Centenários desvendam segredo da longevidade

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Nasceram em 1918, ano em que terminou a Primeira Guerra Mundial, e num tempo em que S. João da Madeira (SJM) ainda era uma freguesia do concelho de Oliveira de Azeméis. Já lá vão 100 anos

 

Flávia Emília das Neves, Olívia Ferreira de Lima e Manuel Dias Azevedo são três sanjoanenses centenários, curiosamente todos nascidos em setembro e no caso das duas primeiras no mesmo dia. Amigas de infância, Flávia e Olívia completaram um século de vida na passada sexta-feira e Manuel no dia 26.

Cada um celebrou o aniversário com a respetiva família e os três foram reconhecidos pelo Município, que fez questão de os felicitar pessoalmente e ainda de lhes oferecer um ramo de flores.

Na última segunda-feira, Dia Internacional da Pessoa Idosa, a nossa reportagem foi ao encontro de Flávia, de Olívia e ainda de Maria Lúcia Azevedo, filha de Manuel cujo estado de saúde inspira cuidados. E digamos que ficou rendida à tamanha riqueza destas três histórias de vida.

 

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Câmara felicita aniversariantes

Para Jorge Sequeira, “completar 100 anos é um feito assinalável, que merece uma referência muito especial”. Por isso, o presidente da câmara entendeu que “seria de inteira justiça assinalar estes aniversários com um gesto de simpatia do Município”.

Trata-se de “agradecer e reconhecer tudo o que estes munícipes fizeram e continuam a fazer por S. João da Madeira, que hoje é cidade e concelho, mas que, quando nasceram, era ainda uma freguesia, embora já a caminho de conquistar a sua independência administrativa”.

 

GN

“Levei muitas transfusões de sangue novo”

“Deixem-me falar, que sou eu a entrevistada”, disse, várias vezes, Flávia dirigindo-se às filhas que ali se encontravam e que, volta e meia, se metiam na conversa. A centenária tratou logo de “pôr os pontos nos is” quanto a quem “mandava” ali.

Mãe de nove filhos (dois deles já falecidos), avó de 17 netos e bisavó de 22 bisnetos, Flávia chega aos 100 anos com uma “herança de amor” sem igual, que a deixa visivelmente orgulhosa e emocionada, conforme o semanário pôde testemunhar. Vive sozinha na sua casa, em Santo Estevão, numa rua sem saída onde também residem alguns dos seus filhos, que estão sempre atentos aos seus passos.

Ao jornal, Flávia, nascida no lugar da Ponte, abriu o “livro da sua vida”, começando por contar que “empreguei-me aos 15 anos nos guarda-chuvas” e que, depois do fecho da fábrica devido à morte do patrão, “fui para a fábrica do pelo”. Partilhou também com o labor as suas dificuldades no “tempo da candonga”, quando, já casada, “fazia das tripas coração” para arranjar farinha e milho para cozer pão para a família.

Conheceu o falecido marido, Eurico Ferreira Gonçalves, na escola. “Nessa altura, andava-me sempre a roubar a travessa do cabelo”, mas mal imaginava que “aquele rapazinho ia ser meu marido”. Mais tarde, já jovens, reencontraram-se na Praça Luís Ribeiro e desde aí nunca mais se separaram até há 30 anos, quando Flávia ficou viúva. Eurico era sapateiro e “muito bom marido e pai”.

Assumindo-se como “uma mulher de guerra”, Flávia não “se dá parada”. É ela que arruma a casa, lava a roupa, passa a ferro e – imagine-se! – até cuida do quintal. Além disso, “faço a minha caminha, visto-me sozinha, lavo a minha carinha, penteio-me sozinha”. Só não cozinha.

Questionada sobre o segredo da sua longevidade, desvendou: “Levei muitas transfusões de sangue novo”. “Talvez seja por isso [risos]”, acrescentou, admitindo ainda ser “viciada [em comprimidos] Ben-u-ron”.

