Doença mental é “como outra qualquer”, sendo “fundamental que as pessoas se queixem” para terem o devido tratamento médico

São cada vez mais os casos de doenças mentais conhecidos na sociedade. E é cada vez maior a responsabilidade de todos nós perante este “problema epidémico”, apesar de muitos continuarem a assobiar para o lado fazendo de conta que nada tem a ver com eles.  Esta “indiferença”, chamemos-lhe assim, acontece mesmo quando a doença vive dentro da própria casa afetando um pai, uma mãe, um filho ou outro elemento do agregado familiar.

Não obstante se falar cada vez mais no assunto, infelizmente, ainda “há um estigma que acompanha a doença mental. Miguel Martins falou ao labor desse tal “estigma” social que, em seu entender, não tem razão de ser. Segundo o coordenador do Hospital de Dia de Psiquiatria, instalado no segundo piso do Hospital de S. João da Madeira, “a doença mental deve ser vista como as outras doenças”.

Aliás, é precisamente para acabar com “o preconceito de que [por exemplo] a depressão é igual a fraqueza ou a falha e que a esquizofrenia é igual à loucura” que Miguel Martins e os restantes elementos da equipa do Hospital de Dia, entre os quais a médica psiquiatra Vanessa Pais com quem a nossa reportagem também conversou, trabalham todos os dias.

Este é “um trabalho contínuo” “feito em equipa e voltado para a comunidade” que, acima de tudo, mostra que há vida para além do “fundo do poço”, de onde estes profissionais de saúde resgatam a esmagadora maioria dos pacientes. “O número de suicídios não é zero, mas é um acontecimento raro face aos casos que acompanhamos”, assegurou Vanessa Pais.

A doença mental é “como outra qualquer”, sendo “fundamental que as pessoas se queixem” para terem o devido tratamento médico, defendeu, por sua vez, Sara Mariano. De acordo com a diretora do Departamento de Saúde Mental do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV) e do Serviço de Psiquiatria, “o facto de alguém ter hoje uma doença mental não significa que a tenha toda a vida”.

Obviamente que cada caso é um caso. Mas há situações de pessoas que, conforme referiu, “sofrem da doença em silêncio há anos” e em que “a doença nem chega a ser detetada”, o que não devia acontecer. Sara Mariano pede mesmo, através do labor, para que “não tenham vergonha de dizer que estão doentes e que assumam a doença mental como outra qualquer que se trata de forma científica”.

Aliás, por isso é que “a consulta no centro de saúde [Consulta de Psiquiatria Comunitária] é importante, para apoiaros médicos de família”, fez ver a diretora.

Ansiedade e depressão são as doenças mentais mais frequentes em Portugal

Há múltiplas doenças mentais, com as mais frequentes em Portugal a serem as perturbações de ansiedade e as depressões. Digamos que estas são as mais comuns, mas também há as maisgraves como a psicose, doença bipolar, esquizofrenia, entre outras. E atenção que qualquer um de nós está sujeito a tê-las.

Vanessa Pais afirmou que “pode acontecer a qualquer um”, em qualquer idade, não se sabendo ao certo porque sucede. “Há uma tendência genética”, mas também “há acontecimentos de vida marcantes”, explicou a psiquiatra do Hospital de Dia há seis anos, que está mais ligada à área da reabilitação psicossocial.

Hospital de Dia de Psiquiatria recebeu 386 doentes em 2018

O Hospital de Dia de Psiquiatria abriu há cercade uma década, tendo sido “desenvolvido como uma resposta para pessoas cujos sintomas as impediam de manter as suas atividades habituais, apesar do tratamento em consulta”, esclareceu Vanessa Pais, acrescentando que “procuramos evitar a necessidade de internamento e apoiar o retorno à vida ativa”.O funcionamento é parecido com um hospital de dia de oncologia, uma vez que os utentes se deslocam regularmente ao hospital para fazer diferentes tratamentos”, exemplificou ainda.

Entretanto, “à medida que o número de técnicos foi aumentando foram-se desenvolvendo algumas respostas mais específicas”, contou Vanessa Pais, reforçando a ideia: “À medida que os anos vão passando vamo-nos adaptando às necessidades”.

Em 2018, foram atendidos no Hospital de Dia 386 doentes, dos quais 238 mulheres e 148 homens. Além disso, foram realizadas 7.286 sessões nas várias modalidades de tratamento.

Ações de promoção da saúde mental junto da comunidade

Otrabalho de Vanessa Pais e dos “colegas de luta diária” não se limita ao Hospital de Dia. A médica psiquiatra, que antes de vir para S. João da Madeira (SJM) fez formação no Hospital de Magalhães Lemos (Porto), disse ao nosso jornal que tentam “potenciar a ideia de psiquiatria comunitária”. Isto é, trabalham “o mais possível com a comunidade no sentido de encontrar as melhores soluções”. “E trabalhamos em rede, pois esta é a única forma de conseguirmos dar resposta”.

São, pois, várias as ações de promoção da saúde mental que o Departamento de Saúde Mental do CHEDV, em parceria com os agrupamentos de centros de saúde (ACeS). Por exemplo, “há vários profissionais que estão envolvidos no programa ‘Corpos sãos… Com mentes sãs’, ‘Literacia para a saúde na escola’”e que estão a trabalhar com algumas escolas dando formação aos professores na área da saúde mental”.

