O rapaz na imagem é o Álvaro Namueto (significa “pé grande”, em macua). Nasceu eu Murrupula, província de Nampula, mas contingências da vida trouxeram-no até Cuamba. Após alguns anos como monitor da escolinha de Namparowane, e numa altura em que as 5 escolinhas da sua zona ameaçavam fechar, o Álvaro chamou a si (e bem) o protagonismo. Incentivou a população, reuniu com os líderes comunitários, assegurou que a sua escolinha continuava a funcionar, contribuindo assim de forma decisiva para que outras duas comunidades olhassem para o seu exemplo, se reorganizassem e em pouco meses levantassem 2 estruturas para a escolinhas continuarem a funcionar. Foi com todo o mérito e naturalidade promovido a supervisor de zona.

No entretanto, a sua casa foi assaltada, e entre o pouco que havia para roubar, “carregaram-lhe” a bicicleta, o que equivale a dizer que ficou sem o seu principal e único meio de transporte. Mas nem isso o impediu de continuar (e bem) o seu trabalho. De uma entrega e disponibilidade incomum, percorrendo a pé distâncias e trilhos difíceis de descrever, mais das vezes sob altas temperaturas, apoiou e ajudou a formar os novos monitores, reuniu quinzenalmente com as várias Comissões de Gestão e foi sempre uma mais-valia nas formações, tanto pedagógicas como em gestão e sustentabilidade.

Quando quase um ano mais tarde foi possível oferecer-lhe uma bicicleta e desse modo reduzir o tempo das duas deslocações de 3h para menos de 1h, a sua cara de felicidade dizia tudo. Suponho que algum alívio também. A idade, eu 27 e ele 29, aproxima-nos e talvez isso tenha contribuído para uma relação de amizade, confiança e respeito, muitas vezes tão difíceis de encontrar por aqui. O Álvaro tem a 10ª classe e prometeu-me que este ano vai fazer os exames para concluir a 11ª classe. Talvez num primeiro momento, com alguma sobranceria confesso, tenha achado que tinha muito para lhe ensinar. O que eu não esperava era aprender tanto.

Entre (muitas) outras dificuldades, vive numa pequena casa, construída com materiais locais e onde (aparentemente) falta tudo, isto numa zona em que o acesso a água (nem falo de água potável) é um sério problema. E nós? Quantas vezes deixamos as torneiras abertas e a água a correr livremente mesmo sabendo que vai directamente para o cano? Em bom rigor, todos os dias fazemos os mesmos gestos e cumprimos os mesmos rituais sem dar conta do(s) erro(s) que cometemos. Deixar uma torneira aberta enquanto lavamos os dentes, enquanto passamos o sabonete no banho ou enquanto lavamos uma alface para a salada é quase um crime. E, no entanto, acabamos por cometer todos os dias pequenos, médios e grandes crimes desta natureza.

Na verdade, quando confrontado com situações extremas ou adversas, perante a incerteza, quando o primeiro impulso é complicar, ser pessimista ou esperar o pior, o Álvaro simplifica. E simplificar passa por ser positivo, ter um sentido construtivo e um olhar mais tolerante. Significa não esperar da vida aquilo que ela não nos pode dar e acima de tudo, valorizar e viver melhor com aquilo que temos. E podemos ser simples de várias maneiras. Não é preciso fazer um voto de pobreza para viver com simplicidade. Podemos (e devemos) tirar partido daquilo que possuímos tendo sempre em conta os sentimentos dos outros, do nosso próximo.

E este é apenas um exemplo que chega para perceber que só dando valor às coisas pequenas as podemos transformar em coisas grandes. Ou por outras palavras, como diz a Laurinda Alves “não existe um tamanho para cada coisa que fazemos, o que há é pessoas com talento especial para transformar as pequenas em grandes coisas”.

Luís Santiago

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