“Quando me davam algumas esmolas era o dinheiro que tinha para viver”, contou a idosa, que perdeu a visão muito jovem, ao labor

Mimosa Margarida Oliveira nasceu há 88 anos em Arrifana e mora há mais de 50 em S. João da Madeira.

Quando chegámos a sua casa encontrámos uma mulher de fé, que não dispensa a reza do terço todos os dias e que nunca foi, não é nem pretende ser uma pessoa revoltada com todas as adversidades que encontrou ao longo da sua vida.

Mimosa enfrentou aquela que terá sido a maior adversidade colocada no seu caminho quando tinha apenas 12 anos. Um dia “andava a apanhar lenha, pisei um sapo envenenado e fiquei com a perna tipo cepo e com a pele como a do sapo” e “depois fiquei cega”. “Naquela altura, os meus pais não tinham possibilidades de fazer curar e fiquei assim”, contou Mimosa, crendo que o que aconteceu à perna poderá estar relacionado com a cegueira.

“Chorei muito, chorei muito, que a coisa mais triste é a gente não ver. Chorei muito e choro”, confessou a idosa ao labor.

Mimosa não fez a escola, mas gostava de saber ler ou escrever, e não trabalhou, mas gostava de ter tido a oportunidade de trabalhar em qualquer coisa como qualquer outra pessoa.

Quando veio morar sozinha para S. João da Madeira voltou a aprender tudo que sabia antes de ficar cega. E sozinha conheceu os cantos à casa, fazia a sua higiene, cozinhava as refeições, arrumava a casa, tratava do quintal. Tudo isto e muito mais aprendeu “sozinha”, assumiu Mimosa, esclarecendo que nunca se sentiu só, porque tinha sempre a companhia dos vizinhos e de familiares. “Tinha sempre companhia”, garantiu a idosa, relembrando que até há bem pouco tempo, quando se punha a noite “chegava a roupa para cima, pegava no meu rico terço e rezava. O terço não dispenso. É assim”.

Quando perguntámos a Mimosa se não teve a oportunidade de namorar, casar e ter filhos, a primeira resposta foi que não, mas depois lá disse que não foi bem assim.

“Por acaso, no tempo das desfolhadas tinha lá um rapaz que até me pediu em namoro, mas eu não quis…porque não quis…olhe não calhou”, confidenciou a idosa, esclarecendo que desde então “não, não apareceu mais ninguém”. Apesar de não ter ninguém quisemos saber se gostava de ter tido. Apenas disse: “gostava e não gostava”.

Mimosa não teve a oportunidade de ter um trabalho como qualquer outra pessoa, por isso não teve um salário todos os meses nem descontos para que um dia tivesse uma reforma que lhe permitisse ter uma melhor qualidade de vida. “Se pudesse gostava de ter ido trabalhar para uma fábrica ou para alguma coisa, mas nunca consegui. Nunca ninguém me ajudou”, disse a idosa ao labor.

Mimosa tem sobrevivido devido à boa vontade de terceiros desde familiares, amigos e conhecidos. “Olhe…quando me davam algumas esmolas era o dinheiro que tinha para viver”, contou ao labor.

Esta idosa passou por muitas dificuldades entre as quais fome. “Ai…fome nem lhe digo nem lhe conto. Eu fome passei muita, passei muita, muita, mesmo muita fome. Olhe quem me matava a fome era a família e pessoas amigas”, revelou Mimosa. Atualmente, esta idosa recebe refeições e tratamento da higiene por parte da ACAIS – Associação Centro de Apoio aos Idosos Sanjoanenses e a “Sopa Solidária” da Universidade Sénior.

  “Se me revoltasse não ganhava nada”

Desde a passagem de ano de 2018 para 2019 teve de colocar uma algália que a “obriga” a ficar “presa” à cama, mas continua a ter a companhia de vizinhos e de familiares. Inclusive, a filha de um dos seus sobrinhos, depois do trabalho, faz-lhe companhia, ajuda-a no que é preciso como tratar da sua higiene, dar-lhe as refeições e tratar da casa, e dorme consigo todos os dias.

Além do terço, “o meu rádio tem sido boa companhia. A televisão é mais para a minha sobrinha, mas gosto de ouvir o Preço Certo, a Fátima Lopes, o Somos Portugal…tem músicas bonitas”, comentou a idosa com o labor.

De momento, um dos maiores desejos de Mimosa é tirar a algália, e gostava de voltar a andar e a entreter-se com as pequenas tarefas do dia a dia.

Apesar de todos estas “adversidades”, continua a ser uma mulher de fé. “Não, nunca me revoltei. Penso muito nisso (o que lhe aconteceu com a perna e com a visão) … sempre recebi o que a vida ofereceu. Não valia a pena, se me revoltasse não ganhava nada”, concluiu Mimosa ao labor.

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