“É aqui que eu vivo e é aqui que eu sinto”, disse Flores Santos Leite, o comissário das comemorações, acerca da terra que o viu nascer e crescer

 

O 35.º aniversário da Elevação de S. João da Madeira a Cidade foi assinalado com a tradicional sessão solene que teve um comissário pelo segundo ano consecutivo. Depois de Manuel Pereira da Costa ter sido o primeiro a ocupar este lugar, Flores Santos Leite aceitou ser o segundo comissário das comemorações de elevação concelhia da sua terra.

Flores Santos Leite foi “nado e criado” em meados de junho de 1926 em S. João da Madeira e é “sanjoanense de alma e coração”, descrevendo-se assim a si próprio num vídeo apresentado à plateia que esteve presente na sessão solene, realizada na noite de 16 de maio, na Casa da Criatividade. “Além dos sanjoanenses natos, quero englobar no espírito sanjoanense aqueles que recorreram à nossa terra para vencer na vida. Os chamados sanjoaninos”, acrescentou o comissário das comemorações que assumiu ser “um caloiro” no que toca a ser comissário e que acabou por ser “uma honra que me atribuíram ou pela idade ou por algum trabalho que procurei fazer com mais ou menos utilidade. Portanto, o comissário será mais uma figura ornamental do que propriamente de ação efetiva”. A propósito deste convite feito pelo presidente da câmara Jorge Sequeira, em nome do executivo, Flores Santos Leite até chegou a ser interpelado por uma senhora que achava que ele seria o novo comissário da PSP, revelou o próprio que acabou por ter de explicar que existem vários comissários como de bordo e da polícia, mas neste caso ele seria comissário das comemorações de um acontecimento histórico importante para S. João da Madeira. Nesse vídeo, Flores Santos Leite falou ainda da poesia, dos pacientes, da Praça, da família e dos amigos, indo todos estes assuntos ao encontro do seu discurso ao longo da sessão solene.

O médico que também é um poeta, mas considera-se apenas e só um candidato a poeta, lançou o seu primeiro livro de poesia com o nome “Penas da minha pena” no início deste ano. Já desde o tempo de Coimbra que Flores Santos Leite “brincava” com os poemas e os poetas “no sentido de me aproximar deles” e “aprender alguma coisa com eles”, contou o próprio, revelando que para si a poesia não é só inspiração, também tem de ser cerebral. E mais do que dizer, Flores Santos Leite sente e traduz isso mesmo através dos seus poemas. “Hoje, na minha poesia, junto muito o elemento filosófico, teológico e o científico”, disse. Um médico que é poeta não é algo a estranhar porque “Portugal é um país de poetas e S. João da Madeira é uma terra de poetas”, salientou Flores Santos Leite, alertando que “ainda temos poetas desconhecidos aqui que é preciso referenciá-los. Eu tenho-os aqui todos (na sua biblioteca)”. Para o comissário das comemorações dos 35 anos de elevação a cidade, “S. João da Madeira está acima de tudo. Aqui nasceram os meus avós, os meus pais, agora a minha bisneta. Portanto, é aqui que eu vivo e é aqui que eu sinto”.

“Não há tempo para ver o doente como deve de ser”

Mas nem só de floreados foi o discurso de Flores Santos Leite de 92 anos, quase a completar 93, que exerce medicina há 70 em S. João da Madeira, traçando uma ideia dos tempos em que ia ver os doentes a casa até ao tempo de agora em que eles o vão ver ao consultório. “Andei em cima de uma burra, com botas a atravessar rios e conheci serras, montes e vales. Com uma candeia à frente a iluminar. Ainda hoje tenho doentes desse tempo. Eles queriam ter na verdade uma assistência mais continuada, querem ser ouvidos e hoje a medicina não se compadece com isso. Não há tempo para ver o doente como deve ser. É assim que está o sistema”, considerou o médico que dispõe de “todo o tempo” para se “confessar aos doentes e eles confessarem-se” a si.  Depois de mencionar o panorama atual em que os grandes espaços estão a dominar os pequenos espaços, como os consultórios médicos, e a própria saúde, causando uma fricção entre o sistema e os governantes em que o privado está a suplantar o público, Flores Santos Leite deixou no ar uma questão: “até quando vai ser assim?”.

“A gente não vai inventar nada. Vamos descobrir aquilo que está encoberto”

