A ligação ao Porto continua a não passar de uma intenção. Intervenção só para passageiros custa 95 milhões de euros e para passageiros e mercadorias 165 milhões

A Associação dos Municípios de Terras de Santa Maria (AMTSM) encomendou um estudo sobre a requalificação da Linha do Vale do Vouga, entre Espinho e Oliveira de Azeméis, à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto que vai ser apresentado no próximo mês de dezembro, anunciou Emídio Sousa, presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, durante a sessão solene do 110.º aniversário desta linha, realizada a 23 de novembro, no Europarque.

A Linha do Vale do Vouga “justifica o investimento”, afirmou Emídio Sousa, marcando assim posição sobre todos aqueles que não pensam da mesma forma e questionando quantos mais comboios e passageiros serão quando esta linha tiver a tão almejada ligação ao Porto.  O “desinvestimento na ferrovia” é um legado deixado por “sucessivos governos”, relembrou o autarca feirense, pedindo ao atual Governo, representado por Guilherme Martins, secretário de Estado das Infraestruturas, para “investir na ferrovia” e “mobilizar a verba necessária para a Linha do Vale do Vouga” porque é “essencial para a Área Metropolitana do Porto”. Uma ação que poderá fazer com que “não fiquemos com a ideia do centralismo em que tudo é para Lisboa e o resto é paisagem” e que demonstrará que o Governo está disposto a levar a cabo “uma descentralização dos dinheiros públicos e a combater as assimetrias existentes no país”.

O 110.º aniversário da abertura da Linha do Vale do Vouga é “uma data histórica para o arranque de um investimento importante para o desenvolvimento da região”, destacou Joaquim Jorge, na qualidade de presidente do conselho diretivo da AMTSM. “Uma região que contribui fortemente para a economia nacional”, “uma região com um enorme potencial que pode dar muito mais ao país”. Por isso, é “fundamental o Governo assegurar o financiamento para este projeto” que promove “uma maior proximidade ao Norte”, continuou o também presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis.

A requalificação da Linha do Vouga só para passageiros tem um custo previsto de cerca de 95 milhões de euros e para passageiros e mercadorias cerca de 165 milhões de euros.

A AMTSM vai “procurar o que é melhor para a região”, assegurou Joaquim Jorge, deixando o aviso ao Governo de que “merecemos a mesma atenção e o mesmo investimento dado a outras zonas do país”. “Não investir nesta linha é não reconhecer a importância deste território”, concluiu o presidente da AMTSM.

Investimento de 24 milhões até 2021

Apesar de Guilherme Martins ter sublinhado “o papel importante que as infraestruturas ferroviárias tiveram no desenvolvimento económico e na qualidade de vida da população” e de ter reconhecido o seu “contributo de forma indelével para o desenvolvimento do país”, não deixou nenhuma certeza quanto ao valor de investimento na requalificação da Linha do Vale do Vouga e à sua ligação ao Porto.

O secretário de Estado das Infraestruturas decidiu destacar a aposta do Governo no Ferrovia 2020 que representa um investimento de dois mil milhões de euros na requalificação de mil quilómetros de linha ferroviária e no lançamento da discussão pública do Plano Nacional de Investimentos (PNI) 2020-2030 com o intuito de conseguir chegar a um amplo consenso sobre o investimento público da ferrovia na próxima década. Um plano onde está incluída “a requalificação da Linha do Vale do Vouga e o desenvolvimento das Terras de Santa Maria”, afiançou Guilherme Martins.

A Infraestruturas de Portugal (IP) tem como objetivos de curto e médio prazo para a Linha do Vale do Vouga a renovação e reabilitação da superestrutura de via, a melhoria da fiabilidade, o incremento da velocidade comercial, o reforço da segurança nas passagens de nível e a melhoria da eficiência do sistema ferroviário.

A IP vai investir 24 milhões de euros até 2021 na Linha do Vale do Vouga, informou o seu vice-presidente Carlos Fernandes. Entre os investimentos incluem-se um de 3,4 milhões de euros para a automatização de 35 passagens de nível, 20 no troço de Espinho – Oliveira de Azeméis e 15 no troço Sernada – Aveiro, e outro de 900 mil euros na construção de um parque de material e oficinas em Paços de Brandão, ambos com início em 2019. A IP pretende ainda levar a cabo investimentos de 12,7 milhões para a renovação do troço entre Espinho – Oliveira de Azeméis em 2020 e de sete milhões para intervenção idêntica entre Águeda e Aveiro em 2021.

