Qual a primeira viagem da Carla?

Tenho muitas primeiras viagens. Mas aquela que considero ser a minha primeira “viagem” foi quando fui para a Índia durante dois meses. Já conhecia mais de 20 países nessa altura, mas essa foi a viagem que me levou para fora da minha zona de conforto e que mudou a minha vida.

Quais os países que visitaste sozinha?

A Argentina, o Chile, o Uruguai e o Paraguai.

Nunca tiveste receio de viajar sozinha?

Não. Tenho receio é que a vida passe por mim e não a aproveite.

Quantos países visitaste acompanhada pelo Rui?

Tive que contar… pelos vistos foram 92.

Quais as diferenças entre viajar sozinha e acompanhada?

Gosto de viajar, seja sozinha, seja acompanhada. Viajar sozinha tem inúmeras vantagens, no que toca essencialmente à socialização e à descoberta pessoal. Quando o faço estou mais disponível para conhecer outros, mais aberta a novas experiências. Sinto necessidade de comunicar e isso obriga-me a desenvolver mais as minhas capacidades de comunicação e linguística. Por exemplo, nesse ano na América do Sul, aprendi a falar fluentemente espanhol. Faço mais amigos, porque necessito de estabelecer laços e ligações com os outros. Para além disso, é uma excelente oportunidade de me conhecer a mim própria, na medida em que dependo unicamente de mim. Tenho que saber do que sou capaz. É um período de descoberta pessoal muito interessante. Porém, não faço uma apologia do “viajar sozinha”. Penso que o importante é que as mulheres viajem, seja de que forma for. Devem viajar sozinhas, se assim o entenderem e se isso for importante. Se não gostam, se não têm coragem, se se sentem inibidas, devem viajar acompanhadas.

“Viajar na Índia é uma lição de vida”

O que é que vos levou e leva a viajar?

Viajar é uma das coisas mais importantes da minha vida. É um objetivo de vida, que tracei ainda era muito nova.  Trabalho diariamente para conseguir ter independência financeira para fazer aquilo que sou de alma e coração, viajante. Tenho uma sede incontrolável de conhecer o mundo, as culturas, as pessoas, os diferentes modos de vida, as paisagens. Tenho uma vontade enorme de partir. É um vício, um vício saudável, e é isso que torna as minhas viagens tão gratificantes.

Quantos países visitaram até 2017?

Muitos… quase cerca de 80. No ano de 2018 a maioria dos países que visitámos foi repetida. Nós repetimos muitos países. Na Índia já estivemos três vezes, no Uzbequistão cinco, na China seis, entre outros.

Quais as razões que vos levou a repetir viagens à Índia, Uzbequistão e China?

As razões são variáveis. Mas já repetimos muitos mais países do que estes. Normalmente repetimos porque ainda não conhecemos tudo o que lá existe e que queremos ver. A China e a Índia são quase subcontinentes. É impossível conhecer o país numa ou em duas viagens, ainda que essas possam ter dois meses. Na Índia já lá estivemos cinco meses e queremos voltar. No fundo, temos sede do mundo e é isso que nos leva repetidamente para determinados destinos, mas diferentes lugares.

Quais os países que visitaram em 2018?

Geórgia, Chipre, Cuba, Malta, Espanha, Gronelândia, Turquia, Arménia, Irão, Turquemenistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Quirguistão, Cazaquistão, Rússia, Mongólia, Cabo Verde, Dinamarca, Bósnia e Herzegóvina, Croácia, Montenegro e Albânia.

Qual a melhor e a pior viagem?

A Índia. Pela pressão demográfica constante, pelos assombros aos sentidos, pela constante adrenalina. Viajar na Índia é uma lição de vida. É um misto de sentimentos: agora odeio, agora adoro. Aprendemos todos os dias, a todas as horas. Nunca sabemos o que vai acontecer no momento seguinte. Não sabemos se daqui a 15 minutos vamos rir ou chorar. O país toma conta de nós. Diria que a Índia não é um país, é outro planeta.

