaro e cruel do fundamentalismo religioso; o segundo foi a conclusão da leitura de um livro que me emprestaram chamado “A desilusão de Deus”, de Richard Dawkins, que revelou um tipo de fundamentalismo que até aí achava impossível ou até mesmo absurdo existir, o fundamentalismo científico, que é um tipo de fundamentalismo que utiliza a ciência para justificar dogmas e preconceitos da mesma forma como o fundamentalismo religioso utiliza a religião para justificar a mesma coisa, esquecendo-se ambos que “a ciência sem a religião fica coxa e a religião sem a ciência fica cega”, como uma vez disse Albert Einstein – que comecei a investigar mais e a interessar-me muito mais por esta matéria.

Em 2014, quando acabei “O Evangelho do Alquimista”, achei que o assunto estava na ordem do dia e entendi por bem que fazia sentido escrever de uma forma romanceada um livro que falasse sobre os prós e os contras da aliança e da guerra entre a ciência e a espiritualidade.

“A Fórmula do Peregrino” [publicado pela Chiado Publishers] foca também muito as personagens. Costumo dizer que é o livro mais humano que escrevi até hoje, com as personagens mais humanas. Todas elas têm dramas existenciais e traços psicanalíticos que “absorvem” quem ler o romance. De todos que escrevi, este é o livro com o desfecho mais surpreendente. Vai espantar muito as pessoas.

Novo romance versa “a aliança e a guerra entre a ciência e a espiritualidade”

“A Fórmula do Peregrino”: Que “fórmula” é esta? E que “peregrino” é este?

A ideia do livro nasceu muito antes de 2014. Já há muitos anos que tinha a ideia de uma jornalista que sofre um acidente de viação e depois é resgatada por um homem que vai em peregrinação a um local santo.

Mas esta ideia foi mais cimentada com as ideias que falei há bocado e, sobretudo, com o nascimento de uma ideia que nasceu depois, em 2016, e que derivou da conclusão do livro que fiz da “A Fórmula de Deus” de José Rodrigo dos Santos.

Sempre quis escrever um livro sobre a aliança e a guerra entre a ciência e a espiritualidade. Mas para falar disso era preciso um mote, porque se escrevesse um livro em que as personagens só estavam ali a debater assuntos abstratos o livro tornava-se enfadonho.

Então entendi que fazia sentido usar como mote algo que despertasse este debate. Quando li “A Fórmula de Deus” entendi que fazia todo o sentido pôr estas personagens a procurarem uma fórmula que explicasse matematicamente a existência de Deus para incitar este mesmo debate. E isto utilizando uma personagem, que neste livro é um professor de Física Quântica, que tem não só uma grande cultura científica como também uma cultura espiritual muito fora do comum. Mas sobretudo é alguém que traz uma mensagem de esperança, para além dessa busca, para um mundo que neste livro se encontra dividido por dois perigosos demagogos que representam os dois lados do fundamentalismo de que falei há bocado.

Porquê uma jornalista e um professor de Física Quântica?

A ideia do professor não existiu nessa altura. Mas a ideia de pôr um jornalista a falar com um homem sábio já tinha há muitos anos. A ideia desse homem sábio ser um professor de Física Quântica resultou da conclusão deste estudo entre a ciência e a espiritualidade. Achei interessante pôr neste debate um professor que soubesse tanto de ciência como de espiritualidade.

Quanto à jornalista, tem a ver com a própria carreira de jornalista que é não só informar como questionar. E como eu gostava que neste debate existisse uma personagem que funcionasse como advogada do diabo. E todas as questões, todas as dúvidas e respostas que o próprio professor colocava achei por bem que esta Catherine Delgado, uma das personagens principais, fosse a personagem indicada para isso.

É assim que vê os jornalistas? Como advogados do diabo?

Os jornalistas são, sobretudo, informadores. Mas são também pessoas que podem e devem colocar questões para buscar a verdade. Basicamente por isso é que existem. E por isso achei que a personagem era fantástica. Aliás, é a primeira jornalista que é a personagem principal num livro meu.

