A oração

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Nasci em plena guerra mas sou mulher de paz. Vivi os tempos difíceis que vieram depois, em que havia falta de tudo. Tive a sorte de não o sentir, pois em minha casa havia sempre o essencial. E se não havia, eu não dava por ela, pois fui sempre criada com muito amor e carinho. Posso dizer que fui uma criança feliz, crescendo e vivendo a minha natureza entre o verde dos campos e o azul do céu. Sempre me “vesti de sol e me despi de luar”.

Para além do luar, quando a lua se dignava aparecer, não havia luz nos sombrios caminhos da aldeia. Nas noites de breu, o que nos abria os passos era uma facha de colmo ou uma mão-cheia de agulhas acesas na lareira. Dentro da maior parte das casas, valiam-se da candeia de azeite ou do candeeiro de petróleo. No meu tempo já havia electricidade, tendo sido a nossa casa uma das primeiras a ter lâmpadas acesas.

Volto a dizer que fui uma criança feliz. Houve, no entanto, algumas nuvens que cobriram, por vezes, o sol da minha felicidade infantil.

À noite, ao serão, contavam-se histórias de aterrar, desde o lobisomem em noites de lua cheia, ao tamanquear do tardo na calçada e às luzinhas de almas penadas voando frente às janelas ou pousando na enxada dos que, de madrugada, faziam a rega do milho. A minha mente de criança era uma esponja. Absorvia tudo. Ninguém dava conta daquela minha atenção, mas foi ela que alimentou muitas das minhas fantasias, umas lindas, que me faziam ver para além dos montes e das estrelas, outras feias e tenebrosas como pesadelos e visões, único tormento da minha infância. Via monstros nos galhos das videiras ou nas rancas das árvores, baloiçando com o vento nas noites de luar, criei visões e alucinações que muitas vezes levavam a terrores nocturnos. Impressionavam-me as alminhas nas encruzilhadas, com as almas a arder nas chamas do inferno, de braços no ar, gritando por clemência, uma imagem do Coração de Jesus, pendurada na parede da sala, trespassado por uma lança e a sangrar, olhando para mim em qualquer canto onde eu me posicionasse, a imagem do Senhor dos Passos, na capela, coroado de espinhos, e que fazia a devoção de minha mãe. Também cismava vezes sem conta na letra das rezas e ladainhas, particularmente da salve-rainha que falava em desterro e degredados filhos de Eva. Filhos de Eva?! Na minha inocência, cheguei a perguntar ao meu pai se tinha alguma coisa a ver comigo. Ele, descrente, bondoso e inteligente ria-se com a bonomia que lhe era peculiar, dizendo-me para esquecer e não ligar nada a essas rezas. Amávamo-nos muito e foi das pessoas do mundo com quem melhor me entendi. Minha mãe era muito devota, educando-nos religiosamente, sem qualquer interferência de meu pai.

Quadro de Adão Cruz

Interessante é que, no meio de todo este fantasmagórico cenário, havia uma imagem de um santinho, oferecido pelos irmãos jesuítas do Seminário, de que eu gostava muito. Um anjinho da guarda com um ar muito doce, de asas abertas, protectoras, com as mãos quase a tocar a cabeça de um menino e uma menina, que de mãos dadas atravessavam uma ponte de pau sobre um riacho de águas cristalinas. Por trás uma oração: “Anjo da Guarda, minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia”. Vezes sem conta, ouvi minha mãe rezá-la… mas com uma pequena alteração: “Anjo da Guarda, minha companhia, guarda o corpo e a alma de meus filhos de noite e de dia”. E o que é certo é que eu em paz adormecia.

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