Acompanhada pelo pianista Cristóvão Luiz, a jovem cantora lírica sobe ao palco dos Paços da Cultura no próximo dia 1, pelas 17h00. Entre as suas experiências mais marcantes, está o facto de já ter cantado “A Portuguesa” para o Presidente da República

A quem ou a que se deve a sua ligação à Música?

A minha ligação à Música deve-se ao meu pai, que foi sempre um apaixonado por Música, mas que nunca teve oportunidade de aprender. Desde pequena que me lembro dos CD e discos de vinil do meu pai, que durante horas ficava a ouvir sentada no seu colo, quer de bandas mais conhecidas dos anos 80, quer dos clássicos de música orquestral.

Esta mesma ligação resume-se ao canto ou toca algum instrumento?

A ligação ao canto, em especial à ópera, surgiu muito depois. No começo, a minha paixão começou por ser pelas grandes orquestras, pelas grandes massas sonoras. Estudei violino durante 12 anos com os meus queridos professores, Alexandra Trindade e Augusto Trindade, que sempre tentaram tirar o melhor de mim e que me fizeram crescer enquanto música e pessoa.

O que faz uma mezzo-soprano? Há quanto tempo o é?

Considero-me uma cantora lírica, talvez desde que terminei a minha licenciatura, em 2015. Foi um ano marcante para mim, pois foi também quando comecei realmente a levar a minha profissão mais a sério e a ver a minha paixão pela ópera crescer a olhos vistos. O que realmente me faz amar o que faço é poder lidar diariamente com música de excelência, com magníficas composições, poemas, enredos…. No fundo, juntar as minhas duas grandes paixões: a ópera e a literatura e ainda ter a fantástica oportunidade de o poder compartilhar com os outros, com o nosso maravilhoso público. Gosto de pensar que a missão de um cantor é essa mesma: partilhar ideias, ideais, sentimentos; apelar às emoções, tentar manter viva a arte e enfim, talvez, utopicamente, tentar manter viva a essência humana.

Como é o seu dia a dia?

Diria que o meu dia a dia é bastante diversificado. Nenhum dia é igual ao outro e é também por isso que me considero uma artista. Não me imaginaria num trabalho das 8h00 às 17h00, todos os dias. Não faz parte da minha personalidade. Tento levar um estilo de vida o mais saudável possível, quer físico, quer vocal, quer mental, de forma a poder estar em forma. Tal como é necessário mudar as cordas de um violino com alguma regularidade, ou trocar de cerdas no arco, ou qualquer outro cuidado que se deverá ter com qualquer instrumento, com a voz há esse cuidado redobrado. O nosso instrumento está dentro do nosso corpo e por essa razão há que cuidarmos dele, respeitá-lo e fazer os possíveis para que, quando for hora de o usar, ele esteja pronto e corresponda às expectativas. 

“Não é fácil” ser-se soprano em Portugal

Como é ser uma mezzo-soprano em Portugal, ainda por cima tão jovem?

Não é fácil. Tentar ser, principalmente, solista e vingar em Portugal é bastante desafiante. Infelizmente, ainda há muito desconhecimento, muito estigma sobre ser um cantor lírico e fazer disso profissão. É um percurso que tem de ser feito com calma, confiança e devoção. Existem cada vez mais bons cantores, bons profissionais a sair para o mercado, “com fome” de palco, com ânsia de crescer, aprender e fazer mais, mas as oportunidades que o país oferece ainda são poucas.

Quem são as suas referências nacionais e/ou internacionais?

Duas das maiores referências nacionais no canto lírico são as sopranos Elisabete Matos e Dora Rodrigues. Exemplos de devoção à arte, ao canto; exemplos de persistência e trabalho e com as quais tenho o prazer de aprender e crescer constantemente. Não posso deixar de falar na soprano Marina Ferreira que tem sido também uma inspiração para mim, graças às conquistas que, ainda assim tão jovem, tem vindo a adquirir. A nível internacional, penso que toda a gente que me é próxima, sabe que tenho uma grande admiração pelo soprano Nadine Sierra. Como pessoa, como intérprete, também muito jovem…. É, sem dúvida, uma grande inspiração. E claro, os grandes nomes como Maria Callas, Teresa Berganza, Elena Obraztsova, Luciano Pavarotti, Franco Corelli. Enfim, são muitos aqueles que, a nível nacional ou internacional, me inspiram todos os dias a alcançar cada vez mais e melhor.

Quais foram as experiências profissionais mais marcantes? Temos conhecimento, por exemplo, que em dezembro de 2016 cantou “A Portuguesa” para o Presidente da República.

Sim, cantar “A Portuguesa” para Sua Ex.ª o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi, sem dúvida, uma grande experiência! Recentemente tive também a oportunidade de participar na ópera “Die Zauberflöte”, de W. A. Mozart, onde me estreei no papel de 3.ª Dama no CCB, com direção do maestro Pedro Amaral.

Algo que também me marcou, enquanto performer, foi a minha participação no Festival Internacional de Música Religiosa de Guimarães e no Festival Música d’Ponte, onde me apresentei a solo com a obra Nisi Dominus, de A. Vivaldi e como Dorabella no espetáculo “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, respetivamente. Destaco ainda um momento de grande aprendizagem, na fantástica masterclass com a maestra Enza Ferrari, há precisamente um ano.

Já ganhou algum prémio?

