Sanjoanenses no Mundo

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Joana Santos

Esta sanjoanense tem 36 anos, vive e dá aulas no Box Hill Institute em Melbourne na Austrália.

O seu percurso académico começou na Escola Primária dos Condes (EB1/JI Conde Dias Garcia), no Ciclo de S. João da Madeira (EB2,3) e na Escola Básica e Secundária Dr. Serafim Leite.

No ensino superior, Joana Santos licenciou-se pela Escola de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, tornou-se mestre pela Universidade Nova de Lisboa e concluiu o doutoramento pela University of Technology Sydney. Neste momento, é professora de Microbiologia, Biologia e outras disciplinas no Box Hill Institute.

O que a levou a deixar a sua cidade, o seu país?

Desde adolescente que quis uma carreira em ciência e investigação e tinha sonhos de viver e estudar ou trabalhar no estrangeiro. Quando estava a fazer o mestrado em Lisboa conheci uma investigadora de Sydney, Austrália, com um trabalho muito interessante. Pensei que a Austrália seria um sítio fascinante para viver uns tempos e candidatei-me a uma bolsa internacional de doutoramento com ela. Com o acordo dos meus pais, lancei-me para o outro lado do mundo por quatro ou cinco anos.

“Tinha 26 anos e uma aventura planeada”

Onde está a trabalhar?

Depois de viver em Sydney, mudei-me para Melbourne e estou a trabalhar no Box Hill Institute, uma instituição de ensino superior e técnico, há cinco anos.

Quais as suas funções nessa instituição?

Sou professora de Microbiologia e outras disciplinas relevantes como Biologia, Genética e Biossegurança Humana. Sou responsável por desenvolver o currículo e os materiais didáticos e dar as aulas teóricas e práticas.

Este é o primeiro emprego fora de Portugal?

Depois de terminar o doutoramento voltei para Portugal por pouco tempo, mas acabei por voltar para a Austrália, desta vez para Melbourne. Tive vários trabalhos pequenos e temporários em Sydney e Melbourne, mas este é o trabalho mais importante em termos de carreira depois do doutoramento.

Foi sozinha?

Sim, tinha 26 anos e uma aventura planeada. Ao início foi um pouco difícil. Gostei da Austrália e das pessoas logo que cheguei, mas tinha muitas saudades da família e amigos. Édifícil habituarmo-nos àideia de não vermos ou abraçarmos as nossas pessoas queridas por um tempo indeterminado, independentemente de termos um bom ou mau dia.

Acho que depois da minha primeira viagem de férias a Portugal ficou mais assente na minha cabeça (e coração) que se pode ser feliz e aproveitar a vida longe, desde que a ligação continue. Estou cá há 11 anos e acho que não passou uma semana sem falar com os meus pais. No entanto, agora já não estou sozinha. Conheci o meu (agora) marido australiano e temos uma filha linda e saudável.

“Existe um apoio muito grande para as novas mães e uma flexibilidade muito boa em termos de voltar à carreira”

Conhece muita gente? Portugueses e estrangeiros?

Já conheço muitas pessoas. Tenho amizades muito importantes dos meus primeiros anos em Sydney e novas amizades criadas em Melbourne também. Penso que não étão fácil fazer novas amizades quando somos adultos, mas depende muito da situação onde nos encontramos. Algumas das amizades mais chegadas desenvolvi pela relação com o meu marido, enquanto outras surgiram quando me tornei mãe. Existe aqui um apoio muito grande para as novas mães e uma flexibilidade muito boa em termos de voltar àcarreira.

Portugueses conheço poucos. Gosto de estar envolvida em grupos privados nas redes sociais para ter uma noção do que se vai passando com os portugueses na Austrália, mas a verdade éque não sinto muita falta dessa ligação cá. Para mim é mais importante manter contacto com os “meus” portugueses em Portugal, mesmo que não fale com alguns deles meses a fio.

Quais os pratos e bebidas característicos?

Relativamente a bebidas éfácil… cervejas de qualidade, e muitas consideradas artesanais ou de especialidade, e vinhos (deliciosos) de varias regiões demarcadas. Não há uma bebida típica ou tradicional.

A cozinha australiana émuito variada, com uma fusão já longa de diversas culturas. Não têm muitos pratos tradicionais como existem em Portugal. No entanto, existem algumas coisas que são consideradas muito “Aussies” (australianas): a Vegemite é uma pasta de barrar em torradas feita principalmente de levedura com um sabor bastante salgado (é raro um estrangeiro gostar porque é mesmo de um paladar adquirido); duas sobremesas, a Pavlova, que é um merengue enorme com natas e frutos frescos em cima, e  Lamingtons, uns quadrados de bolo de esponja com uma cobertura de chocolate e embrulhados em coco (clássico doce inglês para acompanhar com o chá da tarde); as tartes de carnes (Meat Pie) são o snack favorito para comer quando se vai ver o futebol; o “Fish & Chips” (peixe e batatas fritas) é a comida favorita para se comer depois de um dia na praia; e os churrascos são o método preferido de cozinhar carnes, peixe, etc. Quase todos os parques aqui têm uns grelhadores fixos para o público usar durante os habituais picnics de Verão.

Créditos: DR

Quais as tradições?

A Austrália éum país muito recente, comparado com Portugal, e a maioria das tradições é inglesa. No entanto, os australianos são muito patriotas e gostam de celebrar os feitos da nação. Tem dois feriados muito importantes: ANZAC Day que calha também no 25 de Abril, que celebra os veteranos e soldados perdidos na Primeira Guerra Mundial; e o Dia de Austrália, no dia 26 de janeiro, que celebra a independência como colónia de Inglaterra. O Natal é celebrado durante o dia 25, e não na consoada, com churrasco e uma ida à praia ou ao parque; e também festejam o BoxingDay como os americanos no dia 26 de dezembro com saldos enormes em todo o lado. São doidos…

“É uma cidade conhecida pelo grafíti urbano e pelas ´laneways´”

Quais os locais emblemáticos?

