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Francisco Xavier Ferreira de Sousa

Nasceu em Ovar, tem 56 anos e depois de casar com uma sanjoanense veio viver para S. João da Madeira.  “Vivo nesta bela cidade há mais anos do que alguma vez vivi em Ovar. Já sou quase daqui”, considerou este “sanjoanense” ao labor.

É licenciado em Ciências Sociais e Militares, mestre em Ciências Militares e em Estudos da Paz e da Guerra nas Novas Relações Internacionais e doutorando em Relações Internacionais, já em fase de tese, na Universidade Autónoma de Lisboa. “A tese é precisamente sobre o Norte de África que é uma área que me interessa bastante que é os desafios que emanam do Norte de África e que ameaçam, portanto, mais propriamente a Europa”, adiantou o General Francisco Sousa.

Ao longo da sua carreira militar de 38 anos esteve em Lisboa várias vezes, em Coimbra, Braga, Santa Margarida e esteve mais tempo em missões no estrageiro. Atualmente é 2º Comandante das Forças Terrestres de Portugal. Durante a entrevista que deu ao labor no sábado passado, o General Francisco Xavier Ferreira de Sousa recebeu e efetuou diversos contactos devido ao apoio que as Forças Terrestres do exército prestaram aos peregrinos que rumavam a Fátima.

O que o levou ao exército?

Entrei na Academia Militar com os meus 18 anos. Estava muito perto de poder entrar em qualquer universidade, tinha notas para isso, mas foi quase um apelo, digamos uma vocação que me chamou a essa área. Fiz quatro anos na Academia Militar. Depois ingressei no quadro permanente dos oficiais e fiz a minha carreira militar. Sempre a comandar, algumas fases em que fui oficial do Estado Maior e também algumas fases em que fui professor em áreas académicas militares.

Qual o seu percurso militar?

Ao longo do meu percurso comandei esquadrões que são à volta de 200 e tal homens, depois vários grupos que têm à volta dos 400, 500 homens, comandei a última força portuguesa em Timor-Leste nos idos anos de 2004, portanto a última força de paz da ONU, um batalhão com 505 homens na altura. Depois comandei mais batalhões, um grupo de carros de combate e uma brigada de intervenção. Atualmente estou a 2.º Comandante das Forças Terrestres de Portugal que é comandada por o senhor Tenente-General Guerra Pereira.

Qual é a função das Forças Terrestres?

É o comando que, passo a redundância, comanda todas as forças operacionais do exército que existem em território nacional e prepara as forças que são destacadas para teatros de operações como Afeganistão, Iraque, RCA (República Centro Africana), onde estamos neste momento, Mali, Somália. Portanto, são países em que estamos presentes com forças. Para além disso, tem uma componente muito especial que é de apoio à população. E nessa área temos um trabalho que é executado todos os dias. Por exemplo, hoje (sábado) estamos a patrulhar as nossas florestas porque com esta diferença de temperatura face ao que aconteceu esta semana estamos com patrulhas de prevenção nas florestas do país. Hoje temos três mais sete preparadas. A partir de amanhã temos sete patrulhas a patrulhar em todo o país. Para além disso, temos forças que estão preparadas para serem acionadas a pedido da ANPC (Autoridade Nacional da Proteção Civil) e que estão obviamente preparadas em apoio dos bombeiros e de todos os outros corpos de proteção civil. Além disto tudo, somos responsáveis pela formação das forças que têm de estar preparadas para qualquer ação nem que seja de proteção à nossa população ou às nossas comunidades que estão em outros países.

Uma das vossas ações é o apoio aos peregrinos tal como pudemos assistir aos contactos que tem feito e recebido ao longo desta entrevista…

Sim. Temos uma unidade no exército que se chama Regimento de Apoio Militar de Emergência. Este regimento tem uma função muito especial que é sempre a pedido, nomeadamente da ANPC, mas não só, mas através sempre do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, acionar meios em apoio à população. Neste caso patente, temos tendas montadas ao longo dos percursos que estão a ser percorridos pelos peregrinos e temos equipas médicas que estão em apoio. Há pouco estava a falar com um oficial médico que já reuniu médicos para destacar equipas para estes percursos. É uma missão que deve de ser primariamente de cariz civil, mas como já estão esgotados os meios disponíveis, pediram-nos e vamos acionar. Já há três dias que temos meios ao longo destes percursos para apoiar os peregrinos. Esta é uma pequena parte da nossa missão.

