Celebrou-se a liberdade!  O penúltimo concerto da terceira edição do AcáMúsica foi totalmente dedicado à Língua Portuguesa e ao Canto que, seja de origem erudita, tradicional ou popular apresenta uma forte conotação com a luta contra a censura do Estado Novo, a celebração da revolução, a identidade da portugalidade no mundo. A quatro vozes à capela, ou a três com acompanhamento do piano, o Ensemble Vocal da Escola de Música de Esposende (EME) brindou a plateia com brilhantes execuções em torno de Fernando Lopes-Graça e José Afonso, terminando ainda com uma visão de Telmo Marques sobre o Mar Português de Fernando Pessoa.

“Acordai!” clamaram na abertura do concerto, ao executarem seis das Canções Heroicas de Lopes-Graça, relembrando ainda a “Jornada”, espécie de hino do Movimento de Unidade Democrática, “Mãe Pobre”, “Canto de Esperança”, “Canto de Paz” e “Canto do Camponês”. Depois, a vertente de etnomusicólogo de Graça foi revisitada com “Os Homens que vão para a Guerra” e “Grândola Vila Morena” de José Afonso. Aqui, os comentários de José Luís Postiga incidiram sobre a forma como José Afonso acentua o texto do célebre tema, aproximando do cante alentejano, com acentuações irregulares na prosódia textual, tratado por isso por Lopes-Graça como todos os outros cantos tradicionais recolhidos e harmonizados a quatro vozes. Com esta transição o grupo interpretou temas que percorreram o universo de Zeca Afonso, com arranjos vocais de Joaquim dos Santos, evocando o seu percurso desde as baladas de Coimbra, com o “Menino d’oiro” e o “Menino do Bairro Negro”, aos Cantares do Andarilho com a “Canção de Embalar” e o “Teto da Montanha”, para chegar a Cantigas de Maio, com “A Mulher da Erva”, e o tema que dá nome ao álbum, no arranjo para vozes de Eurico Carrapatoso, e terminando com “A Morte saiu à rua”, na versão corporal de Nuno Areias.

O concerto terminaria com a evocação de Fernando Pessoa ao “Mar Português” de Telmo Marques, num excerto da obra Mare Nostrum do mesmo compositor, não fosse o encore final com “Venham mais cinco”, que fechou em grande mais um momento musical memorável que este ciclo de concertos oferece a cada mês.

Viveu-se a música de um passado que não pode repetir-se, pois lembrando Camões, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sophia, festejou-se a portugalidade, ergueu-se um coro de primavera que anuncia o sol de verão, fazendo com que desta matinal celebração se oiçam já os rumores, os clamores e os tambores, pois podem mudar-se os tempos, as vontades, o ser e a confiança, mas a contas com o bem que foi feito, o mal que passamos, as guerras que se travam, a cada alvorada que nos ensinam oiro em pó que o vento espalha, nesta inquietação de quem não sabe o que fazer, o que resolver, mas, 50 anos depois, é certo: essa coisa, a Liberdade, é linda.

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