Ana, nome fictício, esteve casada durante cerca de 30 anos com aquele que acreditava ser o amor da sua vida. Ele “ao início era uma pessoa normal” até ao momento em que “começou a revelar uma faceta mais agressiva verbal”, contou Ana que acabou por atribuir esta atitude ao facto de o marido que era empresário ter perdido muito dinheiro em negócios na área a que estava ligado. “Sempre associei a isso porque não queremos acreditar que a pessoa que amamos é má por natureza”, justificou Ana ao labor.

A faceta verbal agressiva aliada ao álcool levou a atos incompreensíveis e imperdoáveis. Tanto a mulher como os filhos começaram por protegê-lo porque, em primeiro lugar, ele era o marido e o pai e, em segundo, ele era um empresário bem conhecido e poderia afetar ainda mais os negócios. Além de tudo isto, que não é pouco, esconderam por vergonha. “Nós sempre encobrimos por proteção e depois por vergonha por os outros saberem o que se passava na nossa casa”, assumiu a vítima de violência doméstica psicológica que “pensava que violência doméstica era apenas física”.

Um desses atos aconteceu num jantar de amigos em que o casal começou a discutir e o marido tentou mandar com uma travessa na mulher. Ela acabaria por levá-lo para uma sala com a intenção de acalmá-lo, mas não conseguiu. Aliás, ele meteu-lhe a mão no pescoço até que um dos filhos apareceu, “começou aos gritos” e os amigos separaram o casal. Outro desses atos envolveu a violência psicológica e física. “Ele vinha muito bêbado, queria ter relações sexuais. Eu disse que não, mas ele conseguiu levar a dele avante. Naquele dia senti-me violada, usada e muito mal”, confessou Ana ao labor.

A vítima disse-lhe “não me tocas mais” e ele respondeu “a gente logo vê”. E o certo é que voltou a chegar a casa bêbado, a forçar o contacto físico e ela voltou a negá-lo. Desta vez, o agressor pegou na arma que guardava na mesa de cabeceira e apontou-a à vítima. “Ele tirou a arma e encostou-ma à fonte da minha cabeça e disse tenho ou não tenho? Eu disse que não, podes disparar à vontade. E passamos a noite toda acordados com ele a apontar-me a arma. Eu só dizia dispara, mas não me tocas. Ele de manhã desistiu e cada um foi para o seu trabalho”, recordou Ana ao labor.

Após estes e outros atos, a vítima queria sair de casa tal como os filhos lhe pediram vezes sem conta. Mas só decidiu fazê-lo quando os filhos atingiram a maioridade, impedindo-o assim de os usar para a atacar. Nessa altura, ela própria começou a preparar a sua saída. A vítima avisou que tinha de deixar o trabalho à entidade empregadora ao fim de um determinado tempo, começou a transportar coisas em pequenos sacos para um quarto que tinha alugado até ao dia em decidiu sair de casa. “Eu não tinha intenção de sair daquela zona (onde vivia), mas (os filhos) acharam que não era boa ideia”, contou Ana ao labor.

Só quando saiu de casa é que contou à família o que tinha acontecido e que estava num quarto alugado. Pouco depois, a família tratou de ir buscá-la e ajudá-la a recomeçar a sua vida bem perto deles na zona norte do país.

“Nunca mais vais ter uma vida de sossego, vou encontrar-te e matar-te”

Ela conseguiu o divórcio, abdicando de todos os bens, pedindo apenas “paz e sossego”, mas ele avisou que ela ia se “arrepender”, recordou. E “ao fim de três semanas começou a tortura com chamadas a toda a hora”. Umas em que dizia coisas que “não dizia em casado como ´amor, paixão, amo-te, vamos fazer a nossa vida de outra maneira, tenho saudades tuas´”, mas que depois de a vítima dizer que não ia voltar atrás partia para insultos como “minha vaca, minha p***, minha filha da p***, tens amantes”.

Os insultos tornaram-se em ameaças como “nunca mais vais ter uma vida de sossego, vou encontrar-te e matar-te”, revelou Ana ao labor

E encontrou o lugar onde mora. Ela nunca chegou a ter um confronto com ele talvez pelas prevenções que tomava sempre que ele dava a entender que ia ter uma visita dele ou que alguém conhecido a avisava ou por pura “sorte” dentro do que é possível considerar ter “sorte” perante esta situação.

O agressor conseguiu invadir a privacidade da vítima em tudo que era email e redes sociais e as ameaças tornaram-se cada vez mais alarmantes através de telemóvel, bilhetes deixados na caixa do correio e esperas junto aonde vive. Tudo isto “chegou a um ponto em que tive de apresentar queixa”, admitiu Ana, entrando em contacto com as entidades indicadas que classificaram o seu caso, com base em tudo que disse e em todas as provas que guardou e apresentou, como um caso prioritário. O caso chegou a tribunal e o agressor “negou tudo” de que era acusado mesmo perante todas as provas. O agressor foi condenado a dois anos e meio de pena suspensa com uso de pulseira eletrónica. Esta pena e muitas outras acabam por ser leves, demasiado leves, para o agressor tendo em conta a realidade vivida antes, durante e, em muitos casos, depois pela vítima. “A pulseira eletrónica nestas pessoas devia de ser para toda a vida”, reagiu Ana, relembrando que os agressores depois de retirarem a pulseira voltam a ser “livres” e as vítimas nunca deixam de ser “prisioneiras”. Aliás, Ana não duvida de que poderá vir a “ser mais uma das vítimas que aparece na televisão”. “Ele não vai preso. Ele mata-se a ele e a mim”, assegurou Ana durante o testemunho que deu ao labor.

E perante a história desta mulher que decidiu deixar de ser violentada para voltar a ser o que nunca devia de ter deixado de ser, uma pessoa livre, e perante este “pedido de ajuda” para que os agressores sejam severamente punidos para não acharem que perante a pena que recebem “o crime compensa”, o que é que devemos e podemos, mas não estamos a fazer? O preço que está a ser pago pelas vítimas é com a própria vida.

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