Quantos militares estão nas Forças Terrestres?

Esse é um número que flutua. No dia a dia estão sempre a entrar e a sair. Temos à volta de seis, sete mil militares.

Como é que é, juntamente com o Tenente-General, gerir tantas pessoas?

Temos uma estrutura hierárquica em pirâmide que nos facilita muito isso. O senhor Tenente-General Guerra Pereira dá a sua visão estratégica, compete-me a mim difundi-lo e apoiá-lo nessa ação e depois temos um conjunto de oficiais, sargentos que depois a transmitem e vão pragmatizar. O exército nasceu em Ourique em 1147. Portanto, é uma estrutura em pirâmide que existe e ainda continuamos a tê-la.

“Tenho muita admiração pela minha mulher e pela minha filha porque compreenderam toda esta minha forma de viver”

Com 38 anos de carreira militar, como é o seu dia-a-dia?

Em toda a minha vida estive três anos mais perto de casa, no Porto. Todo o resto foi em outros sítios, inclusive fora do país. Devo dizer que tenho muita admiração pela minha mulher e pela minha filha porque compreenderam toda esta minha forma de viver. Ao domingo à noite saio, regresso à sexta-feira à noite (a S. João da Madeira). Neste caso, presentemente estou em Lisboa, onde não tenho horas, eu e Tenente-General estamos sempre disponíveis. Não visto roupa civil quase, estou sempre fardado. Ao fim de semana apesar de estarmos em casa, soam os telefonemas e continuamos a trabalhar.

No tempo em que esteve fora, por onde andou?

Estive em Timor, onde comandei um batalhão em operações de apoio à paz no âmbito da ONU, estive lá seis meses, que é o tempo das missões no estrangeiro. Fui o último batalhão em Timor. Uma operação que muito me marcou e aos meus militares. Estive no Kosovo por duas vezes e por períodos curtos em apoio aos meus militares, na Lituânia também períodos curtos, Iraque e Afeganistão por duas vezes e por períodos curtos. Também passei pela Roménia.

“É importante perceber que uma missão de paz é muito diferente daquilo que fizemos na época colonial”

Disse que a missão em Timor o marcou muito. Porquê?

Timor Leste marcou-me pelo tempo em que lá estive pela forma como vi a miséria que lá existia. Coisas que são impensáveis para o comum do ocidental. Não é possível entender-se nos dias de hoje que haja pessoas que vivam por mês com 10 dólares. É menos de 10 euros. E havia lá pessoas que viviam com menos de 10 dólares. Pessoas que faziam da vida desafios permanentes. Lembro-me por exemplo da questão de a sociedade timorense ser pobre. É uma sociedade patriarcal com os seus costumes em que primeiro come o pai, depois comem os filhos se houver e depois come a mulher, raramente há. Então pode notar quem lá está ou quem lá esteve, sabe isso, que as mulheres, por exemplo, têm os lábios todos vermelhos. Quem olha fica muito mal impressionado. Isso decorre de uma coisa muito simples como elas trabalham, dão o comer ao seu marido, dão o comer aos filhos e como nem sempre tem de comer a própria mulher tem de encontrar meios para mitigar a fome. E a sua forma de o fazer era mascar uma planta que existe, que lhe matava a fome, misturada com uma pedra tipo cal que se encontra à beira do mar, portanto dava-lhe forças e tirava-lhe aquela sensação de fome. Isso ia provocar-lhe os lábios ficarem todos vermelhos daquele suco. Nós víamos muitas vezes isso e sentíamos que realmente ali estava miséria. Aliás, o chão estava todo cheio de coisas vermelhas que resulta desta prática.

E mais?

