Este que é o primeiro caso de stalking julgado em Portugal vai ser adaptado ao cinema

O músico e poeta António Manuel Ribeiro foi perseguido e atormentado durante nove anos por uma mulher que não conhecia. Como é que conseguiu resistir a esta alineação da sua liberdade? “Olho para trás e não sei como foi possível. Tentei viver um dia de cada vez”, respondeu António Manuel Ribeiro à questão de Suzana Menezes, chefe de divisão da Cultura do Município, durante a apresentação do livro “És meu, disse ela”, da editora Guerra e Paz, do cantor dos UHF, sábado passado, nos Paços da Cultura.

Os livros e os discos são dois dos “vícios bons” de António Manuel Ribeiro e nas suas habituais visitas à FNAC, no Almada Fórum, em busca de uma e de outra coisa, começou a reparar e a estranhar a presença constante de uma determinada pessoa. O músico e poeta viria a dar conta dessa mesma pessoa durante as suas idas aos correios, ao banco, ao café, entre muitos mais locais. Depois viriam as mais de 1.800 mensagens, as mais de 90 chamadas diárias, os emails, os “presentes” indesejados deixados em casa ou no carro, as ameaças à sua vida, de familiares e amigos que duravam “20 a 22 horas por dia, o que significava que a pessoa mal dormia”, revelou António Manuel Ribeiro.

Aquela mulher, que era presença assídua nos concertos e nos encontros de fãs dos UHF, passou a ser uma fanática com presença assídua em todos, ou quase todos, os momentos do quotidiano de António Manuel Ribeiro. O músico e poeta teve noção do “caso estranho” pelo qual estava a passar quando foi ouvido pelo magistrado, revelou o próprio. Entretanto, o “caso estranho” veio a ser definido como um “caso de stalking”.

Viria a ser uma questão de tempo até “fechar-me em mim”, distanciando-se de uns e de outros, mas “continuei a ser músico”, relatou António Manuel Ribeiro.

O livro “És meu, disse ela” está pronto desde junho do ano passado e está nas bancas desde janeiro deste ano.

Ele pretende ser “um manual de sobrevivência sem executar um disparate”, descreve António Manuel Ribeiro, esclarecendo que “este não é o livro que quis, mas o livro que precisei”. Até então “nunca falei desta senhora em público por uma razão muito simples, quando o fizesse estava a dar valor ao perseguidor”, explicou o músico, esclarecendo que “esta pessoa existe no processo e em mais lado nenhum”.

O caso de stalking por parte de Ana Cristina Fernandes, que assinava as mensagens como Cristina/82, a António Manuel Ribeiro foi o primeiro caso deste género a ser julgado em tribunal em Portugal. O Ministério Público dividiu o processo em dois e deu lugar a duas condenações. A arguida Ana Cristina Fernandes foi condenada a dois anos de prisão com pena suspensa e a pagar uma indemnização de 25.000 euros em 2010 e a dois anos e três meses de pena suspensa em 2012.

Quando a conversa chegou a este preciso momento, António Manuel Ribeiro não poupou criticas ao sistema judiciário português. Voltaria a levar o caso a julgamento, mas não entende como é que uma parte da pena ficou por cumprir, referindo-se à indeminização, não pelo valor em si que corresponde ao valor gasto pelo mesmo, ao longo destes nove anos, com este processo. Além disso, “a justiça deve ser feita em tempo útil”, indicou António Manuel Ribeiro que esteve “prisioneiro” durante quase uma década, revelando que, pelo meio, ainda foi condenado por injúrias sobre a arguida.

O livro “És meu, disse ela” vai ser adaptado ao cinema por vontade expressa pelo realizador Jorge Paixão da Costa, anunciou António Manuel Ribeiro.

As estratégias “mais adequadas” são evitar contactos e procurar apoio

A apresentação do livro contou com a presença da investigadora Célia Ferreira, doutorada em Psicologia da Justiça pela Universidade do Minho, com tese em “stalking pós-rutura”. Na sua intervenção, Célia Ferreira quebrou alguns mitos associados ao stalking. por exemplo, a vítima sente-se lisonjeada, a melhor estratégia é desvalorizar, não envolve risco. O stalking pode ser feito por parte de ex-companheiros(as), amigos/conhecidos, desconhecidos, e pode ser feito a celebridades, sendo estes os casos mais mediáticos. Entre as maneiras de lidar com um stalker estão: negociar, confrontar, negar/minimizar, evitar contactos e procurar apoio junto de instituições formais e informais. Com base em casos que acompanha, Célia Ferreira afirma sem hesitações que as três primeiras estratégias devem de ser “evitadas” e as duas últimas são “sem dúvidas as mais adequadas”.

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