O concerto de maio do ciclo AcáMúsica, realizado no passado dia 5, como de costume às 11h00 no Auditório Marília Rocha, foi um acontecimento muito especial. Em primeiro lugar, porque coincidiu com a celebração do Dia da Mãe; depois porque transpôs para o palco do referido espaço o espírito artístico do século XIX. Ao vivo, um compositor, Telmo Marques, e um dos maiores virtuosos do mundo no seu instrumento, Sérgio Carolino, transportaram a plateia para uma realidade em que, não havendo registos fonográficos, a única forma de vivenciar um concerto com a presença do compositor e do músico a quem foram dedicadas a maior parte das obras era assistindo ao vivo no momento.

Ao longo dos cerca de 60 minutos de concerto ‘conversado’, com as intervenções verbais moderadas por José Luís Postiga, foi possível desmistificar um instrumento tão complexo como a tuba, poder sentir a sua elasticidade sonora, quer na busca de registos profundos e graves, como no lirismo obtido nos registos mais agudos.

O repertório incidiu exclusivamente sobre música escrita no século XXI, revisitando texturas mais programáticas e descritivas, com sonoridades aproximadamente jazzísticas, nas obras de Telmo Marques, encontrando raízes argentinas na inspiração contemporânea do compositor Daniel Schvetz, radicado em Portugal desde 1990, e alargando para os ritmos irregulares das danças folclóricas balcãs, dedicadas pelo compositor suíço Etienne Crauzaz ao tubista Sérgio Carolino, como, de resto, praticamente todas as obras do concerto. O tubista foi mostrando o seu grande ecletismo e exímia execução do instrumento nos diferentes registos estéticos e estilísticos, que fazem dele um intérprete pertencente a um grupo muito restrito dos melhores do mundo no seu instrumento, capaz de integrar, em simultâneo, projetos tão diferenciados como em áreas da música clássica, do funk, do jazz, entre outros. O recital não terminaria sem um improviso ‘sem rede’ apresentado por Telmo Marques e Sérgio Carolino, que fecharam com grande brilhantismo um espetáculo intimista, mas pleno de poder, virtuosismo, sonoridade, lirismo e grande comunhão entre músicos e plateia. Momentos únicos para repetir sempre que seja possível.

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