Ainda este ano

“Talvez ainda possa ser este ano, lá para depois das férias”, que os sanjoanenses poderão ver publicado o testamento deste “grande vulto” de S. João da Madeira (SJM) que viveu no século XVII (1632-1693). “[O testamento] Dele e dos avós, um tal Domingos de Alão”, adiantou ao labor Maurício Antonino Fernandes.

O conhecido professor de Filosofia, História e Português, que durante anos exerceu funções em SJM – concretamente no Colégio Castilho, “na Escola das Fontainhas e num externato perto da igreja” -, encontra-se neste momento a fazer a monografia de Cesar, vila do concelho de Oliveira de Azeméis. Terminando esta, a ideia é mesmo publicar, em regime de edição de autor, o testamento de Cristóvão Alão de Morais, o que, como afirmou ao nosso jornal, “tem muito interesse para S. João da Madeira e todo o país”.

“Já tenho isso ‘metido’ em computador. Falta fazer só uma introdução e, depois, falar um pouco sobre o conteúdo. Sabe que isto é letra antiga, que não se consegue ler com muita facilidade”, explicou o também especialista em Genealogia. Maurício Antonino Fernandes disse ter conseguido o testamento de Alão de Morais “num arquivo particular de um descendente dele, em Leça do Balio”. “Lá tem uma casa que era dessa família”, acrescentou.

GN

 “Costumo dizer que sou um coca-bichinhos”

Em Oliveira de Azeméis, onde deu aulas no Colégio e na Escola Industrial e Comercial, casou e reside há mais de seis décadas, Maurício Antonino Fernandes abriu-nos as portas de sua casa e encaminhou-nos até à sua biblioteca particular. Aqui guarda religiosamente cerca de 20 mil obras literárias, que está a catalogar com a ajuda da amiga Teresa Cruz.

O professor tem “livros que já eram do meu pai, outros dos meus sogros e os que são meus”. “Obras raríssimas, encadernadas em pergaminho, de 1600 e tal, 1700 e tal”, etc., que a nossa reportagem teve oportunidade de folhear algumas delas, sentindo o “peso da História” nas suas mãos.

“Costumo dizer que sou um coca-bichinhos”, que é como quem diz uma pessoa muito minuciosa, que se interessa por “coisas miudinhas”. Maurício Antonino Fernandes frequentou cursos de férias de Arqueologia e Paleografia, que lhe permitiram conseguir para decifrar o (quase) indecifrável.

“Pouca gente consegue ler certos documentos [alguns medievais] como tenho conseguido”, assegurou ao labor. Já para não falar do “trabalho de fundo” que tem vindo a desenvolver ao nível da genealogia das famílias de Portugal. “É um trabalho que me absorve muito. Não é como um romance que é só escrever. Tem de se procurar documentos”, esclareceu.

E este seu interesse pela história das famílias “nasceu por, à lareira” o pai e os avós “falarem de árvores genealógicas e, mais tarde, por influência de excelentes mestres” como Emílio Saez Sanchez e Agostinho de Jesus Costa. “A minha especialidade é genealogia, dizem que sou veterano nisso”, contou ao nosso semanário.

Maurício Fernandes é o autor da mais recente monografia de S. João da Madeira

A dois meses de completar 92 anos de vida, este professor natural de Felgueiras ainda se sente com força para continuar a trabalhar. É verdade que se levanta da cama mais tarde. Mas mesmo assim dedica “cinco a seis horas por dia às monografias e genealogias”.

Entre as mais de 20 obras da sua autoria publicadas, consta a mais recente monografia de SJM “São João da Madeira – Cidade do Trabalho” (1996). Na altura em que Maurício Antonino Fernandes lecionava em SJM “o Sr. [José] Pinho, diretor d’ O Regional e vereador, chamou-me para catalogar uma biblioteca oferecida por um tal [José] Moreira [de Nogueira do Cravo] emigrado no Brasil à Biblioteca Municipal” (BM) Dr. Renato Araújo.

