Como se poderia conhecer na actualidade o real significado de democracia sem termos à nossa mão em qualquer livraria, “A República” de Platão, escrito há 2.000 anos atrás. Ou ainda o “Tratado de Arquitetura” de Vitrúvio escrito nesse tempo

Não é propriamente verdade que “Os Maias”, obra fundamental de Eça de Queirós (1845-1900), tenha saído do programa curricular do 11º ano do ensino secundário. Efetivamente, as escolas ficam agora com a liberdade de colocar esta peça literária, entre outras do mesmo autor, como “A ilustre casa de Ramires”, nos seus programas para o próximo ano letivo 2018/2019. Isto segundo um esclarecimento recente do Ministério da Educação. A ver vamos se assim será…

A presente questão levanta, no entanto, uma realidade gravosa que se tem vindo a verificar nos últimos anos. Ou seja, os alunos não têm de ler integralmente qualquer peça literária. Basta passar os olhos pelos resumos dos ditos livros. Uma espécie de condensados do tipo “fast-food” literário, em que o aluno é bombardeado com conceitos literários dispares, desconexos e abstratos. Todos os ingredientes necessários para que depois não tenha vontade alguma em ler um livro integralmente. No fundo, como se quisessem avisar: atenção! Ler é chato!

Não me admira, pois, que, em tempos próximos, tenham que ler só os primeiros parágrafos dos “livros curriculares”, já que os jovens de hoje se encontram cada vez mais dependentes e viciados em telemóveis, trocando entre si mensagens do tipo telepático não estruturado aonde prevalecem monossílabos e frases de quatro palavras.

Como consequência encontramos hoje jovens que não conseguem verbalizar um raciocínio com clareza, com desenvolvimento, sem omissões de palavras e com boa construção oral. Um pouco como a música “pimba” estrangeira, que hoje se ouve na rádio em geral; murmúrios e safanões vocabulares.

Esta realidade deve-se muito à redução progressiva nos hábitos de uma leitura regular por parte das pessoas, mesmo em certo tipo de população que se esperava ser instruída e licenciada.

Ler um bom romance de ficção pode ser um enorme prazer para quem o desfruta. É como se de uma viagem mental se tratasse, em que cada leitor absorve o conteúdo a seu modo, tudo aquilo que o escritor criou intensamente e depois lhe oferece. Nada comparável à visualização de um filme em que as imagens penetram no cérebro sem esforço algum para quem o vê, incitando o espetador à preguiça mental.

A leitura de temas especializados enriquece substancialmente todo o “individuo”, levando-o a ver o mundo de forma mais inteligente e saudável. Pode até moldar a perspetiva de percurso de vida de uma pessoa. Porque LER implica “Conhecimento”, que, por si, é o oposto da ignorância.

O livro será sempre o maior instrumento de cultura intergeracional. O grande testemunho de civilizações, acontecimentos históricos, descobertas de avanços tecnológicos. O maior registo para que nada fique esquecido de geração em geração.

Um “livro” é o resultado de uma pesquisa imensa por parte do seu autor, às vezes, o resultado de milhares de horas de investigação, revisão de textos, e da procura da veracidade dos factos apresentados quando o seu conteúdo não é ficcional.

Como se poderia conhecer na atualidade o real significado de democracia sem termos à nossa mão em qualquer livraria, “A República“ de Platão, escrito há 2.000 anos atrás. Ou ainda o “Tratado de Arquitetura” de Vitrúvio escrito nesse tempo.

Por tudo isto, caro leitor, desligue a televisão, o Facebook, o Instagram ou outra virtualidade aditiva qualquer e leia, por exemplo, um bom livro de Eça de Queirós, como “Os Maias” ou o “Crime do Padre Amaro”, que relata a paixão de um padre por uma adolescente – Amélia, livro que  foi uma” pedrada no charco” em 1875. E irá sorrir com a atualidade das situações ali descritas.

Ficará surpreendido com o que este genial escritor português tem para lhe dar .

Excertos de Eça de Queirós:

… Lisboa é Portugal – gritou o outro ( Ega ) – Fora de Lisboa não há nada. O País está todo entre a Arcada e S. Bento .

(“Os Maias” – 1888)

– Lisboa é uma cidade doceira, como Paris é uma cidade intelectual. Paris cria a ideia e Lisboa o pastel.

(“As Farpas” – 1872 )

– A arte é o resumo da Natureza feita pela imaginação

(“Correspondência de Fradique Mendes” – 1900 )

…  Só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres – diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a página 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje, Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, “baptistes”, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos… Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para os cinco dedos de um cristão, em percorrer, palpar estas maravilhas macias; mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins…

(“O Mandarim” – 1880)

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