Um quarto com vista para a Praça

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A programada intervenção autárquica na Praça Luís Ribeiro tem merecido um debate interessante na imprensa local. Vários conterrâneos expressaram a sua opinião, de acordo com a sua sensibilidade pessoal, muitos recordando a sua vivência em torno do espaço referido e outros tantos, idealizando-lhe um futuro de acordo com conhecimento adquirido ao longo de visitas a outras cidades, quer nacionais ou do estrangeiro.

Sempre olhei para a Praça, desde o lado nascente. A varanda do meu quarto era um bom observatório e dali fui assistindo às transformações da Praça e também da Rua da Liberdade, onde morei.

Cresci com a Praça confinada à meia-lua do lado nascente e atravessada a poente pela estrada nacional número 1 (EN1). Carros a circular, carros estacionados, paragem de autocarros, praça de táxis, comércio variado incluindo pensões, cinco cafés, farmácias, máquinas de diversão, barbearias, garrafeiras, tabacarias, loja de colchões e mobiliário fico-me por aqui para não ser exaustivo, nem omitir alguma memória.

A transformação a que primeiro assisti foi ao início da construção do edifício Parque América. Até à sua finalização, ficou concluído o fecho a nascente da Praça, de prédios com fachada e altura iguais. No mesmo período, foi demolida a poente, primeiro o andar correspondente à Pensão Sanjoanense e mais tarde o piso térreo, no qual estavam instalados o Café Império e o Café S. João, que ainda funcionaram com as traseiras derrocadas devido às obras do futuro “arranha-céus”.

A abertura do atual IC2, na época o novo troço da EN1 era designado por variante a S. João da Madeira, condicionou o futuro da Praça. Também contribuiu para o seu desfecho, a receção ao Presidente da República de então, Mário Soares, com uma Praça fechada ao trânsito, o que era inédito na cidade.

O encerramento definitivo à circulação automóvel foi a consequência imediata, juntando-se à nova zona pedonal, uma série de arruamentos adjacentes à Praça. Para o futuro ficariam os problemas de trânsito que ainda hoje perduram, como o condicionamento na circulação nascente – poente, na zona central da cidade, assim como, a transposição norte-sul que é tudo menos linear.

Através do meu quarto assisti à construção do Elemento Arquitetónico, à inauguração do Parque América, à transformação da Praça em zona comercial, com animação nas noites de verão, até que um dia, deixei de ali viver. À distância, tomei conhecimento das obras enlameadas, do nascer dos chapéus de vidro, ao aumentar a zona pedonal para ruas sem comércio e o transtorno causado a todos, comerciantes, prestadores de serviços e moradores, teve o desfecho de desinvestimento e de mudança de residência.

A descentralização, com toda uma política centrifuga promovida pela Câmara Municipal durante a primeira década do presente século, transformou a Praça num local decrépito. Vazio de dia e também de noite. Houve uma tentativa mal conseguida, por ser pouco ambiciosa em cortar com o passado, de revitalização, com a criação de estacionamento e a reposição de trânsito, mas uma má escolha de materiais obrigou a nova intervenção e não houve oportunidade para pensar melhor na zona central.

No ano que passou, voltei a acordar na Rua da Liberdade. Já sem “pirilau”, voltei a espreitar a Praça, como na minha infância. Ao ver o raiar do sol, a iluminar a rua até ao centro e a aquecer a calçada, ganhava alento para enfrentar o frio do Inverno e o pesadelo familiar. Em noites mal dormidas, voltei a ouvir aquele silêncio matinal, entrecortado pelos barulhos do abrir de persianas, das portas e portões de segurança dos comerciantes e com tudo isto, escutei o cumprimentar e o falar dos madrugadores.

Esta perspetiva pessoal é a forma como eu vejo a Praça, a meia-lua fechada ao trânsito, estendendo-se a interdição à parte superior da Rua da Liberdade, à Rua Padre Oliveira e ao largo Santo António. Para o seu lado poente, sou a favor da reposição automóvel, isolando o Parque América, permitindo os carros circularem em sentido único. No fundo, sou a favor do projeto aprovado pelo executivo municipal anterior, por entender, que os seus autores perceberam a essência da história da Praça e em certo ponto, da cidade. Ajustar a zona pedonal, atendendo à realidade económica da cidade e de certo modo, repor o princípio geométrico da Praça seria algo a atingir.

A reversão do conceito pelo atual executivo é uma outra forma de ver o problema. É querer esticar para o futuro uma conceção que infelizmente a cidade não conseguiu abraçar, em que a dinâmica económica retirou protagonismo comercial à zona central da cidade, transferindo-o para o eixo da Avenida Renato Araújo.

O dia-a-dia da Praça é, com os seus poucos moradores, um comércio de proximidade e despojada de serviços. Esta realidade vai sendo invertida pontualmente com animação promovida pela Câmara Municipal. A projetada intervenção pouca atratividade trará, perdendo-se com isso a possibilidade de revitalização do espaço, que dependerá sempre da complementar iniciativa privada.

Gostaria de viver anos suficientes para ver um final de tarde de Inverno, com os raios solares a bater na janela no meu quarto de infância. Sei que mesmo que isso aconteça, em consequência do processo de desocupação do prédio monstruoso da Praça, o acesso a esse lar já não me será permitido. Quando voltar a haver invernos solarengos na Praça será o momento para pensar-se em fechar a meia-lua e promover-se uma Praça circular.

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