Sete eram de S. João da Madeira

A Hospitalização Domiciliária foi o primeiro tema das Jornadas de Pneumologia do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga (CHEDV), realizadas a 30 e 31 de maio, na Torre da Oliva.

Esta valência “vivia numa nuvem cinzenta legislativa, mas desde 3 de outubro do ano passado deixou de ser dessa maneira com a criação da estratégia nacional da hospitalização domiciliária”, começou por dizer Pedro Tadeu, médico de Medicina Interna e responsável por esta unidade no CHEDV.

Depois de o Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e Espinho e o Hospital Garcia de Orta EPE, o S. Sebastião foi o terceiro hospital a nível nacional a iniciar, a 2 de novembro de 2018, a Unidade de Hospitalização Domiciliária que começou a cobrir o Município de S. João da Madeira desde o início deste ano.

A Hospitalização Domiciliária é “uma atividade hospitalar enquadrada pelo decreto de lei 9323-A/2018 e pela Norma de Orientação Clínica da DGS 020/2018” que permite que “doentes com critérios de internamento hospitalar fiquem em suas casas, sendo que o seguimento da sua doença é assegurado por uma equipa de médicos e enfermeiros que se deslocam aos seus domicílios, sendo que a terapêutica, exames auxiliares de diagnóstico e avaliação por diferentes especialidades médicas são em tudo sobreponíveis ao internamento convencional”, explicou Pedro Tadeu, à margem das jornadas, ao labor.

A equipa da Unidade de Hospitalização Domiciliária do CHEDV é constituída por dois médicos a tempo parcial e cinco enfermeiros a tempo inteiro, tem como capacidade de resposta cinco camas e está disponível 24 sob 24 horas ao longo de todo o ano.

De acordo com os dados dos primeiros seis meses de funcionamento desta unidade do CHEDV, 142 utentes foram avaliados, 91 utentes admitidos, com uma idade média de 66,52 anos, o mais novo com 21 e o mais velho com 94 anos, e o principal motivo de admissão foram infeções respiratórias. Dos 91 utentes admitidos, 40 do sexo feminino e 51 do sexo masculino, a 87 foram dadas altas, houve nove reinternamentos até 30 dias após a alta (três por motivos não relacionados com o internamento índex, seis relacionados) e seis óbitos até 30 dias após a alta (nenhum não expectável). O tempo médio de cada visita foi de 32,6 minutos junto do doente, excluindo tempo de deslocação até ao domicílio, com o mínimo de 22 minutos e o máximo de 70 minutos.

Dos 91 utentes admitidos no primeiro meio ano de funcionamento da Hospitalização Domiciliária, “sete eram de S. João da Madeira”, informou o médico ao labor.

O balanço destes seis primeiros meses de atividade é “francamente positivo. Os utentes apresentam uma taxa de satisfação de 3,91 em quatro possíveis” no questionário de satisfação sobre esta unidade, o que corresponde a “97,75% de satisfação global”, revelou Pedro Tadeu, considerando que através destes resultados “os profissionais de saúde sentem que o impacto da sua atividade é muito mais profundo e muito mais promotor de genuína saúde – bem-estar biológico, psicológico e social”.

“É um projeto que embora seja pioneiro em Portugal tem muita história em outros países (Espanha, Austrália e Israel)”

Este “é um projeto que embora seja pioneiro em Portugal tem muita história em outros países. Em Espanha é uma atividade perfeitamente instituída há décadas, assim como em Israel e na Austrália”, deu a conhecer o médico durante a sua intervenção na conferência, explicando mais tarde, a pedido do labor, qual a noção da Hospitalização Domiciliária nos três países anteriormente mencionados.

Em Espanha a Hospitalização Domiciliária funciona de forma muito díspar da portuguesa – existem vários modelos de unidades dependendo da região autónoma, existindo até duas regiões que não têm esta modalidade de internamento. Existem unidades vocacionadas para o tratamento de patologia crónica (doentes com pé diabético, cuidados de feridas crónicas, cuidados de penso pós-cirurgia), unidades pediátricas, havendo, claro, unidades mais sobreponíveis às portuguesas, onde predominantemente se tratam doentes agudos em idade adulta”, elucidou Pedro Tadeu.

Já “a Austrália será porventura o país mais inovador onde a Hospitalização Domiciliária se estende a áreas mais sensíveis da medicina, nomeadamente à Oncologia, havendo já o plano de realizar transplantes medulares no domicílio dos doentes. O tipo de patologia abordada é predominantemente a patologia aguda (assim como em Portugal), havendo muita produção científica e inovação nesta área”, esclareceu o médico. E por último, “em Israel, a experiência é muito sobreponível à portuguesa, mas em maior dimensão e com muitos mais anos de experiência. Foram os criadores do primeiro Congresso Mundial de Hospitalização Domiciliária World Hospital at Home Congress, Madrid 2019 – a totalidade das mesas encontram-se disponíveis online, para uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema”, clarificou Pedro Tadeu ao labor.

“Não vamos resolver o défice de camas dos hospitais públicos, mas conseguimos potenciar as camas disponíveis para outro tipo de atividades”

“A Hospitalização Domiciliária não é uma alta” foi uma das frases proferidas pelo médico durante a conferência. A intenção da mesma é “exatamente reforçar a noção que os nossos doentes, embora estejam em casa, não tiveram alta hospitalar. Aliás, o seu processo de internamento continua ativo a nível informático, sendo que têm os mesmos direitos e deveres do doente internado em internamento convencional”, esclareceu Pedro Tadeu ao labor.

“Não vamos resolver o défice de camas dos hospitais públicos, mas conseguimos potenciar as camas disponíveis para outro tipo de atividades” foi uma das outras frases de Pedro Tadeu acerca da Hospitalização Domiciliária. “Não estamos aqui como uma ´solução milagrosa´ para este défice. No entanto, qualquer doente agudo que consigamos tratar em casa pode agilizar o tratamento de um doente que tem que ser obrigatoriamente realizado em ambiente hospitalar convencional – somos um potenciador da gestão adequada de recursos por esse mesmo motivo”, considerou o médico ao labor.

“Creio que é uma missão fundamental conseguirmos ter uma transversalidade de cuidados”

Para Pedro Tadeu “as considerações finais não são para falar sobre o que já foi dito, mas para falar sobre o que tem de ser feito”. E foi o que fez. “O nosso projeto é extremamente embrionário, somos uma equipa extremamente pequena, mas somos uma equipa extremamente ambiciosa”, afirmou o médico aos presentes na conferência, continuando: “sem dúvida nenhuma que temos a noção de todas as falências que temos, nomeadamente com a colaboração dos cuidados de saúde primários e com a colaboração que pretendemos com as outras especialidades médicas, nomeadamente a pneumologia, a cardiologia e a neurologia que são as especialidades médicas mais presentes no nosso centro hospitalar”. Desde que a Hospitalização Domiciliária começou no CHEDV que têm “sido feitos contactos, mais informais do que formais, nós conhecemo-nos todos do hospital, e existe muita curiosidade dos colegas do centro hospitalar para que isto possa ser extensível aos seus serviços”, adiantou Pedro Tadeu. Daqui em diante, “creio que é uma missão fundamental conseguirmos ter uma transversalidade de cuidados”, concluiu o médico na sua intervenção sobre a Hospitalização Domiciliária.

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