Passados 45 anos, Abril ainda está por cumprir…

Mantendo a tradição, a Assembleia Municipal (AM) voltou a reunir-se, à semelhança dos outros anos, na manhã do feriado do 25 de Abril. Mas, pela primeira vez, ao som do Coro de Câmara de S. João da Madeira.

Coube a esta agremiação musical assinalar o início e o fim de uma sessão solene em que se exaltaram os valores de Abril, mas também não se pouparam críticas ao antigo regime e se denotou preocupação relativamente aos “tempos conturbados” que se estão a viver 45 anos após a Revolução dos Cravos.

“Abril trouxe-nos esperança”, “a vontade de um país melhor” e “de uma sociedade livre”, disse Rodolfo Andrade, chamando à atenção, no entanto, para que “a liberdade é uma realidade” “apenas para alguns”. “Mas que raio de liberdade é esta que faz com que sejamos escravos de hábitos de consumo? Mas que raio de liberdade é esta que faz com que nos guiemos por ‘pseudo orientações’ altamente questionáveis?”, questionou o líder da bancada do Partido Socialista (PS), para quem Josias Gil, ex-autarca sanjoanense já falecido, “tudo fez pela liberdade dos outros”.

É que “se há um ano atrás eu já dizia que a democracia estava ameaçada, pouco ou nada mudou nos últimos 365 dias. Reparem à nossa volta, na Venezuela, Brasil, Médio Oriente, Síria”, etc., fez ver o membro do PS, alertando ainda para que “é nestas alturas que o fascismo encontra as condições ideais para proliferar, para se impor e se apresentar como alternativa política”.

“É nestas alturas que devemos repensar os valores de Abril e assumirmos que o trabalho está longe de ser considerado concluído”, afirmou o político, indo ao encontro do que já Manuel Luís Almeida havia dito antes. Segundo este elemento do CDS-PP, “a liberdade é um direito obtido, mas não adquirido”, devendo os mais novos terem “como meta a defesa da liberdade”.

Para Manuel Luís Almeida, “falta cumprir Abril” e “construir um país justo e fraterno”. “É preciso combater a todos os níveis a fraude e a corrupção”, sublinhou.

Alinhando pelo mesmo diapasão, Pedro Gual (PSD) interveio uns minutos depois. “Todos os dias entram em nossas casas, através dos meios de comunicação social, casos de corrupção, de favorecimentos, de compadrio, de violência doméstica, de discriminações, de populismos”, referiu, acrescentando que “estas são verdadeiras ameaças aos ideais da liberdade e da democracia,  perpetradas por uns quantos que colocam os interesses pessoais e corporativistas à frente dos interesses da comunidade que deviam servir”, que se devem combater.

Na sua ótica, esta “batalha” passa por “uma maior mobilização e participação nas instituições onde, de forma democrática, são tomadas as decisões que afetam todos e cada um de nós”, que é como quem diz na Assembleia de Freguesia e na Assembleia Municipal. Nestes que são “os órgãos mais representativos das comunidades locais” os fregueses e os munícipes, respetivamente, se devem fazer ouvir, de acordo com o social-democrata.

Pedro Gual aproveitou o “tempo de antena” para, também, “dar uma alfinetada” à câmara maioritariamente socialista: “As obras estruturais para a cidade”, como a reabilitação da habitação social, a Sanjotec, a Oliva Creative Factory, entre outras, “estão a dar lugar a pequenas obras de circunstância e de cosmética”. Além disso, as contas de 2018 do Município “demonstram” “uma quebra significativa no investimento na cidade, apesar da maior disponibilidade financeira a que o executivo teve acesso”.

 “Cabe aos autarcas apontar alternativas, não desiludir”

Ainda a propósito de “cumprir Abril”, Rodolfo Andrade é de opinião – e partilhou-a com a AM – que “cabe aos autarcas apontar alternativas, não desiludir, não ignorar expetativas e apontar um caminho credível, um caminho que passe pelo desenvolvimento, pelo crescimento e pela alternativa”.

Em seu entender, “a nossa cidade precisa de pensar o futuro e continuar a fazer o que tem feito (reposicionar-se estrategicamente)” depois de o PS “ter tomado as rédeas” do executivo municipal. “Olhamos para o presente e para o futuro e constatamos que seguimos no bom caminho”, “no caminho de uma cidade que possa honrar os lemas de Abril”, referiu o socialista.

CDU pede que haja “respeito pela verdade histórica”

Mesmo chegando às 10h30 em ponto, Jorge Cortez não foi o primeiro a falar porque a AM havia começado um pouco antes da hora. Situação que levou o representante da CDU – Coligação Democrática Unitária a fazer um reparo, mas que rapidamente foi ultrapassada.

Já no púlpito, o comunista começou por se referir ao 25 de Abril como “o momento mais alto da História de Portugal e do século XX”. Além disso, mostrou “cara de poucos amigos” face às “frequentes ofensivas” a que se tem assistido tendo em vista “desacreditar o 25 de Abril” e à tentativa de “branquear as figuras do antigo regime” por parte de alguns.

“Em Portugal houve uma ditadura que matou e torturou portugueses”, fez questão de recordar Jorge Cortez, lembrando ainda “os milhões de analfabetos”, o desrespeito pelos “mais elementares direitos das mulheres”, “os informadores da PIDE” e o facto de o PCP ter sido “o único partido que sobreviveu à ditadura”, mantendo “a coragem e a superioridade moral”.

Por esta e por outras razões, a CDU pede agora “respeito pela verdade histórica”, reconhecendo-se o MFA – Movimento das Forças Armadas como “um herói coletivo” e os “militares” e o “movimento popular de massas”, igualmente, como heróis.

Autarcas têm o “dever” de “aperfeiçoar os instrumentos de participação cívica”

Jorge Sequeira não tem dúvidas quanto a S. João da Madeira (SJM) ser “uma cidade com fortes tradições de liberdade”. São diversos os episódios da história que confirmam isso mesmo, entre os quais as greves operárias de 1943 e o resultado eleitoral do general Humberto Delgado.

Na AM da passada quinta-feira, o líder da autarquia deixou claro que os autarcas têm o “dever” de “aperfeiçoar os instrumentos de participação cívica”, instrumentos esses que “qualificam a democracia”.

Em SJM está a ser feito esse trabalho de aperfeiçoamento. Não tivesse, por exemplo, SJM um orçamento participativo desde 2014 ou, então, uma Assembleia Municipal Jovem (AMJ) desde o ano letivo anterior. Aliás, em relação à AMJ, representada naquela cerimónia por Mariana Coelho, “desejamos que resista a este ciclo político e se torne uma prática irreversível”.

O edil sanjoanense mencionou outro passo dado pelo seu executivo, de igual modo, no sentido do reforço da democracia: o portal da transparência, que passou a estar disponível não há muito tempo.

Clara Reis foi a última a usar da palavra. A presidente da AM fez menção à “revolução pacífica” de 74, na qual as balas foram substituídas por cravos, e ainda ao “legado que passará a fazer parte da geografia da nossa cidade” – leia-se mural evocativo do 25 de Abril e chaimite que desde o último domingo podem ser apreciados na Rua do Poder Local, na zona de Fundo de Vila.

 

GN

 

No dia 25 de abril, antes da sessão solene da Assembleia Municipal, houve lugar à cerimónia do hastear das bandeiras, no largo em frente ao Fórum Municipal. Falamos de mais um momento alto do programa das comemorações dos 45 anos do 25 de Abril, que contou com a participação da Fanfarra da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira.

 

 

 

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