Professores de AEC na primeira pessoa

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Gisélia Nunes
Gisélia Nunes

Cristina Ferraz e Ricardo Silva dão Atividades de Enriquecimento Curricular em S. João da Madeira há mais de 10 anos

 No início de mais um ano letivo, o labor foi ao encontro de quem no município “veste a pele” de professor de Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC).

Em horário pós-letivo, Cristina Ferraz, de 48 anos, e Ricardo Silva, de 35, dão AEC nas escolas do 1.º ciclo de S. João da Madeira (SJM) há mais de uma década. E, apesar da “precariedade em termos financeiros”, dizem-se realizados pessoalmente com o que fazem.

A viver em SJM desde os quatro anos, Cristina, além de ter formação na área de Desenvolvimento Pessoal, é professora de Música há mais de 20. “Ainda sou do tempo em que eram as associações de pais que pagavam aos professores de Música para darem aulas no horário normal”, contou à nossa reportagem, afirmando, logo de seguida, que começou “a dar AEC por opção”. “Tinha a formação, comecei a ser convidada e fui aceitando”, acrescentou.

Aliás, a docente admitiu mesmo ao jornal que “não me vejo fechada no mesmo sítio durante muito tempo. O trabalho de escritório ou só com uma turma dá-me um bocado de aflição”.

Acontece que, à semelhança de muitos outros professores de AEC, o que se recebe ao fim do mês “não dá para as despesas”. Ainda mais quando se tem filhos, como é o seu caso.

Cristina vê-se, assim, obrigada “a ter de percorrer várias escolinhas”. E não pode limitar-se ao ensino público, dando aulas também no privado. Ao ponto de, em tempo de aulas, ser “quase como a ‘formiguinha’, a trabalhar das 9h00 às 21h00”. Imagine-se que “no ano passado só à quarta-feira ia a seis escolas”.

“Em termos financeiros é, pois, muito instável. Vivemos na indefinição. O que para uns são férias para mim é um período de ansiedade”, confidenciou, referindo-se aos factos de não ter direito a subsídio de férias nem de Natal e de que “nada nos garante que no ano letivo seguinte tenhamos horário”.

“Foram as AEC que me trouxeram para S. João da Madeira”

Não é que já não conhecesse a cidade, mas era apenas de passagem. Ricardo é natural de Vale de Cambra, terra onde tem familiares e começou a trabalhar há pouco tempo no clube de futebol. Mas é em SJM, onde vive há seis anos, que é professor de AEC há mais de 10.

“Foram as AEC que me trouxeram para S. João da Madeira”, adiantou ao labor este licenciado em Ensino Básico (2.º ciclo) – variante de Educação Física (EF), que desde sempre exerceu no ensino público e praticamente só lecionando AEC.  Há coisa de cinco anos, Ricardo ficou colocado a nível nacional, em Peniche, masaté nessa altura“também dei AEC para completar o horário”.

À semelhança de Cristina, também este jovem valecambrense reconheceu que não se pode confinar ao que aufere como professor de AEC: “Temos de ter um suplemento. Eu, por exemplo, estou no futebol. Mas há colegas meus que estão em ginásios, piscinas, etc.. Temos de procurar outras vias em termos financeiros”.

Por isso, Ricardo continua a fazer o que sempre fez. Ou seja, a conciliar o futebol com as aulas de AEC. Estas últimas “são a minha prioridade neste momento” e, enquanto for possível, ministradas em S. João da Madeira, “dadas as excelentes condições”. “Somos uns privilegiados por trabalhar cá. Estamos 10 passos à frente de outros municípios”, reforçou a ideia.

Se for selecionado para mais um ano letivo [no dia 3 de setembro, aquando da conversa do labor, ainda não sabia], Ricardo terá a seu cargo, para além da AEC, Expressão Física Motora no âmbito do novo Programa de Atividade Física e Desportiva – “Crianças em Movimento”.

A partir deste ano letivo, todos os alunos do 1.º ciclo passam a ter acesso a uma hora semanal de EF coadjuvada entre o docente titular de turma e um licenciado em Educação Física contratado para o efeito (ver texto secundário nesta página).

E esta é uma medida que o professor de Vale de Cambra vê “com bons olhos”. Aliás, em seu entender, “devia até ser uma hora por dia, cinco horas semanais”. Na sua opinião, “é fundamental para que a população não seja tão sedentária. Podia-se até trabalhar a concentração, o relaxamento, a mente, das crianças”.

Programa de AEC sob responsabilidade da câmara

Em S. João da Madeira, contrariamente a outros municípios do país, o programa de AEC continua a ser responsabilidade da câmara municipal, em estreita articulação com os agrupamentos de escolas e outros parceiros educativos concelhios.

Para o seu desenvolvimento, neste ano letivo 2018/2019 que agora começa, vão ser contratados 18 professores de Educação Física, sete de Música e “ainda iremos recorrer aos técnicos dos ATL Gente Miúda e Santa Casa da Misericórdia para as Expressões Artísticas e Cidadania”, conforme adiantou ao labor a divisão de Educação da autarquia.

A mesma fonte referiu ainda que as AEC vão incluir, igualmente, o ensino de natação para todos os alunos do 4.º ano de escolaridade, bem como uma aula semanal no Pavilhão das Travessas para todos os alunos do 3.º.

O Município vai mais longe em relação ao proposto pelo Ministério da Educação, ao alargar as AEC à Educação Pré-Escolar com Música e Atividade Física. Tudo isto a título gratuito.

Município toma “medida inovadora na região”

Alunos passam a ter uma hora semanal de atividade física coadjuvada

No ano passado, o reforço da atividade física dos alunos do 1.º ciclo, com uma hora de Educação Física por dia, foi uma das bandeiras da campanha eleitoral daquele que é hoje o presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, Jorge Sequeira, estando agora a dar passos largos no sentido de se tornar uma realidade até ao final do mandato.

Numa iniciativa inédita, pelo menos, “na região”, neste ano letivo, que se inicia a 17 de setembro, os alunos do 1.º ciclo passam a ter uma hora semanal de Atividade Física e Desportiva coadjuvada, ou seja, inserida no seu curriculum e que vai estar a cargo do mesmo professor que dá a AEC de Educação Física. Desta forma, pretende-se reforçar esta área crucial para o crescimento harmonioso e integral das crianças e, futuramente, chegar à prática de uma hora de Educação Física por dia.

Em declarações exclusivas ao labor, a divisão de Educação da autarquia afirmou não poder dizer, “com rigor, se é uma medida inédita no país”. No entanto, garantiu que “será seguramente inovadora na região e, mais importante do que isso, torna a escola e o ensino mais apetecíveis”.

Com esta nova medida, gratuita para as famílias, todos os alunos vão beneficiar de igualdade de oportunidades de aprendizagem e prática da atividade físico-motora, independentemente das suas caraterísticas pessoais, sociais ou económicas, através de um ensino individualizado e diferenciado.

De salientar que, no início deste ano letivo, vai ser levado a cabo um inquérito de diagnóstico a todas as crianças do 1.º ciclo e respetivas famílias, com vista a implementar, futuramente, um programa de atividade física, constituído por um acréscimo de duas horas semanais para o 1.º e o 2.º anos e uma hora semanal para os 3.º e 4.º anos.

“Na base da implementação desta medida reside o facto de acreditarmos que a atividade física é fundamental para o crescimento das crianças, contribuindo decisivamente para o seu sucesso físico e inteletual”, sublinhou, a propósito, a vereadora da Educação, Irene Guimarães.

 

 

 

 

 

 

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