“Depois disso, o José Afonso foi excluído do ensino, não tinha possibilidades de ter meios para viver e ninguém o quis gravar”, contou Arnaldo Trindade ao labor

As duas músicas associadas à Revolução dos Cravos foram gravadas pela editora Orfeu de Arnaldo Trindade com quem o labor esteve à conversa para que nos pudesse transmitir o seu conhecimento sobre uma época marcada por uma revolução cultural face a um sistema ditaturial.

A possibilidade de Arnaldo Trindade passar as férias em Nova York, onde um tio seu trabalhava como engenheiro na General Motors, permitiu-lhe alargar os horizontes, e de que maneira, em relação a um Portugal compactado em duas talas psicologicamente instaladas por um “Estado” que se autodenominava de “Novo”.

Este clima de repressão levou a uma necessidade de dizer não ao sistema. Uma das formas de dizer não foi precisamente através da arte e da cultura. E é aí que entra a Orfeu que começou com a gravação de poesia em 1956 de poetas como Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Eugénio de Andrade, José Régio, Ferreira de Castro, Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luís, Daniel Filipe, entre muitos outros.

Perante um sistema com recurso à censura do pensamento e da expressão, à tortura e à prisão, José Afonso elegeu as letras que originaram os seus poemas e as suas baladas como “armas” de eleição, mas que o vieram a condenar, durante uns tempos, à exclusão.

A primeira vez que isso aconteceu foi com uma das baladas mais conhecidas de José Afonso. “Os Vampiros”, editada pela Discos Rapsódia em 1963,foi “proibidíssima. Depois disso, o José Afonso foi excluído do ensino, não tinha possibilidades de ter meios para viver e ninguém o quis gravar. Ninguém. Ele foi a todas as editoras”, contou Arnaldo Trindade ao labor.

“Grândola, Vila Morena” era “proibida tocar na rádio”

À importação de eletrodomésticos da marca Philco, Arnaldo Trindade, um eterno apaixonado pela arte e pela cultura, criou a sua própria editora discográfica de seu nome Orfeu. Depois da poesia e da prosa, apostou na música. “Isto começou com o Adriano Correia de Oliveira que fez da Canção de Coimbra as baladas já com conteúdo político”, relembrou o criador da editora, bem como quando Rui Pato, acompanhante de Adriano e Zeca, deu a ouvir “Cantares do Andarilho” de José Afonso, levando-o a decidir “correr riscos” e “em bora hora”. O “Cantares do Andarilho”, com Rui Pato, foi o primeiro disco de José Afonso gravado pela Orfeu em 1968. “Depois disso fizémos 13 discos LP do José Afonso. E toda a obra do Adriano está na Orfeu”, deu a conhecer Arnaldo Trindade.

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A editora contratou José Afonso e Adriano Correia de Oliveira para “terem uma possibilidade de vida e para viverem. Portanto, fiz-lhes um contrato para estabelhecer-lhes um mínimo de vida. Era um contrato que os obrigava a fazerem um disco por ano e a descobrirem novos valores” e assim apareceram “o José Mário Branco, o Sérgio Godinho, o Vitorino, o Fausto, esta gente toda”, referiu Arnaldo Trindade, esclarecendo que “a Orfeu não é uma pessoa, atenção, a Orfeu é um grupo de muita gente e de muita qualidade” mencionando nomes como José Niza, José Calvário, Miguel Graça Moura, Carlos Cruz, entre muitos outros.

“Grândola, Vila Morena” era “proibida tocar na rádio”. “Naquele tempo as coisas não eram fáceis. Andavam sempre em cima de nós. Quem não viveu esses tempos não imagina as dificuldades que havia. Não tínhamos livros estrangeiros praticamente nenhuns. Só os que lhes interessavam. Não tínhamos acessos nenhuns. Mesmo a certos jornais. Era uma altura muito difícil”, descreveu o criador da Orfeu.

“O impacto que a música teve foi fantástico. O disco chegou a todo o mundo”

O disco “Cantigas do Maio” de José Afonso – constituído pelas músicas “Senhor Arcanjo”, “Cantigas de Maio”, “Milho Verde”, “Cantar Alentejano”, “Grândola, Vila Morena”, “Maio Maduro Maio”, “Mulher da Erva”, “Rondas dos Manfarricos” e “Coro da Primavera”  –    foi lançado em 1971 pela Orfeu.

Entre as nove músicas deste disco está “Grândola, Vila Morena” cuja escrita foi inspirada durante a atuação de José Afonso na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense em maio de 1964.