Quando lançou este novo romance?

A 28 de setembro último.

Como está a correr a digressão?

A digressão tem corrido bem. Tem havido bastante adesão das pessoas.

Tem andado por onde?

Lisboa, Vila Nova de Gaia e Matosinhos. Esta quinta-feira, 22 de novembro, às 21h30, vou estar na Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo, com o meu amigo Dr. Luís Quintino e a minha grande amiga acordeonista Cláudia Pereira.

No dia 24, às 17h30, vou estar na FNAC de Santa Catarina (Porto) com um convidado ilustre, que me deu um grande orgulho e honra em apresentar o meu livro – Dr. Luís Portela, presidente da Fundação BIAL.

Este ano, a digressão vai terminar em dezembro, no dia 7, às 17h30, na Livraria Bertrand do Liberdade Street Fashion, em Braga.

Foi lançado onde?

No Clube Literário Chiado em Alcântara, Lisboa.

Tem noção de quantos exemplares já foram vendidos?

Ainda é cedo. A digressão ainda está a decorrer. Ainda não há dados precisos. Há muitos livros que estão à consignação. O livro, neste momento, continua a ser distribuído por várias livrarias.

Onde podemos adquiri-los?

Online, na Livraria da Chiado online. Mas também na FNAC, na Wook, na Bertrand online. Ainda estão a ser feitos contactos para que ele atinja outras plataformas digitais e livrarias mais conhecidas. Mas, como disse, o processo de distribuição continua a decorrer.

Tem outros projetos em mãos para além da escrita?

Profissionalmente estou a tirar um curso de Marketing Digital, que espero concluir no princípio do próximo ano, para depois começar a ter uma nova atividade.

Escrever um livro de contos é um dos próximos desafios

Vai enveredar também pelo Marketing Digital?

Sim. Já enveredava de uma forma muito amadora desde o lançamento d’ “O Último Império”. Mas depois percebi que gostava de fazer disto uma profissão e verificar como ela pode não só auxiliar a minha atividade literária como a minha própria atividade profissional.

Projetos? Queria ver se começava a escrever o meu primeiro livro de contos e um livro de prosa poética que está a “chatear-me a cabeça” desde 2012 e que espero concluir no próximo ano.

Quando fala em contos refere-se a contos para adultos?

Para já, para adultos. Ainda não entrei nessa área, mas é uma área que gostava de investigar.

Que projeto vai ser concluído em primeiro lugar?

“A Fórmula do Peregrino” é o fim de um ciclo de um tipo de romances que comecei a escrever, sobretudo, com o lançamento do “Evangelho do Alquimista”.

O meu livro de contos vai ser o meu laboratório de experiências de ideias, mas sobretudo de linguagens que quero enveredar para a próxima década. O meu livro de prosa poética, que estou a escrever, fala sobre a solidão e a natureza humana abordadas do ponto de vista holístico. E mais não posso adiantar.

Na última entrevista que deu ao labor, em março de 2017, disse que “ainda era difícil viver apenas da escrita”. Mantém a opinião?

Ainda é difícil.

Mesmo quando se é considerado “um dos mais promissores novos autores portugueses”?

Em Portugal, infelizmente, a fama não significa o mesmo que proveito. Se assim fosse as pessoas que eram entrevistadas por qualquer órgão de comunicação social já estavam ricas. Mas infelizmente não é assim. As pessoas, muitas vezes, não entendem que os autores recebem de cinco em cinco meses ou de ano a ano. Não recebem todos os meses como recebe uma pessoa ligada a uma empresa, como um jornalista ou outro funcionário qualquer. Quem me dera! Mas infelizmente não é possível.

Agora não é totalmente impossível. Um escritor pode realmente viver da escrita se atingir um determinado número de exemplares e começar a receber por várias edições de vários exemplares todos os meses ou até, se possível, todas as semanas direitos de autor das suas obras. Mas isso tem a ver com vários processos entre os quais a distribuição e, sobretudo, a própria internacionalização das suas próprias obras.

De todas as suas obras qual foi aquela que teve mais sucesso?

