“No meu tempo era tão diferente”

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Estou na esplanada do costume em S. João da Madeira, mas poderia ser numa qualquer outra cidade ou vila.

Na mesa ao lado, o senhor António, homem de idade mais que respeitável, está a tomar o galão (café com leite) do costume e a ler o jornal.

Na cabeça tem o chapéu de que não dispensa e que usa para cumprimentar as pessoas. Olha para um grupo de jovens que estão ao seu lado direito um pouco afastados da esplanada. Todos agarrados ao telemóvel e alguns com auscultadores a ouvirem música (nota-se pelo abanar da cabeça). Pouco, muito pouco falam entre si e mal levantam os olhos, quase que consigo ouvir o senhor António: “No meu tempo era tão diferente”.

Deu-me vontade de perguntar-lhe sobre o que acha que vai acontecer à antiga mercearia da esquina onde ainda se encontram produtos caseiros ou à loja que vende parafusos, pregos e pequenos utensílios de utilidade doméstica. Será que os estendais vão desaparecer, porque é mais fácil usar as lavandarias automáticas?

As redes sociais já substituiram a janela onde aquela vizinha mais curiosa se empoleirava para saber da vida dos outros. As crianças que corriam na rua atrás de uma bola nas noites quentes de verão preferem estar em casa agarrados a um qualquer ecrã e os senhores aposentados vão deixar de se juntar numa qualquer praça para jogar a sueca. Os vizinhos só se vão “ver” e trocar palavras nas reuniões de condomínio ou se ficarem presos no elevador.

Já começo a pensar como (julgo que) o senhor António pensava. Parece-me que não faltará muito tempo para olhar para a cidade, qualquer uma, e dizer que “no meu tempo era tão diferente”. Espero não o fazer com um saudosismo penoso. Outros hábitos e rotinas irão surgir e outras memórias haverá para mais tarde recordar.

O senhor António levantou-se, passou por mim e despediu-se fazendo o gesto habitual com o chapéu.

Certo é que, hoje em dia, o gesto mais parecido acontece quando as pessoas tiram os auscultadores dos ouvidos para se cumprimentarem. E dou por mim a pensar: “No tempo do senhor António era tão diferente”.

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