Projeto de responsabilidade social nasceu no Agrupamento de Escolas de Arrifana onde Diogo Castro e João Reis estão a estagiar

Diogo Castro é de S. João da Madeira (SJM), enquanto João Reis é de Romariz (Santa Maria da Feira). Têm 25 anos e são os ex-formandos da CERCI – Cooperativa para Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades, CRL, de SJM, que podem vir a integrar a equipa da “Sweet +”. Uma startup idealizada pelo Agrupamento de Escolas (AE) de Arrifana no âmbito do projetoErasmus +“Sharing the World: Disability and Displacement”, que trabalha questões como a deficiência, os refugiados, acolhimento de órfãos, etc. e promove “a partilha de boas práticas entre escolas”.

Os dois jovens passaram por várias respostas sociais na CERCI de SJM, entre as quais a Formação Profissional. Durante o último curso que frequentaram (Técnico/a Auxiliar de Hotelaria), de 1 de setembro de 2015 a 13 de outubro de 2017, ainda fizeram Formação Prática em Contexto de Trabalho (FPCT) na Escola Básica de Milheirós de Poiares.

Mas, após o término do percurso formativo, “não foi possível a sua integração no mercado de trabalho nem no CAO [Centro de Atividades Ocupacionais] da CERCI, devido à falta de vagas”. E por isso “a CERCI tentou arranjar uma resposta provisória” “propondo a realização de protocolos de estágio pós-formação entre os ex-formandos, o Agrupamento de Escolas de Arrifana e a CERCI de SJM”, conforme adiantou ao labor a coordenadora da Formação Profissional, Sandra Oliveira.

É neste AE feirense, mais concretamente no refeitório da Escola Básica de Arrifana, que Diogo Castro e João Reis estão a estagiar desde outubro de 2017. A eles juntou-se, há coisa de um mês, Diogo Gomes, que tem 22 anos e é de Santa Maria da Feira. Este, contrariamente aos dois amigos de longa data, não andou na CERCI sanjoanense, mas foi, de igual modo, bem acolhido, sentindo-se já como sendo da “família”.

Ali os três sentem-se “úteis” ao desempenharem diversas tarefas como, por exemplo, lavar a loiça e varrer o chão. Ali são felizes! Tanto que garantiram à nossa reportagem que “gostamos muito de cá estar”, junto das “nossas avozinhas” referindo-se às funcionárias da cantina.

GN

 “Sweet +” pode ser uma realidade já no início do próximo ano letivo

Foi com a diretora do Agrupamento de Escolas de Arrifana há já 15 anos e também professora de Educação Física que o labor falou mais pormenorizadamente sobre esta iniciativa do “Sharing the World: Disability and Displacement”. Tal como fez num encontro com diversas entidades (CERCI Feira, IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional, ALPE – Agência Local em Prol do Emprego, Centro de Reabilitação de Gaia, Associação Empresarial de Santa Maria da Feira, entre outras) a 27 de novembro passado, Guiomar Silva deu a conhecer à nossa reportagem este projeto pensado “com amor e carinho” para melhorar a vida de jovens com deficiência e incapacidade, como Diogo Castro, João Reis e Diogo Gomes e tantos outros que chegam à idade adulta e se veem obrigados a ficar em casa porque, mesmo com formação profissional, não têm onde trabalhar.

Vivem-se tempos em que, no mercado de trabalho, pessoas com deficiênciaencontram muitas dificuldades para conseguir um emprego, mesmo que sejam qualificadas para os cargos aos quais concorrem. E tal se deve, em grande parte, porque as empresas, geralmente, não estão preparadas para lidar com suas necessidades.

A docente disse estar “farta de comissões que [só] estudam” isto e aquilo. “Toda a gente estuda tudo. Agora, avançar é que é uma coisa chata”, afirmou, acrescentando que, “se fosse eu a decidir, os recursos [humanos da Segurança Social] teriam de ser alocados de outra maneira. O IEFP teria recursos alocados às empresas só para fazer este trabalho”. “Temos imensas pessoas com incapacidade. Fazemos de conta que estamos todos preocupados, mas, de facto, não se faz nada”, condenou.  