Neste momento ainda não posso dizer que tenha um trabalho que vendesse mais do que os outros. Os romances, para já, têm funcionado bem. Têm vendido bastante bem. Ambos chegaram à segunda edição. Mas do ponto de vista comercial ainda não tive um romance que fosse um best seller.

E qual é que foi a que lhe deu mais prazer escrever?

Todos eles me dão prazer de formas diferentes. Não há assim um livro que me deu maior prazer do que o outro. Este, por exemplo, foi muito interessante. Gostei dele. Foi um bocado mais moroso porque envolveu uma matéria sobre a qual não estou muito preparado, que é a ciência, mas que é muito interessante.

“Biblioteca Municipal podia ter mais vida”

A cultura em S. João da Madeira (SJM) goza de boa saúde?

Sim.

A mudança do executivo veio alterar alguma coisa a nível cultural?

Notei que a cultura está a chegar a outros espaços onde ela antes não chegava. Começou a descentralizar-se, a sair mais do centro. Isso verifiquei. Pela primeira vez, encontro uma câmara e uma junta de freguesia que estão a atrair público que dantes não costumava ir aos grandes espaços, como a Casa da Criatividade e os Paços da Cultura, assistir a espetáculos.

Mas lá está. SJM ainda é vista como um palco para eventos e não como um polo cultural. Há coisas que SJM merecia fazer mais se tivesse mais ambição. Mas que para já não estou a ver a fazer.

Que coisas são essas de que fala?

Por exemplo, SJM não tem escolas artísticas como uma Academia de Artes e Espetáculos nem uma Escola Superior de Belas Artes, nem residências artísticas que pudessem fixar aqui artistas para colaborar não só com os eventos da câmara, mas também com eventos próprios.

Não temos um grupo de teatro como o Seiva Trupe que a partir de SJM começasse a fazer peças a nível nacional e, quiçá, internacional. Não temos ainda índices de leitura que pudessem ser fomentados com, por exemplo, oficinas de escrita criativa, clubes ou olimpíadas de leitura escolares. Ou até mesmo um prémio literário. Há o Prémio João da Silva Correia, que para já só tem premiado uma pessoa.

Para além disso, SJM ainda precisa de crescer mais. Precisa de ter espaços mais emblemáticos para fazer bons eventos. Por exemplo, SJM não tem um Café Majestic ou um Guarany, como temos no Porto. Ou seja, não temos espaços amplos para fazer tertúlias e outros saraus que pudessem trazer as pessoas para a praça e para outras zonas de modo a que SJM fosse um polo cultural que não só atraísse pessoas do concelho e da região, mas também de outras zonas do país, como acontece em Lisboa e no Porto.

Que podemos esperar da noite da apresentação do seu livro em SJM?

Espero que seja uma noite agradável e participativa, na qual encontre velhos e bons amigos, mas também outras pessoas que não conheçam as minhas obras. Tenho notado, desde que apresentei o meu livro em 2006, que têm aparecido sempre pessoas novas e espero que isso aconteça.

A Biblioteca Municipal (BM) precisa muito dos autores, assim como os autores precisam das bibliotecas. E é um espaço que merecia muito maior atenção da parte não só do executivo camarário, mas também de todos os sanjoanenses. A BM precisa que haja mais apresentações, mais eventos.

Acha que a BM podia ter mais vida?

Podia ter mais vida, mais funcionários.

O problema é o espaço físico ou a dinamização do espaço?

Acho que tem mais a ver com a dinamização. O espaço físico, muitas vezes, as pessoas apontam-no como problema, mas no caso de SJM nunca foi. Acho que tem o espaço adequado para a dimensão do concelho. É verdade que é um edifício antigo, que não é atrativo do ponto de vista estético. Mas continuo a dizer, e não é por ser conservador, que se a BM tivesse um maior dinamismo as pessoas conheciam-na melhor.

A BM é mais do que os seus próprios livros e funcionários. É, antes de mais, um todo que junta funcionários, animação, toda aquela efervescência de ideias que já vi na BM e que gostava que ela continuasse a ter.

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