As crianças são muitas, são novinhas, é uma sociedade jovem, mas começam logo a perceber as culturas que os seus pais fazem. Depois havia ali algumas incongruências que me chocavam. Era-se capaz de dar catanadas a algumas pessoas que andavam vestidas de uma forma mais aligeirada na praia porque na cultura deles achavam que ia contra aos usos deles. O biquíni não era bem visto ou então o beijo ou uma prática mais sentimental fora de casa não era bem visto, mas viviam todos juntos num compartimento. Havia algumas incongruências que não se encontravam na razoabilidade ocidental. Outras coisas que me marcaram foi precisamente o grande carinho que os timorenses tinham pelos portugueses. Olhavam-nos de uma forma quase como irmãos, olhando com muito carinho. Mas depois temos de perceber a história de Timor para perceber se é um carinho sentido por todos ou só por alguns porque nos idos anos de 75 houve ali algumas práticas por parte de alguns timorenses, que agora alguns deles até estão no poder, que, portanto, nos levantam estas dúvidas. Em Timor foi um tempo realmente de operações que tivemos, muitas operações, mas que também foi muito enriquecedor no sentido do conhecimento e do saber.

No Afeganistão “não sabemos onde está a ameaça nem sabemos muito bem quem é a ameaça”

E o que é uma missão de paz?

É uma boa pergunta porque é importante perceber que uma missão de paz é muito diferente daquilo que fizemos na época colonial. Na missão de paz vamos lá com o consentimento das partes que estão no conflito. Aceitam-nos e aceitam que estejamos lá para algumas vezes mediar o conflito, outras vezes, dependendo dos mandatos que tenhamos, nos pormos entre as partes que já estão com uma agressividade elevada. Temos essas experiências ao longo das nossas participações no Kosovo, na Bósnia, em Timor. O Afeganistão é uma operação diferente. É uma operação que não podemos dizer que é tipicamente de paz porque combatemos. No Afeganistão ou na RCA estamos lá para combater. Apesar de estarmos sobre a bandeira da paz, muitas das vezes temos de entrar no combate para garantir que realmente não se faça pelas partes exageros. E quando digo exageros, digo mortes. Não é difícil perceber que na RCA há ali combatentes que fazem tropelias. Somos os tais capacetes azuis que nos metemos e às vezes temos que combater para os separar ou evitar que as coisas aconteçam.

O que pode dizer das missões no Afeganistão?

É algo que é bem diferente das outras porque não sabemos onde está a ameaça nem sabemos muito bem quem é a ameaça. Aquela famosa estrada da morte ou autoestrada da morte, que fiz por algumas vezes, arrepia-nos sempre passar por lá. Não é no sentido do medo, é no sentido da inexistência de um conhecimento do que é que pode acontecer. Também posso dizer que quem disser que não tem medo é maluco. Isto é importante que se perceba. O que estamos habituados é a vencer o medo, mas quando passamos por aquelas estradas não é tanto o medo que nos afeta, é o não sabermos bem quem é a criança que está a pedir e quem é a criança que está a transportar o engenho explosivo. É este desconhecimento que nos leva muitas vezes a tomarmos o todo pela parte e a parte pelo todo. E a olharmos desconfiados. Da primeira vez que lá estive, tive de ser escoltado nessa autoestrada da morte, e o homem que estava a fazer a segurança a pessoa à minha pessoa era dinamarquês, a chamada força viking, e tinha na semana anterior sido sujeito à ação de um engenho explosivo improvisado quando passava por uma estrada houve uma criança que colocou o engenho na viatura. Este desconhecimento da criança que nos estende a mão para receber o chocolate, a nossa dúvida é se é uma vítima ou se é uma arma. Ali, no Afeganistão há essa dúvida.

Missão no Iraque é “muito difícil. Não é pela perigosidade, mas pelas condições que quem lá está vive”

E no Iraque?

É uma missão muito especial. Estamos lá para treinar as forças que estão a constituir as estruturas estatais daquele país, mais propriamente as forças de segurança e da defesa. Portanto, é uma missão muito difícil. Não é pela perigosidade, mas pelas condições que quem lá está vive. Apanhei lá temperaturas na ordem dos 52º graus, com pouca água, muito deserto. Os instruendos vendo-se só uns aos outros traz muita solidão e saturação. Não é uma missão tão perigosa como o Afeganistão ou a RCA, mas é uma missão muito exigente. É normal perder-se 15 quilos lá. De uma vez que lá fui, quando olhei para uma jovem oficial, tive que desviar a cara porque ela tinha a pele toda encorrilhada, tinha perdido muitos quilos e estava muito desidratada, estava cheia de genica, mas via-se que não era a mesma que tinha ido para lá.