No caso do Agrupamento de Escolas de Arrifana, que dirige, “sempre esteve disponível” para colaborar com a CERCI e outras instituições, “mas não pode empregar”. Daí, agora, esta ideia de “se avançar” com a “Sweet +”.

Só que para esta empresa de confeção de chocolates praliné, bolachinhas, doces de fruta da época, entre outros produtos, que garantirá ainda o embalamento, ser uma realidade é fundamental, para além de dinheiro obviamente, haver “alguém que lidere a sua criação”. O ideal, na ótica de Guiomar Silva, seria ser um pai (ou mais pais).

“Nós, escola, não o podemos fazer, porque não podemos ter negócio” “e nenhum dos pais se voluntariou”, lamentou a diretora do AE, prosseguindo: “Contam-se pelos dedos de uma mão os pais de alunos com NEE [necessidades educativas especiais] que são efetivamente interessados pelos filhos”. Há, aliás, “integrações que não acontecem porque há pais que se demitem do seu papel”, sublinhou, por sua vez, Sandra Oliveira.

Em suma, arranjando-se uma ou mais pessoas dispostas a “tomar as rédeas de todo o processo” e contando-se com os fundos de uma candidatura ao programa Erasmus + “Juventude em Ação”, que o AE vai apresentar, a “Sweet +” poderá já começar a funcionar no início do próximo ano letivo.

A equipa será composta por jovens com deficiência e incapacidade interessados (para já os três estagiários que o AE tem), o docente de Pastelaria, que terá a seu cargo a sua formação, e alunos e professores do AE de Arrifana voluntários, que ficarão responsáveis, entre outras coisas, pelo site, marketing, contacto com as empresas, gestão e entrega de encomendas, etc..

Os produtos serão confecionados “na Escola Básica de Milheirós de Poiares, onde temos uma padaria por causa do CEF de Pastelaria e Panificação”, avançou Guiomar Silva.  

 CERCI “muito orgulhosa dos seus ex-formandos”

Em declarações ao labor, a CERCI de S. João da Madeira disse-se “muito orgulhosa dos seus ex-formandos, por estes conseguirem conquistar os seus lugares no mercado de trabalho e por mostrarem as inúmeras capacidades que têm”. Além disso, “esta futura possibilidade de integração também permite mostrar o trabalho exercido pela equipa multidisciplinar da CERCI, em prol da desmistificação do conceito da deficiência”, acrescentou, fazendo ver ainda que

“tudo isto só é possível quando entidades como este agrupamento ‘abrem as portas às diferenças’ e ‘fecham as portas aos preconceitos’”.

Responsabilidade social não termina este ano

Ainda acerca do “Sharing the World: Disability and Displacement”, este projeto europeu termina em 2019, contudo, “o objetivo é ter impacto nas nossas atividades” futuras, como explicou Guiomar Silva. Tem como país coordenador a França e ainda, como parceiros, a Turquia, Eslovénia, Eslováquia, Letónia, Portugal e Roménia, sendo que o AE de Arrifana “é o único parceiro português”.

Desde o seu início até a momento, já foram realizadas mobilidades a alguns dos países parceiros. Além disso, foi feito o levantamento das barreiras arquitetónicas nas freguesias de Pigeiros, Romariz, Arrifana, Escapães e Milheirós de Poiares – trabalho que, entretanto, já foi apresentado aos respetivos presidentes de junta numa reunião onde lhes foi pedido que procedessem à eliminação das ditas barreiras até ao final do segundo período escolar.

O “Sharing the World: Disability and Displacement” está a ser posto em prática por professores e alunos do 3.º ciclo e do secundário. E, note-se, que estes últimos não têm de ter boas notas para participar. O importante é terem “o potencial, a motivação para mudar, a intervenção na turma, na escola”, deixou claro Guiomar Silva, rematando: “Costumo dizer ‘se os teus olhos brilham, então, está bem’ [podes participar]”.

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