Marçal Correia é um dos convidados da Tertúlia dos Poetas Sanjoanenses que esta quinta-feira, pelas 18h00, tem lugar na Biblioteca Municipal (BM) Dr. Renato Araújo no âmbito da Campanha Poesia à Mesa, que se encontra a decorrer em S. João da Madeira (SJM) até 5 de abril.

O filho do escritor João da Silva Correia aceitou o convite da BM, mas já deixou claro, pelo menos ao labor, que não vai “assassinar poesia”. Ou seja, Marçal Correia não vai declamar poemas porque entende que não tem esse “dom”. Será um dos seus netos que vai recitar poesia do bisavô.

De qualquer modo, faz questão de estar presente nesta iniciativa que surgiu há quase uma década porque, conforme explicou ao nosso jornal Graça Neves, da BM, “[na altura] os poetas locais reclamavam que se homenageavam os poetas nacionais e ignoravam-se os da cidade”.

Além de Marçal Correia, marcarão presença alguns dos “poetas sanjoanenses ou ligados a S. João da Madeira, que constam do Fundo Local” da BM, como Flores dos Santos Leite, Tiago Moita, Gil Milheiro, Magalhães dos Santos, Eva Cruz, Adão Cruz, Amílcar Bastos, entre outros.

João da Silva Correia era “muito meigo com os filhos e os netos”

Dias antes desta tertúlia que promete prender a atenção desde o primeiro ao último minuto, a julgar pelo “leque de convidados”, a nossa reportagem foi ao encontro de Marçal Correia que, uma vez mais, nos abriu as portas de sua casa. Recorde-se que já o havia feito, no ano passado, por altura do 30.º aniversário do labor.

Mas, desta feita, foi mais longe partilhando com o nosso semanário as memórias que tem do seu pai. Falou-nos de um João da Silva Correia “muito meigo com os filhos e os netos, muito meigo mesmo, que sempre gostou de crianças”, que gostava da natureza e dos animais. Aliás, por isso, construiu uma casa em Carcavelos, Santiago de Riba-Ul (Oliveira de Azeméis), onde “tinha um quintal muito grande” com flores, coelhos, patos, etc.”. E onde, imagine-se, ainda chegou a chamar a atenção de um vizinho por este “andar a atirar tiros contra os pardais”.

À questão “de que tem mais saudades?”, Marçal Correia respondeu sem hesitar:“Dele!”.  Na sua opinião, o pai era “uma pessoa interessante”, que,normalmente, se não estava a trabalhar estava no escritório a ler ou a escrever” e que “às refeições nos fazia perguntas, ‘puxava’ por nós”. “Falávamos à mesa”, coisa que hoje em dia acontece cada vez menos.

A propósito de refeições, o prato preferido de João da Silva Correia era lampreia à bordalesa: “A minha mãe fazia aquilo que era uma maravilha e a minha mulher, mais tarde, também aprendeu a fazer”. Quanto a doces, a preferência recaía nos sonhos e, por ocasião do Natal, nos bilharacos.

De cinco obras publicadas, “Unhas Negras” é a mais conhecida

Segundo o filho, João da Silva Correia “tirou o curso de professor primário, mas não chegou a exercer”. Este sanjoanense de gema que morreu em maio de 1973, com 77 anos, “nunca trabalhou para outros”, tendo feito “milhentas coisitas” antes de se dedicar ao ramo do calçado.

João da Silva Correia teve em SJM, “primeiro, uma fábrica de calçado e, depois, um negócio de solas, cabedais, entre outros artigos [empresa A. Costa & Correia, Lda.], “na rua logo a seguir à Igreja”, no qual se manteve até aos 70 anos quando se reformou. Paralelamente, foi alimentando sempre a sua paixão pela escrita.

Desde novo começou a escrever, tendo colaborado na imprensa local e regional, bem como na Imprensa Diária de Lisboa e Porto. Mas há mais: a BBC, durante a Segunda Guerra Mundial, transmitiu crónicas da sua autoria e, além disso, João da Silva Correia também colaborou nos Anais das Bibliotecas, arquivo e museus municipaise no semanário Academia Portuguesa.