DR

O que viu e o que viveu no Kosovo?

No início houve ações muito violentas. Lembro-me de um caso de um batalhão numa ponte, que ainda hoje existe e é uma ponte polémica a norte do Kosovo que separa os sérvios kosovares da Sérvia. Numa ação de um batalhão nosso estivemos na ponte a bloquear os sérvios que queriam vir para o lado de cá defender os sérvios kosovares, tivemos feridos, muitos feridos, mas estivemos lá e continuamos a patrulhar. Agora saímos do Kosovo e temos lá poucos militares, dois, três militares. Mas até sairmos do Kosovo tivemos ações. Quando saímos, os países que lá ficaram, inclusive o comandante da força, reconhecia que fizemos um excelente trabalho e que éramos a excelência dentro daquele teatro. Posso provar.  Já na parte final a coisa estava mais amenizada. Duvido que esteja totalmente pacificada, mas existe um caminho aberto em que os próprios kosovares podem fazer o seu futuro e contribuímos para esse caminho.

E na Lituânia?

É uma outra coisa muito diferente de tudo isto. É um país que está numa zona da Europa onde existe o sentimento da ameaça, mais das ações russas, portanto, o que senti naquele povo é que é um povo feliz, mas ao mesmo tempo um povo cheio de medo. É um país que se viu confrontado com a Gestapo, com a Polícia Secreta da União Soviética e que sabe ou tem a perceção que a Rússia está lá dentro. Porque a maior parte daqueles militares da Lituânia combateu no exército russo e recebe as suas reformas através da Rússia. Portanto, os filhos e as famílias desses militares que estão a receber estão de certa forma dependentes desta relação. É por isso que vamos para lá no âmbito de umas medidas que chamamos “medidas de confiança”, tentar passar uma confiança aquele povo. Vi crianças felizes a brincarem no parque com os seus pais, transmitiam até uma certa serenidade, mas quando começava a falar com eles baixavam a voz porque estavam habituados a falar na surdina para que outros não ouçam. E isto era comum quando começava a falar relativamente à segurança. É um país de resistência. Vi lá um monumento, uma parede de um edifício que tinha sido uma prisão da Gestapo e da Polícia Secreta da União Soviética. Em cada pedra tinha o nome da pessoa que morreu e a data e era um edifício comprido.

E na Roménia?

É um país que está a explodir no sentido da economia, do desenvolvimento. Saiu de um regime que tinha mão de ferro. Já este ano passado estive na Roménia e passei por alguns sítios onde os fios elétricos ainda estavam todos suspensos em árvores dentro de cidades. Estive num hotel onde as canalizações ainda eram de chumbo. Ainda há aqui muito a fazer neste país, mas estão a fazer. Temos forças preparadas para lá no sentido da dissuasão. Portanto, aqueles países que fizeram parte daquela cintura da União Soviética sentem muito a necessidade de ter respostas dissuasoras. Temos militares lá, mas a força está cá. Se for preciso projetamos imediatamente a força para lá. Estamos a ensinar-lhes porque têm um caminho a percorrer.

“Em alguns teatros tivemos mortos”

Nestas missões, o exército português tem sofrido baixas?

Em alguns teatros tivemos mortos. Na Roménia ainda não tivemos, ainda bem, na Lituânia ainda não tivemos, no Kosovo tivemos algumas baixas, na Bósnia tivemos, em Timor tivemos, no Afeganistão tivemos e no Iraque ainda não tivemos e esperamos que não tenhamos. Em todos, aquele em que tivemos mais baixas terá sido em Timor, mas são baixas, algumas delas, de saúde, das doenças que resultaram de lá. Evocamos sempre os nossos mortos nas cerimónias, ainda recentemente o fizemos, porque conhecemos muitos daqueles que lá morreram. Deram a vida lá. No Kosovo também isso aconteceu. Atuamos, atuamos bem e com muita coragem, tal como agora na RCA estamos a ser destacados por sermos a única força que sai quando lhe dizem para sair. Há outros contingentes internacionais que quando recebem a ordem não saem dos seus quartéis. Por exemplo, ainda esta semana dois militares nossos contraíram malária e foram transferidos e tratados. Temos vários casos desses. No meu Batalhão em Timor tivemos dois casos de dengue hemorrágico, mas foram tratados imediatamente. São pessoas a quem o exército imediatamente faz tudo para que estejam de saúde e dá todo o apoio à família porque continua a ser a nossa família.