 

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Amor à vida e gosto pelo trabalho

Foi a filha Maria Lúcia, de 63 anos, que nos deu a conhecer a história de Manuel, “um homem muito trabalhador, lutador, que sempre pôs em primeiro lugar a mulher e os filhos”. Tem dois netos e dois bisnetos.

Sapateiro de profissão, Manuel ainda fazia consertos em casa até há poucos anos. “Ele não se dava parado, dizia que parar é morrer e que a coisa que mais gostava era de viver”, afirmou Maria Lúcia que, depois das mortes da mãe e, mais tarde, do irmão, ainda falou ao pai para ir viver com ela para Lisboa, mas “ele disse-me para lhe pedir tudo menos isso”.

Maria Lúcia fez-lhe a vontade. O pai continuou na sua casa, em S. João da Madeira. Ia almoçar à ACAIS – Associação do Centro de Apoio aos Idosos Sanjoanenses. Mas recusava-se a ficar lá o resto do dia. “Dizia que não era velho e que queria ir para as camionetas [Centro Coordenador de Transportes] ter com os amigos, vê-los a jogar as cartas e conviver” ou, então, “com as mãos atrás das costas”, ia dar uma volta pela cidade.

Definitivamente, Manuel “não se dava parado”. Tanto era assim que até há coisa de dois anos, antes de ficar doente, “fazia ginástica sentado na beira da cama ou no sofá”, por recomendação do fisioterapeuta e desafiava Maria Lúcia a acompanhá-lo.

Agora, é utente do Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de SJM, onde praticamente todos os dias a filha o visita e está com ele. Depois do pai acamar, Maria Lúcia veio viver para Fornos (Santa Maria da Feira) para ficar mais próximo dele.

Quanto à “fórmula” para ter chegado aos 100 anos, 98 dos quais independente, Maria Lúcia acredita que “é por amar a vida, por gostar tanto de trabalhar”. “Estava sempre entretido, nem que fosse a podar uma árvore que já não precisava de ser podada”, completou.

 

GN

 

“Viciada” em café

Já na Rua Jaime Afreixo encontrámos Olívia, em casa da filha “Libita”, onde vive há quase 23 anos desde que ficou viúva. Sentada no sofá, a antiga chapeleira recebeu-nos com o seu jeito doce, esboçando um sorriso.

Olívia nasceu no lugar de Carquejido e terá andado um dia ou pouco mais na escola, devido ao facto de ser oriunda de uma família pobre. Por ser a filha mais velha, teve de ir trabalhar “para ajudar a manter os meus irmãos”.

“Trabalhei na ‘Vieira Araújo’, nos chapéus, e depois fui para as camisas”, relatou, prosseguindo: “Trabalhei sempre até ter o quarto filho”.

Olívia teve seis filhos, dois dos quais já falecidos. Tem 14 netos, 14 bisnetos e uma trineta, que “vem a caminho”. O nascimento está previsto para o próximo mês.

Conheceu o marido, Albino Augusto da Silva, numa desfolhada. O “Albino do Aido”, como lhe chamavam, era “sapateiro e cosedor de luvas e nós estávamos sempre à espera da féria dele”.

Nesta sua conversa com o labor, Olívia também recordou a madrugada em que Albino “foi preso pela PIDE”. “No dia anterior, ele tinha estado a conversar com os colegas na Praça, dizendo que não havia direito do Salazar ser a favor dos ricos e os pobres viverem na miséria, e os ‘bufos’ vieram buscá-lo a casa de madrugada. Esteve três semanas preso”, relembrou.

Olívia acredita que viveu até agora com “a ajuda de Deus”: “Acredito muito em Deus, rezo o terço, vejo a missa às 11h00, tenho muita fé”. Mas a sua longa vida pode também dever-se ao café, pelo qual é “viciada”. Tanto que antes “tomava para aí três cafés de manhã enquanto cozinhava, estava sempre a tomar café”. Agora fica-se por um café de cevada por dia.

 

 

 

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