“A luta pela liberdade é uma coisa do dia de hoje, não de ontem”, relembrou o neto Daniel Oliveira

A apresentação da 4.ª edição do livro “Forte de Peniche – Memória, Resistência e Luta” da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) contou com os testemunhos de Daniel Oliveira e de Maria José Ribeiro, no dia 9 de fevereiro, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo.

Ele tem 33 anos e é neto de António Ribeiro Lima, conhecido como “O Pedreirinha”, sapateiro e ex-preso político natural de S. João da Madeira. Ela tem 83 anos, é secretária da URAP e ex-presa política, filha de um marinheiro e ex-preso político.

Entre as fugas de prisioneiros do Forte de Peniche contadas neste livro, consta a fuga coletiva de Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Guilherme da Costa Carvalho, Rogério de Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues em 1960. Para além de ter representado uma das maiores derrotas para o Estado Novo, também ficará marcada por António Lima não ter participado na mesma pelo facto de uma semana antes ter sido levado de castigo para “O Segredo”, revelou o neto durante a apresentação do livro que foi acompanhada em exclusivo pelo labor.

DF

António Lima, cujo nome clandestino era Mário de Oliveira, foi “um dos organizadores do movimento grevista dos sapateiros” a 5 de agosto de 1943 em S. João da Madeira e “um dos grandes opositores ao fascismo no Norte do país”, deu a conhecer Daniel Oliveira.

Uma greve a que aderiram mais de 2.500 operários do setor do calçado e que levou a uma manifestação de mais de 4.000 pessoas que exigiam aumentos salariais numa altura em que era muita a fome, a miséria e a repressão.

O protesto acabaria com um cerco militar que terminou com a detenção de 200 pessoas, das quais 80 chegariam ao posto e 30 seriam presas e enviadas para o Porto, segundo o Jornal “Avante” clandestino, publicado na segunda quinzena de setembro de 1943.

O avô de Daniel Oliveira conseguiu fugir ao cerco montado pelos militares, viveu na clandestinidade desde 1943 até 1957 em Gondomar e acabou por ser detido pela PIDE em 1957 por andar a distribuir propaganda do Partido Comunista.

António Lima passou alguns dias na cadeia até ser julgado e condenado a sete anos de prisão. “Ele conheceu tudo o que o fascismo tinha para conhecer em Peniche”, relembrou Daniel Oliveira, sobre aquele espaço associado para todo o sempre à tortura, mas também à troca de conhecimentos e consequente aprendizagem entre os presos.

Quando António Lima foi preso tinha mulher e duas filhas. A prisão do marido e todas as dificuldades que provocaria à sua família levou a que a mulher entrasse em depressão e acabasse internada e as filhas fossem entregues ao Colégio das Raparigas Abandonadas, para uns, e Desamparadas, para outros. Quando António Lima saiu da prisão foi à procura das suas filhas com quem acabaria por vir viver até morrer em S. João da Madeira. Não obstante as agruras que a luta pela liberdade levada a cabo por António Lima, e tantos outros, provocou no seio da sua família e que jamais serão esquecidas, Daniel Oliveira também não escondeu o “muito orgulho” que sente porque “a luta pela liberdade é uma coisa do dia de hoje, não de ontem”.

DR

“Ao passar o testemunho, estou a cumprir o meu dever para que não volte a acontecer”

A “batalha pela memória para que se conheça o que foi o fascismo em Portugal” é apenas uma das batalhas travadas pela URAP numa guerra contra o esquecimento das pessoas que permitiram a conquista da liberdade em Portugal, considerou Daniel Oliveira, elogiando “o exemplo de vida e de coragem de Maria José Ribeiro para as novas gerações”. A sociedade portuguesa durante o regime salazarista era marcada pelo “obscurantismo”, pela “repressão a todos os níveis” e pela “falta de liberdade” até no exercício da profissão, descreveu Maria José Ribeiro, exemplificando com o caso de quem era professor para dar aulas precisava de “assinar um documento em que afirmava que não era contra o regime nem tinha ideias comunistas”.