Arouca e Vale de Cambra “solidários” com investimento

Neste 110.º aniversário da Linha do Vale do Vouga, a AMTSM decidiu “chamar a si” a celebração com os seus seis municípios (Arouca, Espinho, Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira, Santa Maria da Feira e Vale de Cambra). Apesar do “Vouguinha” não passar em Arouca e Vale de Cambra, os seus autarcas estão “solidários” e “percebem a importância” da requalificação desta linha, esclareceu Emídio Sousa, aproveitando para agradecer a todos os que permitiram a realização das exposições que estiveram patentes até ao dia 25 de novembro no Europarque. A saber, a exposição comemorativa dos 110 anos da Linha do Vale do Vouga, em parceria com a Fundação do Museu Nacional Ferroviário e a Associação Portuguesa dos Amigos do Caminho de Ferro, a exposição de Ferromodelismo, em parceria com o Grupo de Módulos de Comboios do Norte, e a “Viagem de vapor vivo” em parceria com a Associação Portuguesa dos Amigos.

Troço Oliveira de Azeméis – Espinho

≈ 33 km de via única, não eletrificada e bitola métrica

8 circulações em dia útil, sábado e feriado

7 circulações ao domingo

925 passageiros por dia em 2015

337.659 passageiros durante o ano de 2015

15% taxa de ocupação

13,9 km percurso médio dos passageiros

Acerca do estudo de procura

Estão a ser analisados vários cenários de evolução da oferta:

  • Aumento da velocidade comercial;
  • Aumento da oferta (mais estações e mais circulações);
  • Articulação com a Linha do Norte;
  • Prolongamento dos suburbanos do Porto a Oliveira de Azeméis.

Os resultados preliminares apontam para crescimento da procura entre:

  • 6% com investimento previsto curto/médio prazo;
  • 65% com a integração nos suburbanos do Porto.

O que acha do investimentoprevisto para a Linha do Vale do Vouga?

O presidente da câmara, Jorge Sequeira, respondeu a esta e outras questões colocadas pelo labor

Arquivo Labor

Ficou satisfeito com o investimento de 24 milhões de euros até 2021?

Não. As medidas anunciadas são medidas de curto e de médio prazo que não resolvem o problema de fundo desta linha que é o alargamento da sua bitola e a ligação à linha do Norte de forma a permitir um acesso franco à cidade do Porto e a Vila Nova de Gaia. Portanto, só quando esta questão estiver resolvida é que o problema real e efetivo da Linha do Vouga ficará solucionado. É muito importante ter em conta um dado que a Infraestruturas de Portugal revelaram que é o seguinte: com a ligação à linha do Norte o tráfego aumentará cerca de 60%. Ora isto diz tudo sobre a mudança na mobilidade que a reabilitação da linha pode potenciar.

Mas nada disso ainda está definido…

Vai estar no meu ponto de vista comtemplado no Plano Nacional de Investimentos 2020-2030 e teremos de negociar com o Governo a implementação efetiva dessa medida a médio prazo.

Acha que o Governo vai disponibilizar 95 milhões para requalificar a linha para o transporte de pessoas ou 165 milhões para o transporte de pessoas e mercadorias?

Isso é possível havendo vontade política porque do que se trata é de selecionar a alocação dos recursos. Há linhas do metro que custam o triplo deste valor. Portanto, é uma questão de opção política e de equidade territorial e de equidade regional.

Vox pop

O que precisa a Linha do Vouga?

Estivemos à conversa com pessoas que iam a entrar ou a sair do “Vouguinha” na estação de S. João da Madeira

DF

“Uso a linha para vir trabalhar. Sinto que é confortável e segura, mas ajudavam umas obras na linha. Os preços de viagem compensam e com o Cartão Jovem fica ainda mais barato”, Inês Santos, 18 anos, Vila de Cucujães

“A linha precisa de ser arranjada porque está a ficar muito degradada. O comboio consegue fazer S. João da Madeira – Oliveira de Azeméis em 15 minutos, se a linha tivesse melhor conseguíamos fazer em muito menos tempo. Prefiro o comboio em termos de conforto e de preço em relação ao autocarro”, Isidro Castro, 57 anos, Oliveira de Azeméis

“Acho que devia de estar mais cuidada porque faz muito jeito à população”, Fernanda Nunes, 70 anos, S. João da Madeira

“Precisa de ser renovada. O comboio é um transporte que pode ser bom, mas se continuar sem ser melhorado vai deixar de ser. Frequento a Linha do Vouga há 33 anos e tenho visto uma mudança para pior. Acho o comboio confortável e barato, mas precisam de melhorar a linha. Acho que o “Vouguinha” faz muita falta às pessoas”, Maria Sá, 58 anos, Santa Maria da Feira

Em S. João da Madeira

Recriação da chegada do Rei D. Manuel II

A comemoração do 110.º aniversário da Linha do Vale do Vouga vai continuar ao longo do próximo ano com diversos momentos nos municípios das Terras de Santa Maria.

Um deles é a recriação da chegada do rei D. Manuel II, no dia 23 de novembro de 1908, para inaugurar o primeiro troço da Linha do Vale do Vouga em S. João da Madeira. A inauguração real está marcada para setembro de 2019, adiantou a AMTSM ao labor.

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