Mas nem só de pacientes é feito o quotidiano de Flores Santos Leite que mencionou a sua família, os seus amigos e até a Praça. “Vivemos como se fossemos um clã sanjoanense que já não se usa muito” e é “uma alegria e uma festa constante esta vivença com a família sobretudo depois de uma proveta idade em que conheci o meu bisavô e hoje tenho uma bisneta”, mencionou o médico. E é sobretudo em casa que Flores Santos Leite trata da sua mente, na sua biblioteca, e do seu corpo, na sua horta. Além disso, o médico realiza uma caminhada entre cinco a seis quilómetros por dia e reúne semanalmente com os seus amigos. Flores Santos Leite confessou ainda que “gostava de morrer com qualidade de morte. Quero ter uma vida recheada até ao fim”. O comissário voltaria a um discurso mais crítico, desta vez direcionado à humanidade em geral. Todo o ser humano “nasce com direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade. Três direitos naturais. Não há nenhum maldito governo, país, nação ou império que se possa opor a isto. No entanto, estamo-nos a agredir constantemente”, lamentou Flores Santos Leite, fundamentando os seus argumentos com factos como “direito à vida não há respeito nenhum, direito à liberdade cada vez estamos mais presos e direito à felicidade toda a gente não quer que a gente seja feliz. Está provado até cientificamente. Há mais infelicidade no mundo do que felicidade. Há mais coisas escuras do que às claras. Há mais para saber do que aquilo que se sabe. A gente não vai inventar nada. Vamos descobrir aquilo que está encoberto”.

“As coisas estão em permanente mudança. Não há nenhuma essência eterna”

Em relação à Praça, o comissário disse o seguinte: “as coisas estão em permanente mudança. Não há nenhuma essência eterna”. Um pensamento que pode ir para lá do que quer dizer em relação a esta Praça. “S. João da Madeira nas últimas décadas assistiu a um progresso fantástico. Vi a Praça a mudar tantas vezes e a gente muda com ela também. Aqui é um entreposto por onde passa todo mundo sem a gente dar conta disto. A Praça é uma espécie de espelho que reflete as pessoas, mas não parece”, constatou Flores Santos Leite que terminou o discurso sobre si, a sua carreira e o seu papel na sociedade com “a satisfação do dever cumprido” e, como não podia deixar de ser, com a leitura de um poema de sua autoria e sobre a sua terra: “Era uma vez um povo, mas um povo de senhores”.

“A história de Flores Santos Leite totaliza e até suplanta toda a nossa história”

“Um dos deveres básicos de uma sociedade organizada de forma decente é homenagear os seus melhores” para que sejam um “legado às gerações futuras” como “fonte sobretudo de esperança, alma, poesia, vida e de procura por mais conhecimento”, começou por dizer o presidente da câmara Jorge Sequeira, dando Flores Santos Leite como “um exemplo positivo para os mais jovens e para os sanjoanenses”.

“A sua mensagem, história, narrativa, percurso de vida como médico, humanista, altruísta, desportista é algo absolutamente singular”, destacou Jorge Sequeira, evidenciando um outro facto que torna Flores Santos Leite ainda mais peculiar. “Nasceu em junho de 1926, uns meses depois nesse mesmo ano, 11 de outubro de 1926, nasceu o município de S. João da Madeira. Por isso, a história de Flores Santos Leite totaliza e até suplanta toda a nossa história”, indicou o presidente da câmara sanjoanense, desafiando o comissário a lançar o segundo livro em 2020.

João da Madeira é “hoje aquilo que é porque foi um conjunto de homens e de mulheres com estas características, com esta humildade, com esta força, com esta persistência, com este apego aos bons valores que fez a nossa história e que nos trouxe até aqui” ao celebrar a elevação de uma vila a cidade, afirmou Jorge Sequeira, esclarecendo que tal aconteceu “por força, por influência e por vontade de um sanjoanense aqui presente, deputado na Assembleia da República na altura, o Dr. Carlos Ribas”.

O presidente da câmara relembrou que esta conquista e a de independência administrativa e territorial se devem a uma característica intrínseca ao “ADN de S. João da Madeira”. O concelho que é territorialmente o mais pequeno de Portugal começou por pertencer às Terras de Santa Maria da Feira e depois a Oliveira de Azeméis. “Em 1926 o poder político de então viu que era a vila mais industrializada do distrito de Aveiro e que a nossa capacidade de crescimento e desenvolvimento não tinha como expandir se continuássemos no agrupamento administrativo de Oliveira de Azeméis. Era, portanto, necessário libertar toda a energia empreendedora e inovadora de S. João da Madeira, conferindo autonomia política e municipal” que “deu bons frutos e bons resultados”, relembrou Jorge Sequeira, mencionando uma ideia dada a conhecer em outras ocasiões, que passa por “estudar todo este processo e registá-lo para memória futura”.

O presidente da câmara mencionou os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística sobre S. João da Madeira, que remontam a 2017, em que “teve uma taxa de crescimento anual superior à do país. Exportou cerca de 703 milhões de euros e importou cerca de 514 milhões de euros”. Jorge Sequeira destacou ainda os indicadores relativos à educação, à cultura, ao desporto, à mobilidade e ao ambiente.

A intervenção do presidente da câmara terminou com a mensagem de continuar este “trabalho com diálogo, com todos, todas as forças políticas, sem arrogância, sem sobranceria e com humildade, persistência e confiança” porque estes são “os valores que nos guiam” e “foi assim que S. João da Madeira chegou ao ponto onde se encontra e é assim que queremos continuar a trabalhar em prol de todos”.

A sessão solene dos 35 anos de elevação de S. João da Madeira a cidade contou com atuações de elementos da Academia de Música e da Banda de Música e com declamação de poesia da Associação de Promoção da Juventude.

 

Patrice Almeida
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