Uma outra forma de “controlar” as pessoas com ideias contrárias ao regime era através dos “bufos”, e “havia muitos bufos”, que tinham como função denunciá-las à PIDE. Eles faziam “os relatórios” e a PIDE fazia “as interligações”, recordou Maria José Ribeiro, acreditando que muitos não o faziam por “uma questão ideológica, mas pelo dinheiro”. A miséria era tanta que muitos destes “bufos” acabavam por escrever muitas vezes mais mentiras do que verdades para receber dinheiro, constatou Maria José Ribeiro.

O “medo de pensar e de falar” era um dos maiores temores vividos naqueles tempos, “tempos muito duros”, recordou a secretária da URAP que os sentiu e viveu na própria pele. Filha de um marinheiro e de um homem que ousou pensar e falar sobre o que lhe ia na alma. O preço que pagou por querer ser um “homem livre” foi com o tempo que é uma coisa que não podemos comprar muito menos recuperar. Ele foi preso em 1936 e esteve durante 16 anos no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, deixando para trás a mulher e a filha, Maria José Ribeiro, com apenas nove meses. Ela cresceu a conhecê-lo através dos conhecimentos transmitidos pela mãe e pela avó. Apesar de o contacto não ter existido até ela ter 17 anos, quando o viu, a ligação foi “muito forte”, contrariando assim o ditado “longe da vista, longe do coração”. É certo que ele esteve longe da vista durante 16 anos, mas graças à mãe e à avó esteve sempre bem perto do seu coração.

O pai continuou a sua luta pela liberdade e a filha seguiu-lhe as pegadas ao integrar a comissão de apoio à candidatura do General Humberto Delgado que venceu as eleições, mas os resultados não foram reconhecidos. Ele voltou a ser preso. Numa das vezes junto com a filha que integrou uma das manifestações contra a falsidade dos resultados das eleições. Esta é apenas uma parte de uma história, entre milhares de histórias, em que as personagens ficaram marcadas pelo regime salazarista que não deve ser esquecido. “Ao passar o meu testemunho, estou a cumprir o meu dever para que não volte a acontecer”, esclareceu Maria José Ribeiro.

Um dos factos históricos marcantes da candidatura de Humberto Delgado, o “general sem medo”, à Presidência da República pela oposição, em 1958,é que as eleições foram fiscalizadas em S. João da Madeira e em Espinho, o que permitiu reconhecer a sua vitória, pelo menos, nestes dois pontos do país. As pessoas que fiscalizaram as eleições acabaram presas.

URAP impediu que o Forte de Peniche fosse concessionado para fins hoteleiros

A URAP foi criada pelas pessoas antifascistas, que durante a ditadura criaram a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, com o intuito de preservar a memória e de passar o testemunho de ex-presos políticos durante o regime salazarista e marcelista vividos de 1934 a 1974 em Portugal.

Uma missão cumprida com a publicação deste livro e com a petição criada para impedir que o Forte de Peniche fosse concessionado para fins hoteleiros em vez de recuperado para preservar essa parte da história, ainda que dura, vivida por muitos portugueses.

A petição com 9.635 assinaturas foi entregue a 26 janeiro de 2017 na Assembleia da República, apelando ao Governo para que “se mantivesse como património nacional, símbolo da repressão fascista e da luta pela liberdade”, tal como se lê no livro.

O Governo acabaria por não levar adiante a concessão, estando, neste momento, a decorrer obras de recuperação do Forte de Peniche. A primeira fase destas obras vai ser inaugurada a 27 de abril deste ano com um mural com o nome dos 2.500 presos que por ali passaram, anunciou Maria José Vieira, vincando a intenção da URAP continuar a luta para que ali seja criado o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.

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