“Aprendi a comunicar outra vez”, disse uma das três pessoas laringectomizadas que deram o seu testemunho numa palestra no auditório da escola número dois

 

No âmbito da comemoração do Dia Mundial da Voz, o Hospital de S. Sebastião do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV) disponibilizou um conjunto de atividades de prevenção e promoção da saúde vocal aos utentes e à comunidade.

Uma delas foi a palestra sobre a prevenção de comportamentos de mau uso e abuso vocal realizada no dia 26 de abril, às 10h30 e às 12h00, no auditório da escola sede do Agrupamento de Escolas João da Silva Correia (AEJSC).

Apesar do Dia Mundial da Voz ser comemorado a 16 de abril, “para nós devia de ser todo o ano porque é preciso ter sempre cuidado com a voz”, começou por dizer Rosa Henriques, terapeuta da fala no CHEDV, deixando algumas recomendações do que faz bem e mal à voz. As pessoas devem beber cerca de 1,5 litro de água por dia à temperatura ambiente e em pequenos goles, aproximarem-se das pessoas para falar em vez de elevar a voz ou até gritar, evitar falar durante muito tempo seguido, deixar de fumar e evitar locais com fumo, usar gestos e expressões faciais em locais com muito ruído, aprender e praticar uma boa postura e alinhamento corporal, comer fruta e legumes e beber sumos naturais, reduzir a ingestão de gorduras e condimentos e de bebidas alcoólicas, com gás e cafeína, praticar exercício físico, descansar o tempo adequado, controlar os níveis de stress e relaxar, e sempre que possível ao acordar, espreguiçar, bocejar e alongar o pescoço.

Os primeiros sinais de fadiga vocal são rouquidão, secura e tensão. Quando a pessoa começa a sentir sintomas como rouquidão, perda de voz, cansaço ao falar, dificuldade em falar num tom mais alto, sensação de corpo estranho na garganta, dor enquanto fala e ardor na garganta, deve recorrer ao aconselhamento de um especialista, médico otorrinolaringologista ou terapeuta da fala, para que a sua situação seja devidamente avaliada.  Mas melhor do que dar recomendações é ver, ouvir e sentir o testemunho na primeira pessoa de quem sofreu consequências de mau uso e abuso da voz que resultaram “em problemas sérios de saúde”, indicou Ana Vieira, terapeuta da fala no CHEDV, dando a palavra às três pessoas laringectomizadas.

Uma dessas pessoas é Jorge Vieira, 55 anos, que começou a fumar aos 11 e só parou aos 51 “quando me apareceu esta doença” devido ao “excesso de tabaco e sobretudo ao facto de estar transpirado e beber água e bebidas alcoólicas muito frescas”, contou aos presentes, a quem apelou para que “evitem o tabaco e tudo o que puderem de bebidas alcoólicas” porque “só quem ficou sem voz, como eu que fiquei durantes vários meses, é que sabe a falta que ela faz”.

No caso de Carlos Pereira, 57 anos, tudo começou com a sua rouquidão. Enquanto ele a desvalorizava, a mulher valorizou este sintoma e marcou uma consulta no médico de família que o reencaminhou para o médico otorrinolaringologista do Hospital de S. Sebastião em Santa Maria da Feira que o mandou realizar exames e, posteriormente, ser operado. Depois da operação, ficou três meses sem voz e teve Terapia da Fala. “O que me meteu medo foi o nome da doença (cancro da laringe)”, mas “deixei de olhar para trás e sempre para a frente”, revelou Carlos Pereira, assumindo que para tal “aprendi a comunicar outra vez”.

“A expetoração sai pelo buraco e não pelo nariz”

Aquilo que Luís Lopes, 62 anos, quis acima de tudo transmitir é que “a voz é muito importante”. As pessoas que como estas três foram alvo de uma laringectomia – cirurgia em que é removida parte ou toda a laringe – têm “muita dificuldade em exprimir-se” porque “não é a voz que tínhamos é uma outra voz”, admitiu Luís Lopes, pedindo às pessoas para ponderarem os seus hábitos de consumo “para ver se não têm de passar por esta situação complicada”.

As pessoas laringectomizadas usam um aparelho que lhes permite voltar a ter voz.  “Se não (o usar) tenho sempre de tapar (o buraco com que ficou na garganta)”, explicou Luís Lopes, confidenciando que desde a operação “a expetoração sai pelo buraco e não pelo nariz”. Sendo esta uma de “uma série de coisas” que acontecem com estas pessoas e lhes provocam “muitas dificuldades no dia a dia”.

Desde a operação que “para mim não é igual”, “fiquei com muitas limitações”, assumiu Luís Lopes, demonstrando que enquanto “estou aqui a falar” devido ao “entupimento da prótese” ouviram-se algumas falhas e até “deixei de falar”. Uma outra limitação é a de que “por vezes estamos a falar e a expetoração sai”, assumiu Luís Lopes, concluindo que “nada é como dantes”, por isso “o melhor é prevenir”.

A palestra contou ainda com um teatro sobre a saúde vocal protagonizado por alunos do AEJSC.

 

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