Processo de candidatura da única fábrica de lápis no país a património municipal “já anda a ser trabalhado para aí há um ano e meio”, segundo nos adiantou José Vieira

 

O administrador da Viarco espera que o processo arranque, oficialmente, este mês ou então em fevereiro, “com o início das primeiras reuniões [com a câmara, Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, entre outras entidades], definições de trabalho e, depois, alocação de recursos para podermos estudar, fotografar, etc.”.

A ideia é – tal como o labor já noticiou em finais de 2018 – tornar a única fábrica de lápis em Portugal e, provavelmente, uma das mais versáteis a nível mundial em “património municipal e depois, eventualmente, de interesse público”. “Pelo menos, serão apresentadas propostas [de candidatura] nesse sentido”, adiantou o empresário de S. João da Madeira (SJM), na semana passada, aquando da visita da nossa reportagem à Viarco, acreditando que a tão almejada classificação seja uma realidade ainda em 2019.

Em SJM, a Casa da Quinta do Morgado é, para já, a única classificada como MIP- Monumento de Interesse Público, enquanto o processo da Torre da Oliva encontra-se “em estudo”, como se pode ver no site da Direção-Geral do Património Cultural.

 “É nossa obrigação tentar salvaguardá-lo [o valor patrimonial da fábrica]”

Em entrevista exclusiva aonosso jornal, José Vieira disse estarem “a trabalhar, hoje, neste processo porque reconhecemos que o valor patrimonial que aqui está [na Viarco] é importante”. “É nossa obrigação tentar salvaguardá-lo”, uma vez que “não sabemos se amanhã vem aí um surto de especulação imobiliária”, além de que se conseguirem a dita classificação tudo isso “também é comunicação, marketing, promoção”.

Ou seja, “dentro de uma estratégia que temos efetivamente de valorização de património, de valorização de marca, de comunicação, de promoção, etc., e, ao mesmo tempo, de proteção futura do património”, “a Viarco pode vir a tornar-se uma fábrica musealizada”, vindo a juntar-se aos dois museus industriais existentes na cidade, o Museu da Chapelaria e o Museu do Calçado. Não será, conforme esclareceu José Vieira, “um museu de uma forma tradicional, mas de uma forma em que as peças museológicas estão inseridas no processo produtivo”.

“O conceito é completamente diferente” daqueles dois espaços museológicos sanjoanenses e “é completamente distinto daquilo que existe a nível europeu ou mundial”, fez ver ainda.

Contactada pelo labor, a autarquia não pôde pronunciar-se sobre o assunto a tempo do fecho da presente edição.

 De estagiário a dono da única fábrica de lápis do país

José Vieira tem 44 anos, 19 dos quais a trabalhar na Viarco, aonde “veio parar um bocado por acaso”. O antigo estagiário que agora é dono da única fábrica de lápis do país era bisneto do fundador Manoel Vieira Araújo. A ligação familiar levou-o, uns valentes anos mais tarde, a representar a mãe “nas assembleias de sócios”. Esta foi, aliás, “a minha primeira intervenção na empresa”.

Após a morte do avô, houve “a necessidade da entrada de alguém que viesse para cá segurar o leme e aprender um bocado da coisa. Na altura era estudante. Tinha um primo que estava doente, outro que se tinha afastado porque tinha montado a sua própria empresa e eu entrei como estagiário”, contou ao labor.

E o que fazia um estagiário há 19 anos? “Não fazia nada, aprendia. Esquece o que aprendeu e volta a aprender tudo de novo”, explicou José Vieira, bem ao seu jeito. Mas a verdade é que “uma das primeiras coisas” que fez “foi negociar a venda da empresa”: “Houve um período de cerca de dois anos em que se andou com indefinições para trás e para a frente, estudos, ‘blá, blá, blá’”.

A possibilidade de venda chegou, de facto, a estar sobre a mesa, mas não foi avante, começando José Vieira por assumir em 2004/2005, com um primo, a gerência, onde se mantém, desta feita, com “a minha esposa, sócia e companheira Ana”.

