“Quando a pessoa é bom marido e bom pai, a ligação é tão grande, mas tão grande que, posso estar a ser injusta, o sofrimento é maior”, desabafou Cristina ao labor

Cristina, nome fictício, queria ter sido educadora de infância, mas acabaria por casar, ter o primeiro e depois o segundo filho, e “viver para família”, começou por contar ao labor.

No momento em que os filhos já “não precisavam” de si, Cristina decidiu que ia trabalhar ao lado do marido que geria uma empresa de calçado em S. João da Madeira.

Tanto um como outro submeteram-se, em fevereiro, aos exames de saúde obrigatórios por lei a serem realizados aos trabalhadores das empresas, e os resultados foram normais.

Num dos dias de trabalho, o marido sentiu-se mal. Um acontecimento desvalorizado devido ao “trabalho excessivo”, até ao momento em que ele caiu e foi para o hospital, onde a família recebeu a notícia que poria as suas vidas de “pernas para o ar”.

O marido tinha “um cancro maligno e galopante na próstata” que apareceu desde fevereiro até maio, relembrou Cristina que na altura disse à equipa médica que aquele diagnóstico era “impossível”.

Naquele momento, o casal começaria uma luta difícil para toda a família que dura quase há uma década.

Entre os méritos que devem de ser dados, desde à família até à equipa médica, um mérito especial é atribuído ao marido, que é “um lutador” e “não diz não a nada”, por Cristina durante a conversa com o labor.

Depois de todos os funcionários conseguirem trabalho noutras empresas, Cristina decidiu encerrar a empresa para que pudesse estar sempre ao lado do marido ao longo desta luta.

Apesar de Cristina ter sido “sempre habituada à família tratar da família”, certamente não estava à espera de ter de cuidar, pelo menos, tão cedo do marido. Os pais de Cristina sempre viveram com o casal que também sempre cuidou de tudo que foi necessário com os sogros.

Atualmente, Cristina toma conta da mãe e de uma tia, irmã da mãe, que não casou nem teve filhos e a quem não teve coragem de, chegado o momento, colocar num lar. A estas duas pessoas na casa dos oitenta e tais anos, uma com mais outra com menos autonomia, junta-se o seu marido que depende quase totalmente de si.

O casal, ela com 60 e ele com 67 anos, teve de se adaptar a esta nova realidade, muitas das vezes difícil, onde, apesar de tudo, esta cuidadora informal, realça a oportunidade de poder estar junto do seu marido e rodeada pela família.

“Quando a pessoa é bom marido e bom pai, a ligação é tão grande, mas tão grande que, posso estar a ser injusta, o sofrimento é maior”, desabafou Cristina ao labor.

“Todos os dias aprende-se a viver um bocado mais”

A rotina desta cuidadora informal é acordar, tratar da sua higiene, preparar o café de cafeteira que é uma espécie de tradição familiar, e preparar os tabuleiros com o pequeno-almoço e a medicação para a mãe, a tia e o marido. Trata da higiene, da roupa e de colocar cada um deles no seu lugar de repouso. Quando dá por si, na maior parte das vezes, bate o meio dia e já é tarde para o seu pequeno-almoço, mas é a hora ideal para começar a preparar o almoço e a medicação de cada um deles. E a rotina é assim quando não tem de sair de casa “de manhã cedo, como hoje, em que tive de preparar tudo antes, para ir ao hospital com o marido”, contou Cristina.

A seguir ao almoço, sempre que é possível, “vou caminhar um bocadinho com ele lá fora para apanhar ar, arejar, e depois venho arrumar a cozinha, tratar da roupa, entre outras coisas”, relatou a cuidadora informal ao labor.

A rotina continua com o lanche, o jantar e com o acomodar toda a gente na cama, o que nem sempre significa que seja o momento em que vai poder dormir e descansar. Para esta cuidadora informal, seja durante o dia ou durante a noite, “não há descanso porque não há tempo”, assumiu com a explicação de que a rotina está entranhada de tal forma em si que não consegue deixar de estar em alerta constante para com quem cuida.