Fui premiada com o 1.º lugar no Concurso Internacional Cidade do Fundão, nos anos de 2013 e 2016. Recebi o Prémio de Mérito – Educação Magazine, pela média mais elevada, no ano de 2015, aquando o meu término da licenciatura pela Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco. Fui ainda bolseira do Círculo Richard Wagner e do Goethe Institut Portugal, o que me permitiu viajar até a Berlim no verão de 2017.

Mariana Sousa atua pela primeira vez em S. João da Madeira

Como surgiu a possibilidade de participar no Musicatos?

Surgiu a convite da Academia de Música de S. João da Madeira, mais especificamente, por parte da professora Mafalda Leite, a quem agradeço desde já a oportunidade. A professora Mafalda foi a minha primeira professora de canto na Academia de Música de Paços de Brandão (AMPB), onde fiz grande parte do meu percurso enquanto música. É com enorme carinho que falo da AMPB, pois foi e sempre será a minha segunda casa.

É a primeira vez que atua em S. João da Madeira?

Sim! E estou muito contente por isso.

Diga-nos o porquê de ser o pianista Cristóvão Luiz a acompanhá-la e não outro?

Não há muito a dizer sobre o pianista Cristóvão Luiz, para além de que é um excelente profissional, professor, músico, amigo e colega. É sempre um enorme prazer e orgulho poder partilhar o palco com o Cristóvão.

O que o público pode esperar do espetáculo do próximo dia 1?

Será um bonito recital, dedicado não só à canção, com dois belos ciclos: um em alemão, de J. Brahms e outro em italiano, de G. Rossini, mas também à ópera, com algumas árias de famosas óperas, como “As bodas de Fígaro”, “O barbeiro de Sevilha” e ainda “Les Huguenots”. Pelo meio terão a oportunidade de ouvir o Cristóvão a solo, com umas fantásticas variações de W. A. Mozart. Penso que é um programa que apelará a vários gostos e que, sem dúvida, merece ser ouvido e saboreado. Esperamos por todos, às 17h00 no dia da Restauração da Independência!

Quais os próximos projetos e atuações?

Estão previstos alguns projetos muito especiais para este próximo ano, com os quais estou muito feliz e agradecida, mas que ainda não poderão ser revelados na sua totalidade. Poderei apenas revelar que estarei novamente por terras nortenhas e que os projetos incluirão desde música sacra à canção e até mesmo ópera. Muito em breve poderão saber de tudo. Basta estarem atentos às minhas redes sociais: Mariana Sousa – mezzo soprano, no Facebook, ou @marianapsousa, no Instagram, para ficarem atualizados.

Programa

  1. Zigeunerlieder – Brahms, Op. 103

I – He, Zigeuner, greife in die Saiten ein!

II – Hochgetürmte Rimaflut

III – Wisst ihr, wann mein Kindchen am allerschönsten ist?

IV – Lieber Gott, du weisst

V – Brauner Bursche führt zum Tanze

VI – Röslein dreie in der Reihe blühn so rot

VII – Kommt dir manchmal in den Sinn

VIII – Rote Abendwolken ziehn am Firmament

  1. La regata veneziana – G. Rossini:

I – Avanti la regata

II – Co passa la regata

III – Dopo la regata

  1. Variações sobre o tema de Gluck “Unser dummer Pöbel meint” – W. A. Mozart.
  2. Voi che sapete – W. A. Mozart, personagem Cherubino, d’ As bodas de Fígaro
  3. Una voce poco fa – G. Rossini, personagem Rosina, d’ O barbeiro de Sevilha
  4. Nobles seigneurs, salut! – G. Meyerbeer, personagem Urbain, de Les Huguenots

 

Mariana Sousa

Natural do Porto e residente no concelho de Vila Nova de Gaia, Mariana Sousa tem 24 anos e é cantora lírica há três.

Completou o 8.º grau em violino com Alexandra Trindade e Augusto Trindade na Academia de Música de Paços de Brandão e em canto na classe da professora Mafalda Leite. Em 2012 ingressou na Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco (ESART), terminando a licenciatura com 19 valores e recebendo o Prémio de Mérito – Educação Magazine, pela média mais elevada.

Em 2015 ganhou uma Bolsa de Mérito pela ANA – Aeroportos de Portugal. Cantou a solo com a orquestra ESART. Também em 2015 participou no projeto “Luisa Todi – Jovens Clássicos”, obtendo a classificação de 16 pontos.

Já em 2013 e 2016 ganhou o 1.º lugar no Concurso Internacional Cidade do Fundão. E ainda em 2016, no mês de dezembro, cantou “A Portuguesa” para o Presidente da República.

Em 2017 foi bolseira do Círculo Richard Wagner e Goethe Institut Portugal, o que lhe permitiu estudar um mês em Berlim. No mesmo ano apresentou-se num recital com a pianista Jill Lawson no Grémio Literário de Lisboa e com a pianista Luísa Tender no Auditório do Instituto Goethe, a convite do Círculo Richard Wagner. Já em janeiro deste ano estreou-se no papel de 3.ª dama, na ópera A Flauta Mágica, de Mozart, sob direção do maestro Pedro Amaral, no Centro Cultural de Belém. Atuou ainda, em março passado, a solo no Festival Internacional de Música Religiosa de Guimarães (FIMRG) e um mês depois no Requiem de Niccolò Jommelli, com direção do maestro Reinaldo Guerreiro e a Orquestra Clássica da Metropolitana. Em junho último, concluiu o seu Mestrado em Música, na ESART.

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