Porque é que o exército esteve e está em determinados países?

A resposta é muito simples porque é lá que está realmente quem precisa de nós e é de lá que vêm as ameaças para nós. Estamos a fazer a segurança do nosso povo, da nossa cultura e da nossa forma de viver ao promover lá a paz, estabilidade e segurança.

Como foi inaugurar a chaimite cedida pelo exército naquela que considera ser a sua terra natal?

É importante perceber e reafirmar que só existe exército se existirem cidadãos. Somos constituídos pelos cidadãos e vivemos para os cidadãos. Portanto, o exército também é uma manifestação de cidadania. A sua vocação é voltada para os outros. Portanto, fez todo o sentido a iniciativa que o Município teve ao colocar ali algo que faz relembrar o papel fundamental que o exército teve naquela manhã de 25 de abril de 74. Estive em representação do General-Chefe, foi ele que me nomeou para vir cá. Eu ao estar aqui, até porque é a minha terra, na minha terra a representar o meu exército deu-me um gosto especial porque estamos com as nossas gentes. Quando estivemos cá a inaugurar a chaimite, que é uma iniciativa de louvar da autarquia, o que quisemos dizer é que estamos cá, podem contar connosco quando houver incêndios, catástrofes, quando houver sobretudo a necessidade de apoio. Como vê, hoje estamos a apoiar peregrinos, a patrulhar florestas e em muitas situações que passam despercebidas ao cidadão comum e ainda bem. Eu digo sempre isto. Ainda bem que as pessoas nos olham assim com a ideia que não estamos a fazer nada porque é sinal de que estamos a fazer tão bem o nosso trabalho que elas nem sentem nada.

“Tenho muita consideração pelos meus militares, sejam eles homens, sejam eles mulheres”

O exército foi durante muito tempo uma entidade fechada. Continua a sê-lo?

Até um certo momento o exército foi uma entidade fechada. Portanto, havia uma vida dentro dos muros e uma vida fora dos muros. Hoje em dia já não é assim. Nos últimos 20 anos, o exército abriu-se e ainda bem. Há uns 20 anos atrás não estaria aqui a dar uma entrevista à menina. Mesmo que eu quisesse falar havia dificuldades. Hoje não. Há trabalhos que temos de fazer e que não têm de ser públicos até para próprio bem da estabilidade. Mas há outros que não. Temos de mostrar. Já levei os jornalistas para um exercício. Demos-lhe a conhecer a nossa linguagem. Além disso, temos ido às universidades falarmos sobre o nosso papel em várias ações. Ganharmos experiência do conhecimento um dos outros e sobretudo ouvirmos de parte a parte. Outra classe que temos de trazer para dentro são os estudantes de relações internacionais e que mais tarde são diplomatas.

A entrada da mulher no exército esteve relacionada com esta abertura da instituição?

Havia uma tentativa de mostrar uma modernização da instituição e que em boa verdade a instituição tinha de se abrir. Devo dizer que no início havia um certo marialvismo nas relações de trabalho com as mulheres. Também lhe devo dizer com toda a abertura que houve práticas, tradições nossas que mudaram pela entrada da mulher. Mudaram e ainda bem que mudaram. Passados esses tempos em que a mulher se afirmou no exército fazendo as coisas ao nosso lado, de uma forma aberta deixamos para trás o marialvismo e de que a coisa militar é só restringida ao homem e hoje em dia trabalham ao nosso lado. Nunca na minha vida olho para a mulher que está a trabalhar comigo como alguém que está a fazer as coisas mais baixo. A palavra mulher não está ali. Claro que há algumas coisas como não conseguir levantar os 60 quilos de munições, mas também há homens que não conseguem, então juntos conseguem. Hoje em dia as nossas mulheres militares não são olhadas como mulheres quando estão em operações, mas como militares, que quando têm de ser estão de arma na mão estão de arma na mão ou com o cantil de água, nas florestas e a prestar apoio aos peregrinos. Tenho muita consideração pelos meus militares, sejam eles homens, sejam eles mulheres.

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