A Austrália tem muitos locais reconhecidos internacionalmente, mas Melbourne não tem muitos em particular. Talvez o Luna Park com a sua cara gigante na entrada ou a estação principal de metro “Flinders Station”. No entanto, éuma cidade conhecida pelo grafíti urbano e pelas “laneways”, um pouco como o Bairro Alto em Lisboa. Dizem, e concordo, que éa cidade australiana com mais estilo europeu, o que a mim me agrada.

Como são os habitantes/o povo do local onde está?

Melbourne éuma cidade multicultural ao máximo. Encontras tantos australianos como pessoas de outras nacionalidades, alguns já segunda geração de imigrantes, outros recém-chegados, e outros ainda vindos sótemporariamente para férias, estudo ou trabalho. Claro que dizer que são todos relaxados ou simpáticos égeneralizar e por isso exagerar, mas o ambiente émuito agradável, com grande esforço dedicado àqualidade de vida. Éuma mistura de pessoas e de estilos de vida que funciona muito bem.

“O mais difícil foi estar longe de quem gosto e da noção da distância”

O que mais o surpreendeu?

A facilidade de me adaptar! Quando vim para cá, a Austrália era aquele sítio mágico do outro lado do mundo! Muito rapidamente me apercebi que fundamentalmente funciona da mesma maneira. É um país lindo, com bastante costa marítima e cidades interessantes, com pessoas simpáticas e que em geral acolhem estrangeiros bem (soa familiar?). Claro que existe tensão com alguns problemas de imigração, tal como existe noutros países que são alvo preferencial de refugiados e imigrantes “em massa”, mas vim para cá numa fase calma e com um objetivo definido.

O que mais custou a adaptar?

O mais difícil foi estar longe de quem gosto e da noção da distância. Foi muito difícil encarar que não posso ‘ir a casa dos meus pais no fim de semana”, ou apertar (eu adoro abraços apertados) os meus manos quando lhes digo olá, ou abraçar uma amiga quando algo corre mal. Ainda tenho pesadelos com situações que podem ocorrer a pessoas que me são mais queridas, e que a viagem pode não me levar aí a tempo… Mas as novas tecnologias permitem que a saudade seja mais fácil de lidar.

“Os Australianos têm uma pronúncia muito característica e usam muito calão”

Há alguma expressão típica do local onde está?

Os australianos têm uma pronúncia muito característica e usam muito calão. Têm imensas expressões que têm um significado completamente diferente do que inicialmente parece. Por exemplo… “no worries” – não te preocupes/não faz mal; “stoked” – super feliz/excitado com alguma notícia; “true blue” – autêntico australiano; “fool as a goog” – cheio de comida; “you have ants in your pants” – não paras quieto; e outras muito engraçadas, mas marotas demais para escrever aqui. Os australianos também são conhecidos por serem um povo tão relaxado que atéencurtam as palavras: breakfast é“brekie”, barbeque (BBQ) é“barbie”, umbrela é “brolly”, e afternoon é“arvo”. Entre o sotaque e o calão, às vezes, no início nem sabia do que estavam a falar. Mas são pessoas que adoram falar disso e explicar aos estrangeiros. Por isso, era sempre um bom tema de conversa.

Que sítios costuma frequentar?

Gosto muito de andar pela cidade e arredores e frequentar mercadinhos de artesanato e gourmet no fim de semana e parar por cafés para o habitual café com amigos. Com uma filhota muito do tempoéagora dedicado a ela, com visitas regulares a parques, praia e distrações para ela. Quando estava em Sydney saía muito ànoite e tinha uma vida típica de estudante, mas agora são as habituais saídas em família, muito semelhantes às daí.

“Quando desembarco do avião sinto-me em casa, seja em Portugal ou na Austrália”

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?

Éum balanço muito positivo. Cresci imenso como pessoa e como profissional, conheci o meu marido e tive uma experiência muito boa com o nascimento da minha filha pelo sistema de cá. Depois de 11 anos, a Austrália ainda éum país que me fascina e que agora considero meu. Este ano nacionalizei-me australiana. Só pus em questão fazê-lo porque ambos os países permitem manter dupla nacionalidade. Serei sempre portuguesa, mas agora também tenho raízes e profundas emoções ligadas a este país que me acolheu tão bem. No dia da cerimónia estava inesperadamente emocionada. Tenho agora dois hinos que me trazem lágrimas aos olhos e quando desembarco do avião sinto-me em casa, seja em Portugal ou na Austrália. Como dizem os australianos “it’s a win win!”.

Créditos: DR

Do que sente mais falta?

Da minha família. Quando volto de férias também tenho sempre uma vontade enorme de comer as minhas coisas preferidas, de bacalhau a ovos moles, passando pelos queijos moles e o presunto. Mas acho que é porque estou em solo português. Quando estou cá, estou bem, só tenho saudades de abraços apertados.

Do que é que sentirá falta, do local onde está, se um dia for para outro país ou regressar a Portugal?

Não sei ainda, sinceramente. Talvez da familiaridade da minha vida e amigos; da qualidade de vida, especialmente monetária; da diversidade de culturas e oportunidades; da curiosidade das pessoas por Portugal, que me enche de orgulho e me faz falar sem parar.

“Temos planos para voltar a Portugal”

Os seus planos passam por voltar a Portugal?

Sim, temos planos para voltar a Portugal. O meu marido gosta imenso do país e gostava de ver a minha filha crescer perto da minha família. No entanto, ainda estamos na fase de planeamento. Talvez para breve.

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