No ano em que a Tuna dos Voluntários de S. João da Madeira assinala o 40.º aniversário, o labor foi ao encontro de um dos seus tunantes fundadores, ainda vivo e com muitas (boas) memórias para contar.

Estivemos à conversa com o maestro João Barbosa, de 83 anos, que, além de ter feito parte da Banda de Música (BM) ao longo de 21 anos, fundou, juntamente com o saudoso médico Ramiro Salgado e outros “carolas”, a Tuna dos Voluntários. E enquanto pertenceu a esta última agremiação musical fez os arranjos do Hino de S. João da Madeira, para orquestra, algo que a maioria dos sanjoanenses desconhecerá dada a discrição que carateriza a sua pessoa.

“A Tuna dava espetáculos em S. João da Madeira e as pessoas pediam para cantar o hino”, contou ao nosso jornal o maestro natural da freguesia de Espadanedo (Cinfães do Douro), acrescentando que “arranjei maneira de me arranjarem um papel de piano e, a partir daí, fiz o arranjo para a Tuna”. Até então, conforme disse, “o Hino só seria cantado por um coro, ninguém o executava”.

João Barbosa fez questão de mostrar ao labor o tal “papel de piano”, onde está mencionado que a letra é do Dr. Serafim Leite e a música do maestro Tomás de Lima. Figuras às quais veio a juntar-se mais tarde, assumindo o papel de orquestrador do Hino de S. João da Madeira.

Atualmente este hino é executado tanto pela Tuna dos Voluntários como pela BM sanjoanense, mas “com o meu arranjo”, esclareceu à nossa reportagem o músico oriundo do distrito de Viseu.

 Veio para S. João da Madeira em maio de 1960 a convite da Banda de Música

Convidado pela Banda de Música que, na altura, precisava de um músico militar “especialista em clarinete”, veio para S. João da Madeira em maio de 1960. “Como precisava de emprego”, trouxeram-no “com a garantia que me arranjavam emprego” e por cá ficou até hoje. O convite partiu de “um senhor ligado à Austin que também fazia parte da direção” da filarmónica local.

João Barbosa é casado, tem três filhos e três netos. Presentemente passa os seus dias dedicando-se à família. Mas houve tempos em que, além das suas responsabilidades familiares, “conciliava a minha profissão [droguista] com a Banda de Música e a Tuna e, depois, só com a Tuna”.

“Quantas e quantas vezes estive a escrever música até às quatro da manhã e depois tinha de ir trabalhar passadas poucas horas”, rememorou, dando a saber ainda que “a maior parte do repertório da Tuna é dele”.

Fez parte da Tuna dos Voluntários durante cerca de 25 anos

João Barbosa ainda integrava a BM, na qual foi presidente da direção e também regente, quando começou a fazer parte da Tuna dos Voluntários. “Um dia, onde é a sede dos Bombeiros, vinha da parte de baixo, da Praça [Luís Ribeiro], e estava lá um grupo de pessoas, inclusive o fundador, Dr. Ramiro Salgado, que me chamou e disse que andava à procura de músicos, porque queria formar uma tuna, à semelhança da que tinha tido na universidade, e queria saber se podia contar comigo”, relatou o maestro, prosseguindo: “Disse-lhes que não estava à espera [de tal convite], mas que se pudesse ser útil em alguma coisa que podiam contar comigo”.

E assim foi. Foi, precisamente, João Barbosa quem escreveu “uma carta à direção da Banda de Música a pedir para, numa noite, nos ceder uma sala [no antigo Hospital] para nos reunirmos”.

Os primeiros ensaios da Tuna dos Voluntários (hoje sedeada na Rua das Águas) foram “no Hospital velho”, onde se juntavam perto de 50 tunantes, mais homens do que mulheres e a grande maioria sem perceber “grande coisa de música”. Mais tarde, passaram a ser “num auditório no lugar das Fontainhas”, cedido pela câmara.

Escolhido desde a primeira hora para ser o maestro da Tuna dos Voluntários, João Barbosa chegou a fazer “ensaios durante a semana, à noite, só com os que não sabiam música, que não sabiam ler a pauta, para lhes pôr a música na cabeça”.

“Quando a Tuna se juntou para fazer o ensaio no Hospital velho, pela primeira vez, não tinha uma nota de música escrita”, lembrou, continuando: “Comecei do zero ou até mesmo abaixo do zero. Levei comigo apenas uma marcha que fiz, ainda novo, chamada “Voo de Mariposa”.

 “A Tuna está-me na alma”

João Barbosa guarda as melhores recordações da tuna que ajudou a fundar há quatro décadas. “O convívio era muito bom. A política sempre ficou lá fora. Aqui a política era apenas a música”, deixou claro ao labor, sublinhando, de seguida, que “foi muito engraçado quando a Tuna deu o primeiro espetáculo”.

“Segundo o Dr. Ramiro, em S. João da Madeira, ninguém nos queria abrir a porta. E então a nossa estreia foi no Cinema de Arrifana”, recordou, dando nota que “a casa estava cheia e que foi um espetáculo fantástico”.

Além de vários discos e CD’s editados, a Tuna dos Voluntários conta, no seu currículo, com atuações em muitas localidades de Trás-os-Montes, Aveiro, Figueira da Foz, etc., e até uma internacionalização.  “A Tuna chegou a ir aos Estados Unidos da América, mas eu não fui porque não ando de avião”, partilhou com o nosso semanário João Barbosa.

Não obstante ter deixado a Tuna dos Voluntários há alguns anos, “ainda sinto esta casa como minha”. “A Tuna está-me na alma”, sublinhou o maestro, pedindo ainda: “Não se esqueçam de mim que eu também não me esqueço de vocês”.

 

GN
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