“Cantigas do Maio” foi “o disco mais caro que se fez em Portugal na altura. Fomos gravá-lo a França, no Château d´Herouville, numa altura em que tinham lá estado os Stones e os Deep Purple, esses grandes grupos internacionais, e o produtor foi o José Mário Branco, que na altura estava lá emigrado, e de facto foi uma produção fantástica”, considerou Arnaldo Trindade, revelando que “só a produção foi mil contos”, o que naquela altura era “um dinheirão”.

Um dos sons associados à “Grândola, Vila Morena” são os passos dos soldados em marcha. “O barulho dos passos foi o Zé Mário. Havia umas gravilhas lá no castelo e com os passos deles gravou-se aquilo que parece ser um exército a passar. Foi excecional”, desvendou Arnaldo Trindade ao labor.

Quando ouviu “Grândola, Vila Morena” todos os seus sentidos ficaram rendidos à música. “Aquilo foi à primeira. Uma coisa tão importante e tão linda. Tínhamos essa sensibilidade”, admitiu o criador da Orfeu.

“O impacto que a música teve (´Grândola, Vila Morena´) foi fantástico. O disco chegou a todo o mundo”, assegurou Arnaldo Trindade, acreditando, sem dúvidas, que este “hoje é considerado o melhor disco de sempre pela imprensa, pela rádio e pela televisão”.

“Tivemos os dois discos da revolução na Orfeu”, mas “garanto que não sabia que ia existir o 25 de Abril”, esclareceu o criador da editora, admitindo que “não fazendo política fazíamos política. Não éramos ingénuos. As coisas eram pensadas estrategicamente”. E assim a Orfeu continuou até 1983, ano em que foi adquirida por uma outra empresa.

“Ele não aprendeu música. Ele era autodidata. Ele tinha a música toda na cabeça”

E como era José Afonso? “Um génio. Para mim é o maior poeta e músico da sua época”, respondeu Arnaldo Trindade.

“Ele fazia o que queria porque não fazíamos qualquer espécie de censura. Ele sempre teve liberdade total”, assegurou o mentor da Orfeu, frisando a importância de proporcionar boas condições de trabalho. “Veja o que acontece quando se paga o devido e dá-se condições para que as pessoas de facto que têm qualquer coisa cá dentro a deitarem cá para fora. As coisas aparecem”, referiu Arnaldo Trindade ao labor.

As conversas com José Afonso não eram sobre a política, mas assuntos literários e música, disse Arnaldo Trindade, recordando que ele adorava Debussy, Bach, Canto Gregoriano. Mais tarde, o criador da Orfeu conheceu um professor de música na Universidade de Évora que conheceu bem José Afonso quando estiveram na Holanda e que lhe mostrou que “ele não aprendeu música. Ele era autodidata. Ele era professor de História e de Filosofia. Ele de música não sabia nada. Ele tinha a música toda na cabeça. Uma coisa fantástica. Ele adorava falar-nos sobre música”.

“A política e a religiosidade do José Afonso eram a utopia. Ele era muito religioso, mas não era pela religião em si. Era pelo sentimento da religião verdadeira”, explicou Arnaldo Trindade, relembrando que certa vez pediu “ao Fausto para defini-lo numa palavra e ele disse: um franciscano”, esclarecendo, uma vez mais, não estar “a falar em religiões, mas em filosofia”. E “qual a filosofia da utopia? Um mundo que não precisa de reis, nem rocks, não precisa de dinheiro, de nada, somos donos de nós próprios”, indicou Arnaldo Trindade, continuando: “a excelência da vida humana está na utopia. Uma igualdade de ocasiões, termos os mesmos acessos à educação, formação, habitação, alimentação…as mesmas possibilidades. É uma esperança que temos de alimentar e acalentar”.

Atualmente, Arnaldo Trindade, com 84 anos, continua a ter a poesia e a música bem presentes na sua vida ou não fosse ele um poeta que está prestes a publicar o seu terceiro livro e um cantor que está a gravar músicas com um cantor bem conhecido dos portugueses.

 

“Grândola, Vila Morena”

Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

Qual a sua opinião sobre o 25 de Abril?

GN

“Fiquei muito satisfeito. Temos o principal: a liberdade. Podemos pensar, dizer e escrever sobre o que quisermos. Agora se não soubermos utilizar isso, o problema não é do 25 de Abril, mas das pessoas”.

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