O receio do abandono

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Escondido num canto ligado ao grande departamento que armazena os receios e os tranca a sete chaves, a maioria do tempo, está um especialmente violento, a que pouco se alude: o receio do abandono.

Os dicionários afirmam que abandonar é um sinónimo de deixar. Está bem de ver que é a sua forma, simultaneamente, elevada e negativa.

Abandonar conota um desinvestimento afetivo não confundível com o esquecimento ou a distração. Exprime bem a ideia da renúncia deliberada, associada à retração carinhosa, a um corte com o que havia e que traiçoeiramente anula qualquer importância ou significado àquilo ou àqueles que já o tiveram.

Usamos a palavra poucas vezes, sabendo que o juízo de valor está lá e que o acontecimento de abandono diz, de quem abandona, a despreocupação sobre o seu próprio gesto, e daquele que é abandonado, o constrangimento a um sofrimento descartável.

Porque a palavra é forte demais, porque designa com autoridade não negociável, capaz de anular todos os contratos, de violar todas as regras manhosas e habilmente construídas, evitamo-la. Porque o gesto testemunha a possibilidade de fuga não autorizada ou prevista, e o esclarecimento cabal de que as relações, muitas vezes, assentam em pressupostos vãos e assimetrias afetivas bem disfarçadas. Arredondamos tudo o que podemos e somos capazes dos abandonos que sabemos.

Guardamos a palavra, cuidadosa e envergonhadamente, para situações que eticamente condenamos ou esteticamente lamentamos. Reservamo-la para situações extremas em que crianças, velhos, doentes e animais de estimação são expulsos, sem retorno, do lar que era para ser seu.

Sim, pois, temos receio da possibilidade do abandono, de passarmos de significantes a insignificantes, de sem aviso nem anúncio sermos jogados fora, sem contemplações nem considerações pelos serviços prestados, pelo tudo e nada que somos e damos aos nossos alvos de estima e apreço.

Se o receio se instala, os nossos respeitáveis objetos de carinho vão-se colorindo com cores negras, sombrias da ameaça.

Mesmo que nada façam ou digam, vão-se agigantando na possibilidade imensa de serem terríveis, de nos abandonarem por pura malvadez, de nos desprezarem sem razão. Por esta altura, já se confunde a realidade, e abandona-se pelo receio de ser abandonado e, sem jeito, fazem-se cumprir as profecias que nunca foram de pronunciar em voz alta.

Abandonar até pode significar pouco ou muito pouco.

O receio do abandono, isso sim, pode significar muito!

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