São cinco as suas obras publicadas – “Farândola” (1944), “Porta Aberta” (1949), “Unhas Negras” (1953), “Os Outros” (1956) e “Um Minuto de Silêncio” (1962). Destas, “Unhas Negras” é a mais conhecida, tendo imortalizado o operário de chapelaria do início do século XX. A ação desenrola-se em S. João da Madeira, a sua terra natal que, na ótica de Marçal Correia, tem sabido lhe prestar homenagem. Em SJM há, por exemplo, uma escola, uma rua e um prémio literário com o nome do escritor.

Mas também se note que “o meu pai era maluco por S. João da Madeira”.Nem sei como fez a casa em Carcavelos. Talvez por causa da minha mãe, que tinha lá a família”, contou ao labor Marçal Correia.

“Ele foi um mártir da doença de Parkinson”

João da Silva Correia morreu vítima de cancro. Mas antes foi [também] um mártir da doença de Parkinson”, a qual descobriu que tinha “pouco depois” de Marçal Correia nascer.

“Correu vários médicos no Porto, Coimbra, Lisboa”, mas sem sucesso. O escritor chegou a um ponto de não conseguir fazer-se entender e, muitas vezes, “quando ia alguém lá a casa para conversar com ele éramos nós [os filhos] os intérpretes”. “O meu pai não era pessoa de se queixar, mas sofreu muito com a doença”, desabafou Marçal Correia.

Sanjoanense e Ferreira de Castro eram grandes amigos

Nesta conversa com o labor, além das qualidades “sem conta” – “era de uma integridade única, muito sério, muito amigo do seu amigo, da família, muito condoído com a miséria – e de um único defeito – “teimoso [“Os Correias são teimosos (risos)]”, Marçal Correia destacou as amizades do seu pai. O escritor Ferreira de Castro, natural de Ossela (Oliveira de Azeméis), era um dos grandes amigos de João da Silva Correia.

Marçal Correia recorda-se de ter almoçado várias vezes com os dois em Macieira de Cambra (Vale de Cambra), para onde Ferreira de Castro “ia muito quando vinha ao Norte”.

Escritor chegou a escrever uma carta ao Salazar

Marçal Correia não tem dúvidas que o seu pai “era um homem de causas”.  Tanto que chegou a escrever uma carta ao Salazar intercedendo por alguns sapateiros que tinham sido presos pela PIDE na sequência de “uma greve muito grande em S. João da Madeira”.

“Escreveu-lhe a dizer que não achava certo haver famílias a passarem necessidades, que as crianças e as mulheres não tinham culpa por eles estarem presos, se é que havia razões para estarem presos”, afirmou Marçal Correia, acrescentando que “não sei se foi por causa da carta ou não”, mas a verdade é que foram soltos um tempo depois.

Marçal Correia, de 87 anos, e uma irmã, mais nova, são os únicos dos cinco filhos do jornalista sanjoanense que estão vivos.

Fim de semana de Peregrinação e Serão Poético

Dois dos pontos altos da Poesia à Mesa são a Peregrinação e o Serão Poético, sempre em duas noites consecutivas. Este ano, a Peregrinação decorre a 22 de março, começando e acabando na Biblioteca Municipal e contando com a presença do carismático Adolfo Luxúria Canibal, vocalista e fundador da banda Mão Morta.

Estando a animação de rua novamente sob a responsabilidade do grupo Anima Dixie, a Peregrinação de 2019 tem como participantes a APROJ – Associação de Promoção da Juventude na estação poética de Ana Paula Inácio, Associação Cultural Luís Lima e Fugas Poéticas (Carlos Tê), CERCI (Sidónio Muralha), Associação de Jovens Ecos Urbanos (Ondjaki), TOJ (Adília Lopes) e Universidade Sénior (Almeida Garrett). O acesso é livre.

Já no dia 23, pelas 22h00, a Casa da Criatividade acolhe o Serão Poético que, desta vez, reúne dois ícones da cultura nacional, nomeadamente a atriz e encenadora São José Lapa e o guitarrista e compositor mestre António Chaínho.

O bilhete deste espetáculo tem um custo de três euros e pode ser comprado nos locais habituais.

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