Em 2018, além deste programa, também houve no ACeS de Entre Douro e Vouga II – Aveiro Nortediversas sessões de formação para prevenção do suicídio destinadas tanto a profissionais de saúde como a parceiros da comunidade”. Ainda a propósito, note-se que foram realizadas duas iniciativas do género na Oliva Creative Factory direcionadas às forças de autoridade, bombeiros, etc..

Há também “uma aproximação aos cuidados de saúde primários, quer através das consultas de psiquiatria na comunidade, quer através de consultadoria”. Aliás, a pedopsiquiatria faz regularmente consultadoria nos centros de saúde.

E relativamente às consultas, feitas presencialmente em sete locais da comunidade, inclusive no Centro de Saúde de S. João da Madeira, Sara Mariano referiu-se a elas como sendo “muito importantes” porque, como justificou, “as patologias mentais de depressão e ansiedade são muito comuns”.

No ano transato, conforme informou a diretora do Serviço de Psiquiatria, foram consultados nos centros de saúde 876 doentes (541 mulheres e 305 homens).

Referindo-se concretamente aos doentes do Hospital de Dia, Sara Mariano mencionou que estes participam em várias atividades na comunidade: numaoficina artística em colaboração com o Centro de Arte Oliva, bem como vão à piscina e fazem outras atividades. Tudo isto graças a uma parceria com a câmara municipal, a junta de freguesia e a comunidade.

A responsável diretiva deu nota ainda da existência da Mentemovimento Associação Pró-Saúde Mental, que envolve pessoas com experiência em doença mental, familiares, amigos e técnicose que está sedeada na Casa das Associações, na Avenida Dr. Renato Araújo, em SJM.

“Reconhecer que há mais casos pode ser um indicador que estamos a dar mais resposta”

O Departamento de Saúde Mental do CHEDV, que Sara Mariano dirige, é constituído pelo Serviço de Psiquiatria, do qual faz parte o Hospital de Dia; Unidade de Pedopsiquiatria; e Unidade de Psicologia Clínica e da Saúde. Trata-se de três “unidades com autonomia técnica”, mas onde “todos trabalhamos em equipa”, sublinhou a diretora.

A equipa tem crescido a nível de médicos, contudo, “continuamos a ter dificuldades em contratar outros profissionais”, lamentou Sara Mariano. Neste momento, o grupo de trabalho é composto por seis psicólogos, uma assistente social (partilhada com outros serviços), sete enfermeiros, uma terapeuta ocupacional, três pedopsiquiatras e 10 psiquiatras. Os doentes que acompanham são maioritariamente do Entre Douro e Vouga, mas também têm pessoas de Ovar, Castelo de Paiva, entre outras proveniências.

Ao longo de 2018 foram vistos pela especialidade de Psiquiatria, em consultas realizadas nos hospitais de Santa Maria da Feira e de SJM, 3.303 pacientes (2.080 mulheres e 1.223 homens), sendo que o maior número de casos foi referente a pessoas com idades entre os 45 e 55 anos.

Já em consultas de Psicologia foram observadas nas três unidades hospitalares abrangidas pelo CHEDV, incluindo no “S. Miguel” (Oliveira de Azeméis), 1.772 pessoas (1.190 mulheres e 582 homens).Na Psiquiatria da Infância e Adolescência foram observados 876 utentes (366 raparigas e 510 rapazes).

Balanço feito, parecem ser cada vez as patologias mentais, o que, na opinião de Vanessa Pais, “deve levar-nos a pensar na forma como vivemos, como aprendemos a lidar com a ansiedade, com os familiares, com os colegas de trabalho”, etc.. Mas “reconhecer que há mais casos pode ser um indicador que estamos a dar mais resposta”, considerou a médica psiquiatra.

Manuel sofre de depressão há 13 anos

Um acidente de trabalho na Suíça, onde estava emigrado, “atirou-o” para uma depressão com que (sobre)vive há 13 anos. Manuel Moreira Barbosa – natural de Lever (Vila Nova de Gaia) e agora residente em Canedo (Santa Maria da Feira) – trabalhava na construção civil quando caiu “da prancha, de uma altura de cinco metros e meio”.

Depois disso, nunca mais pôde trabalhar. “As mazelas com que fiquei impossibilitaram-me de voltar a trabalhar na construção civil”, contou ao labor, acrescentando que “o acidente mudou completamente a minha vida”.

“Só de pensar que não podia trabalhar mais e de não saber fazer mais nada a não ser a construção civil” fez com que entrasse em depressão, situação que passados anos viria a agravar-se devido a problemas familiares.

Desde o diagnóstico, ainda na Suíça para onde a esposa foi para cuidar dele, que tem vindo sempre a tomar medicação. Ao nosso jornal, Manuel, de 53 anos, disse que “não posso passar sem os medicamentos” e que, já há algumas semanas, “venho [também] todos os dias de manhã apanhar soro [ao Hospital de Dia de Psiquiatria]”.

“Não tenho vontade para nada nem para comer”, ao ponto de passar o tempo na cama.  Volta e meia ainda vê televisão ou pega no carro e vai até Lever, a sua terra natal.  Mas na maioria dos dias “dá-me para me meter dentro de casa, para me isolar. Sinto-me no fundo do poço”, afirmou Manuel, admitindo que já lhe passou pela cabeça pôr termo à vida.

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