Não sinto este mundo! Que mundo este assim!

Não o sinto dentro de mim.

Não o encontro, vou perdendo os seus sentidos.

Rejeito-o a cada dia, rejeito os seus murmúrios,

Onde meus passos caminham perdidos…

 

Vejo-o rodar, rolar, oscilar, tonto e vazio.

Em voltas e reviravoltas sem calor, gelado e frio.

Que é feito do meu mundo, aquele que me foi dado

Como presente, com futuro e com passado?

 

Um mundo que tinha fundo…

Onde se via brilhar o sol, estrelas e luar.

Onde à beira-mar ouvíamos o marulhar das vagas,

Que morriam na areia por entre fragas.

 

O fluxo das marés à beira-mar, suavemente brincando a nossos pés,

E ao longe os barcos a surgirem numa alegria,

E depois a fugirem num adeus de braços caídos.

 

E as crianças alvoroçadas com mãos espadanadas,

Pela praia em corridas de supetão, esbaforidas,

Corridas de ida e volta da juventude, espontânea,

Todos os sentidos à solta, fugas de ida e volta,

Gargalhadas desgarradas, vindas do coração aos saltos, sempre à solta.

 

Foi-se esse mundo, esse mundo, sem regresso? Espontâneo, natural

Outrora virtual, inteligente, artificial, digital…

Organizado pelos tempos de ciência, técnicas facilitistas

De uma mecânica inconsciente. Mais própria de certos turistas.

Não! Sinto menos este mundo, não é um mundo dos meus avós,

Nunca estávamos sós.

 

Não surfávamos sobre as ondas, pois surfavam-se entre elas;

À luz das espumas, das brumas entre as estrelas,

E nós a vê-las passar com vontade de voltar a vê-las,

Já me roubaram as ondas, as ondas vindas de além,

As ondas que não foram de ninguém.

 

Iam e voltavam, connosco brincavam

Naquele mundo onde tudo brilhava de uma luz infinita,

E que se foi, e tanto era bonita!

Essa luz que agora se apaga e se afasta,

E leva no rasto o marulhar das ondas

Quando pela areia os meus pés chapinavam na

Maré baixa ou na maré cheia.

 

Foi-se a luz, foi-se o mar, as ondas, as marés…

Nunca mais virão beijar na alegria dos meus pés,

Foi-se o mundo…

Faz-se tarde.

Vou-me embora, vou daqui para fora…

Mas levo comigo ainda um raio que arde comigo,

No marulhar das ondas

O frol, arrebol final de tarde;

Os barcos no horizonte,

E os meus braços erguidos no adeus dos meus passos perdidos.

 

Foi-se o mundo.

E agora? Vou procurar no seu fundo…

 

Post poema:

 

A meu lado alguém, com um violento ataque

De tosse.

4 horas da manhã. Por ela a tomada de posse,

Pela posse da minha pena,

Que me retira da cena de um mundo de antes,

Do mundo que de mim se afasta, mas que me arrasta, onde

Teimo em ficar.

 

Afinal não me vou embora

Por enquanto, por agora.

 

Flores Santos Leite

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