Saudades do Tatonas

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1. COIMBRA

Vêm-me à memória boas recordações dos velhos tempos de estudante em Coimbra.

Fantásticos tempos que passávamos à mesa do bar da Académica ou da esplanada da Praça da República, na conversa com os colegas à volta de uma cerveja, discutindo sobre tudo o que nos viesse à cabeça.

Nós, que vivíamos na Alta da cidade, confraternizávamos com colegas de todos os cursos e de todas as origens. E trocávamos experiências. Falávamos de Física com os de Engenharia, de Finanças com os de Economia, de Anatomia com os de Medicina, e com os de Letras discutíamos a anatomia das colegas deles… Nós, explicávamos aos outros como os princípios do Direito Romano fundaram a civilização.

Havia um colega, o Freitas, que andava em Engenharia e que era de Santarém. Era um marialva, tipo dos grupos de forcados, convencido, tinha a mania de que sabia tudo, e não havia nenhum assunto em que não tivesse opinião. Mesmo que não tivesse nada para dizer, o Freitas tinha sempre que discordar e ditar tese por mais absurda que fosse.

Havia também uma gura que todos acarinhávamos: era o Tatonas. O Tatonas era um homem já feito, com idade indefinida, mas com uma idade mental próxima dos doze anos, aquilo que podíamos designar como “um simples” que frequentava o meio académico e a quem nós tratávamos carinhosamente como uma mascote. Costumávamos chamá-lo para a nossa mesa, oferecíamos-lhe uns nos, dávamos-lhe umas moeditas e deixávamos que ele assistisse, feliz, às nossas conversas. O Tatonas ouvia tudo com muita atenção, como se compreendesse. E, tal como todos os futricas de Coimbra daquela altura, tratava os estudantes todos por “doutor” – era um sinal de respeito.
Um dia, o Freitas, como era frequente, estava a defender um argumento completamente absurdo, sem qualquer sentido ou propósito, tirando conclusões que não cabiam na cabeça de ninguém, mas que serviam apenas para que ele tivesse alguma coisa para dizer. Nesse momento, foi interpelado pelo Tatonas que lhe disse: “Ó doutor, o senhor é tão inteligente que às vezes até parece burro!”.

Esta frase do Tatonas, dita com um tom de profunda admiração pelo Freitas, é simplesmente brilhante. Veja-se que parte de uma premissa absoluta e respeitosa: para o Tatonas não havia dúvida que o Freitas era inteligente, tinha que ser porque era “doutor”. E chega à única conclusão plausível: as afirmações que o Freitas fazia eram de uma inteligência tão profunda que nenhum outro mortal conseguia alcançar a lógica subjacente, por isso parecia burro.

É precisamente isto que se passa quando alguém não tem nada de novo para dizer e precisa fazer prova de vida, tem que dizer qualquer coisa de diferente pois não tem a humildade de concordar com os outros, e sai-se com lógicas que o fazem fazer gura de burro, até para o Tatonas.

2. S. JOÃO DA MADEIRA

As memórias de Coimbra vieram-me à ideia quando na imprensa da nossa terra da semana passada li que a Câmara Municipal aprovou a celebração de um contrato-programa com os Bombeiros Voluntários da nossa cidade, criando uma relação de estabilidade e previsibilidade financeira para aquela nobre associação que relevantes serviços presta. O contrato foi aprovado por unanimidade da Câmara Municipal, o que não é surpresa.

Mas o que verdadeiramente me surpreendeu foi a intervenção do vereador do PSD Dr. Paulo Cavaleiro. Mesmo votando a favor (presumindo-se assim que estaria de acordo com o feito) o ilustre vereador achou que tinha que dizer mais alguma coisa. Achou o Dr. Paulo Cavaleiro, pelo que li, que “não se devia comprometer o próximo executivo num contrato de três anos” e que “pode vir um presidente novo que queira apoiar mais os bombeiros”.

Bom, seguramente o Dr. Paulo Cavaleiro não imaginará esse putativo “presidente novo” como sendo do PSD, pois a história revela que quando esse vereador mandava na Câmara num executivo PSD o que aconteceu foi uma constante falta de apoio suficiente aos Bombeiros e o não pagamento das verbas que eram devidas. Durante a Câmara PSD foi assumido o compromisso de pagar aos Bombeiros uma comparticipação anual pelas despesas de manutenção de uma Equipa de Intervenção Permanente (EIP) e tal compromisso não foi pago apesar dos constantes e desesperados apelos da Direcção da Associação – quem pagou o “calote”, cumprindo a palavra do Município, foi a Câmara dirigida pelo Dr. Jorge Sequeira. Mas isto não surpreende, porque a política seguida pelo PSD à frente dos destinos da cidade, era a de manter as associações sempre em genuflexão perante a Câmara, de chapéu na mão à espera do favor de uma benesse, sempre atentos, venerandos e obrigados (nos dois sentidos da palavra). A assunção e cumprimento de compromissos, a concessão de estabilidade financeira e previsibilidade quanto ao futuro das instituições da cidade, não era linha programática a seguir.

Mas o que me fez lembrar Coimbra foi o surpreendente argumento do Dr. Paulo Cavaleiro ao afirmar reservas à aprovação do contrato-programa (em relação ao qual lhe faltou coragem para votar contra) porque “pode vir um presidente novo que queira dar mais aos Bombeiros”. Como se um futuro Presidente da Câmara que quisesse dar ainda mais dinheiro aos Bombeiros não tivesse a possibilidade de alterar ou aditar o contrato-programa! Seguramente que a parte contrária do contrato não se iria opor!

Eis o dilema daqueles que, não tendo nada a acrescentar nem tendo a coragem de concordar sem reservas, tentam inventar argumentos e dissidências. Só porque têm que fazer prova de vida e justificar o difícil papel de oposição.

E aqui fiquei eu a perguntar aos meus botões: Talvez devesse ser dito ao Dr. Paulo Cavaleiro o mesmo que o Tatonas disse ao Freitas…

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