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O ciclo de concertos AcáMúsica entrou em 2024 com o duo Miguel Rocha (violino)/André Silvestre (piano). Ao longo dos cerca de 60 minutos de música, intercalados pelo habitual comentário que caracteriza o ciclo, a cargo do investigador no Inet-MD e professor da Academia de Música de S. João da Madeira, José Luís Postiga, o público foi brindado com uma retrospetiva da relação musical entre o violino e o piano, nesta relação a dois, feita ao longo dos últimos 250 anos.

Do piano enquanto líder do relevo sonoro, ouviu-se a Sonata em mim K. 304 de W.A.Mozart; do violino enquanto ‘voz primordial’, sentiu-se o canto de Niggun, o segundo dos 3 quadros da vida hassídica, que compõem Baal Shem, do compositor suíço Ernest Bloch; da comunhão de protagonismo num dialogo verdadeiramente camerístico entre ambos, escutou-se o último dos andamentos da Sonatina op.100 de Antonín Dvořák. A jovialidade dos dois talentosíssimos músicos foi conduzindo o repertório da meditação sonora propostas pelas referidas obras, ao festejo triunfal da vida terrena, completadas com as brilhantes execuções dos Capricho Basco op.24 de Pablo Sarasate e das famosas Czárdás de Vittorio Monti. Aqui foi a simplicidade com que Miguel Rocha fez brilhar todo o seu virtuosismo, que o leva a ser mais um prodígio português na conquista do mundo, estando a prosseguir os seus estudos na Universidade Mozarteum, em Salzburgo, Áustria. A extrema dificuldade técnica imposta pela obra do célebre virtuoso violinista espanhol romântico, passou para a plateia com a leveza que apenas os grandes executantes conseguem fazer, sustentado pelo sempre atento acompanhamento pianístico feito por André Silvestre, que forneceu a segurança de uma rede firme onde o ‘acrobata’ sente que pode confiar.

Ficou assim completa a demonstração de diferentes vertentes que a própria música pode ter: a sua universidade linguística permite que cada um processe o seu estado emocional, deixe acionar a sua mente interior de acordo com a sua própria identidade pessoal e cultura, ao mesmo tempo que o virtuosismo que ela pode fazer demonstrar abre espaço à celebração da vida plena, à conquista da certeza que a nossa inteligência emotiva não é artificial, é orgânica, material, espiritual e celebra em comunidade com todos os outros. Toda a plateia assim o entendeu com a ovação de pé prestada a este futuro, marcado ainda com um ‘encore’ feito em conjunto com a chamada da pequena/grande pianista Maria Raposo e Pinto, de apenas sete anos, para a celebração plena do talento, da humildade, da generosidade… da vida!

O AcáMúsica cumpriu assim, mais uma vez, a sua razão de ser: palco de grandes artistas das mais diversas áreas instrumentais, que permite a toda a comunidade a fruição dos sentidos – vale a pena ver, sentir na pele a emoção que as vibrações sonoras captadas pelos ouvidos conseguem fazer ativar no corpo humano. Numa era de tanta A(rtificial) I(ntelligence), é bom dizer que A(cá)M(úsica), todos os primeiros domingos de cada mês, às 11h00, gratuito, no Auditório Marília Rocha, em S. João da Madeira.

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