“Não podemos continuar a ter salários de indústria!”

José Vieira garantiu não estar “arrependido”. “Se calhar, esta é daquelas oportunidades que pouca gente tem”, referiu, justificando: “Muitas vezes, temos coisas à frente dos olhos que aparentemente não têm valor transcendente e são essas coisas com as quais, efetivamente, podemos construir aquilo que é o nosso futuro”.

“Naturalmente – prosseguiu – que se o meu objetivo de vida fosse ser rico do ponto de vista financeiro, não estaria neste projeto, mas antes a fazer outra coisa qualquer”. Só que “o local de trabalho é provavelmente o sítio onde passamos mais tempo durante a nossa vida”, “o que significa que se vamos passar 30, 40 ou 50 anos a trabalhar é bom que nos sintamos realizados”.

José Vieira sente-se realizado na Viarco. Não só porque “posso passar o tempo com pessoas que me agradam, mas também porque faço algo que me agrada”. Aqui “temos a possibilidade de pensar, criar, fazer, produto! Ou seja, não é uma circunstância onde entra porco e sai chouriço e é isto toda a vida”.

Na Viarco, “as coisas são diferentes, estão em modificação”. Para o empresário, a (re) construção de “cada parede é uma conquista”. “Uma parede nova, um equipamento novo, uma melhoria, uma arrumação, uma organização, um cliente… São estas coisinhas que dão uma realização pessoal e profissional”, sublinhou.

“Ainda estamos em altura de construção, em que os recursos vão para a construção”.  No ano passado, começaram “a recuperar telhados”, iniciaram “processos de desenvolvimento de novos equipamentos, participação em feiras e toda uma série de coisas”.

“A fábrica está em andamento”, assegurou José Vieira. Neste momento, são 30 as pessoas que trabalham na Viarco, com as mulheres a serem em maior número e com alguns colaboradores a terem já 40 anos de casa.

Já houve mais trabalhadores, mas também já houve menos. O administrador chamou a atenção para que “não há uma varinha mágica em que se chega aqui e se muda tudo. Aliás, nem se pretende mudar tudo”. “Não interessa estar em rotação. Interessa arranjar pessoas, formá-las e mantê-las, o que faz com que não podemos continuar a ter salários de indústria”.

“Como tal, depois de reconstruções e de pôr máquinas a funcionar, temos de investir nos próprios recursos humanos”, defendeu em relação ao futuro.

 

DF

Administrador da Viarco faz “balanço muito positivo” do Turismo Industrial

Por falar em futuro, os projetos “que temos para a empresa não passam só por fazer lápis ou fazer materiais de riscar ou seja lá o que for”. José Vieira não os desvendou quando conversou com o labor, porque “nem eu próprio sei”.

“Se calhar, temos 20 projetos na mão”, alguns deles “na minha gaveta à espera de nascer há cinco anos”, inclusive, “de colaboração internacional”, “deixou escapar”, assegurando que “estão em contacto com muita gente em simultâneo”, precisamente com esse intuito. “A ideia é sempre facilitar o nosso trabalho, criar valor, arranjar soluções onde toda a gente possa ir colher coisas”, argumentou.

De concreto, o empresário avançou apenas que estão “a agendar residências artísticas para julho, agosto, com gente da Austrália, Inglaterra, Peru”, etc., artistas que se encontraram num doutoramento em Londres”. Em seu entender, “este tipo de coisas” é bom, porque “atrai gente à cidade”.

Sobre o Turismo Industrial, que a 23 de janeiro completa sete anos, José Vieira fez um “balanço muito positivo”. Este programa camarário, de que a Viarco é parceira desde a primeira hora, “permite um contacto direto com o público, um contacto genuíno”. Com ele, “podemos perceber se o produto funciona ou não” e, depois, há também “a criação de relações de sentimento, que não são produto”, rematou.

 

 

 

 

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