Nas horas livres, depois das aulas, o estudioso felgueirense foi “o catalogador dessa parte rara da Biblioteca que tem cerca de 10 mil livros”, revelou, a propósito desta tarefa que demorou “dois, três anos” a executar e para a qual “facultaram-me duas funcionárias para bater à máquina e pôr aquilo tudo em ordem”.

Posteriormente, surgiu o convite da Câmara Municipal de S. João da Madeira, na ocasião presidida por José Pinho, para editar a segunda monografia do concelho, que viria a aprofundar e complementar a primeira “publicada em 1944, com base num trabalho escolar, organizado em 1939 por três jovens estudantes”.

Maurício Antonino Fernandes, casado e pai de dois filhos, disse ter ponderado “muito antes de aceitar”: “Primeiro, por causa do tempo. Depois, porque era muito trabalho. Precisava de quem colaborasse comigo”. Mas, “hesitações à parte”, lá acabou por estar à altura de mais um desafio, não esquecendo, passados todos estes anos, quem o ajudou a superar, inclusive Maria da Graça Neves, técnica da BM.

Ainda a propósito de monografias, o antigo diretor da Casa-Museu Regional de Oliveira de Azeméis (1984-1996) pensa, depois de concluir a de Cesar, “fazer uma monografia para cada freguesia do concelho oliveirense”. “É um plano que estabeleci”, avançou ao labor.

Maurício Antonino Fernandes foi também assessor do Pelouro da Cultura do Município de Oliveira de Azeméis (1982-1996) e fundador da Associação a Defesa e Conhecimento do Património Cultural Oliveirense e da Verª UL-VÁRIA. É ainda sócio da Associação Portuguesa de Genealogia, da Academia Internacional de Généalogie, da ASBRAP – Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia, etc., e autor de várias obras e edições.

A saber: “Felgueiras de ontem e de hoje” (1989), “Pombeiro e o seu fundador” (1991), “S. Nicolau da Feira – Tombo” (1995), “A Comenda de Oliveira de Azeméis – Património e Comendadores” (1996), “São João da Madeira – Cidade do Trabalho” (1996), “Património Heráldico Oliveirense” (1996), “Esteves Rebelo de Amarante” (1999), “Os Magalhães de Heitor de Magalhães” (2000), “Matrículas da Mitra de Braga (Ordinandos)” (2002), “Silvas históricos” (2005), “Famílias Genuínas do Porto, os Beliáguas” (2006), “Ribeiros: Morgados de Torrados e de Idães” (2006), “Os Brandões – Origem e varonia (938-1688)” (2007), “S. Pedro de Ossela – Memorandum” (2009), “Carvalhos históricos” (2011), “Família de Mattos” (2012), “Moreiras – Patronos de Tarouquela” (2013) e “Moniz Rebelo”, de Fafe.

Além disso, em coautoria, editou “Carvalhos de Basto – 10 vols” (1977-2007), “Fonsecas Coutinhos de Fonte Arcada” (1983), “Macinhata da Seixa” (1985) e “Valentes da Silva” (em publicação).

Quanto a reedições, há a destacar “Nobiliário de Famílias de Portugal (Fel. Gayo) -12 vols” (1989-1990), “Pedatura Lusitana (Alão de Moraes) – 6 vols” (1997/98) e “Gerações de Entre Douro e Minho (M. Sousa da Silva) – 2 vols” (2000). 

Como eram os seus alunos sanjoanenses?

“Naquela altura, era muito estimado e respeitado. Eram respeitadores. Tenho saudades de muitos deles. Não havia um único revoltado, que me desse problemas, que me tivesse contrariado.

O balanço que faço daqueles tempos é absolutamente positivo! Aliás, quando há reuniões de curso, sou sempre convidado”.

Prof. Maurício Antonino Fernandes

GN
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