“É importante ajustar os gostos ao orçamento disponível”

Como concilias a profissão com o ser líder de viagens?

Acumulo funções. É um exercício, mas sou líder de viagens nas minhas férias. Só lidero uma viagem por ano à Gronelândia.

O que faz um líder de viagens?

Um líder de viagens é alguém que tem experiência de viagem num determinado território e que prepara uma viagem para levar um grupo de pessoas. Essa viagem é preparada em conjunto com uma equipa, neste caso a equipa da Nomad. Depois de reunido o grupo, o líder pega nos viajantes num determinado ponto e deve levá-los numa viagem de aventura. O líder deve conseguir resolver os problemas que existirem e gerir os elementos de grupo. É como ser o líder de um grupo de amigos que vão viajar juntos.

O que é que é indispensável no momento em que começam a preparar uma viagem?

Paciência, muita pesquisa, ler muito, devorar mapas e depois criar um roteiro. É importante ajustar os gostos ao orçamento disponível. Comprar o bilhete de avião e já está.

Como conseguem decidir o que levar para a viagem, isto é, compactar tudo numa mochila?

A regra básica é levar o mínimo. Tudo o que fizer falta compra-se em qualquer lado. Para mim, o essencial é o passaporte, a máquina fotográfica, um casaco de penas porque sou friorenta e um estojo de primeiros socorros. E depois, boa disposição. Sempre. É a nossa melhor companhia. Apreciamos sentido de humor e muita cumplicidade. Gostamos de rir, de nós e das nossas aventuras. Também discutimos, mas prevalece sempre a boa disposição.

Vocês lançaram o livro “Próximo destino” – Viagens à medida da sua carteira” em outubro de 2018. Como é que tem sido recebido este guia pelo público?

Não é um guia, é mais um livro inspiracional, mas que também pode servir de guia. O objetivo é mostrar às pessoas que viajar é fácil e não tem que ser caro. Está ao alcance de quase todas as carteiras.  Penso que tem sido muito bem recebido. A primeira edição teve 3.000 exemplares e, agora em janeiro, houve necessidade de fazer uma reimpressão de mais 2.000. Penso que é muito bom sinal.

O que é que viajar acrescentou à vossa vida?

Tudo. Somos pessoas diferentes. Nós somos aquilo que vemos, aquilo que sentimos e aquilo que aprendemos. As viagens mudam tudo.

Quais as viagens previstas para 2019?

Começamos 2019 nos Balcãs e já conhecemos a Macedónia e o Kosovo. Em março vamos para o Sudão, em abril Seychelles e em julho Gronelândia. Depois da viagem à Gronelândia, embarcamos na aventura de uma vida. Vamos viajar pelo mundo durante 14 meses. Vamos dar a volta ao mundo. Ainda em 2019 vamos para a Indonésia, Filipinas, Papua Nova Guiné, Austrália e Etiópia. Depois, já no ano seguinte, vamos cruzar o Pacífico e seguir viagem…

Vocês vão sempre viajar?

Não sei, mas vamos continuar a tentar… espero que sim.

Continuas a visitar S. João da Madeira?

Sempre. Tenho cá toda a minha família.

Impressão digital

Carla Mota

Tem 43 anos, é natural de S. João da Madeira, reside em Guimarães, e é doutorada em Geomorfologia Glaciar e Estudos Ambientais pela Universidade de Coimbra. Esta sanjoanense começou a viajar sozinha por volta de 1994 e nunca mais parou. O que começou por ser uma aventura a solo passou a ser em dueto desde 2006. O casal Carla Mota e Rui Pinto já visitou mais de 90 países e é responsável pelo blog “Viajar entre Viagens” (https://www.viajarentreviagens.pt). Ela é docente de Geografia e faz investigação em glaciares nos Andes Argentinos e é líder de viagens na empresa Nomad. Ele é licenciado em Física pela Universidade do Porto e docente de Física e Química. Ambos lecionam em Guimarães. “A nossa vida é uma autêntica aventura”, dizem num dos vídeos disponíveis no seu blogue pessoal de viagens, onde podemos viajar com eles pelo mundo.

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