Numa retrospetiva sobre a vida que o casal tinha e passou a ter, Cristina é pragmática. “Aprendeste a viver de uma outra maneira, a não fazer planos, a não viver o dia a dia, mas minuto a minuto e, às vezes, segundo a segundo e a agradecer, apesar do sofrimento, por teres todos à tua volta”, reagiu a cuidadora informal que acaba todos os dias por agradecer novamente “por conseguirmos chegar ao fim dia. Aprendes a dar valor a coisas que te passavam ao lado”.

A força que Cristina tem e emana existe porque tem “uma fé muito grande”, todavia, admitiu que é uma pessoa “de carne e osso” como toda a gente e que tem momentos em que tem de estar consigo própria para ser “lavada por lágrimas” e para “respirar fundo” e só depois volta para a sua realidade com “um sorriso de orelha a orelha”. E, desta forma ou de outra forma qualquer, “todos os dias aprende-se a viver um bocado mais”, assumiu a cuidadora informal ao labor.

“Acho que é algo que nasce connosco”

E Cristina tem aprendido a viver um bocado mais para os outros, mas não para si. Quando perguntámos que tempo dedica para si, ela respondeu “nenhum. Não há fins-de-semana nem feriados”. Muito embora não abdique de fazer o que faz, cuidar da mãe, da tia e do marido com toda a alma e coração, o desgaste de ser cuidador informal é sentido pelo corpo e pela mente. Ainda assim, “se tomaste esta responsabilidade é preciso ser responsável até ao fim. Acho que é algo que nasce connosco”, frisou a cuidadora informal.

Cristina, mais do que lamentos, deu muitas graças, ao longo da conversa com o labor, pelo facto de poder ter ao seu lado o marido e toda a família.

Estatuto de Cuidador Informal?

“Acho muito bem”

A proposta de lei do Governo entregue a 15 de fevereiro na Assembleia da República prevê dois tipos de cuidador, o cuidador informal principal e o cuidador informal não principal, em que o primeiro tipo de cuidador não pode exercer atividade profissional para que possa receber um subsídio.

A medida apresentada por Vieira da Silva e Marta Temido, ministros do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e da Saúde, respetivamente, prevê a criação de projetos-piloto, com a duração de um ano, antes de serem alargados à generalidade de cuidadores e pessoas cuidadas.

Entre as medidas, destaque para aquela em que é indicado um profissional de saúde para ser um contacto de referência que será responsável pelo processo e o elo de ligação entre a família e os serviços. Bem como para uma outra em que é proposto um subsídio para o cuidador informal principal de acordo com a sua condição e recursos, estando este sempre impossibilitado de ter uma atividade profissional.

Um dos “senãos” desta proposta é que quem integrar estes projetos-pilotos não vai ser contemplado com o subsídio, mas estão previstas outras prestações de acordo com a situação de acordo com o agregado.

Esta proposta do Governo vai ser discutida em conjunto com os projetos de lei de outros partidos (BE, PCP e CDS-PP) para cuidadores informais.

Antes da criação de uma proposta de lei vai ser testado o projeto-piloto durante um ano e só depois poderá ser ponderada, debatida e tomada a decisão de criação do Estatuto do Cuidador Informal. Até lá cuidadores e pessoas cuidadas continuam a ter de lidar com a realidade que têm com ou sem ajuda do Estado.

“Acho muito bem” a criação do Estatuto do Cuidador Informal, afirmou Cristina, indicando, quase como em modo de aviso, que “cada vez há menos lugares nos lares”, logo alguém terá de tomar conta destas pessoas que não podem ficar sozinhas.

No caso desta cuidadora informal, apenas recebe um suplemento por cuidar da tia, estando a tratar do processo relativo à sua mãe e a voltar a tratar do processo relativo ao seu marido depois de lhe ter sido negado qualquer apoio por já ter sido gerente de uma empresa. O trabalho de cuidadora informal que tem a tempo inteiro, como não é reconhecido, não conta como tempo nem como descontos para a sua carreira contributiva, o que por agora não a afeta de qualquer forma, mas um dia afetará. E quem diz a si diz a outras pessoas. E o que será destas pessoas? Uma questão que deve ser refletida por todos, principalmente por aqueles que têm o poder decisivo de avançar com a criação do estatuto, porque um dia a realidade destas pessoas pode ser a nossa.

“Um dia mais cedo ou mais tarde todos vamos ter de parar um bocadinho para tratar dos nossos”, concluiu esta cuidadora informal ao labor.

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