Palavras, futilidades, articulações de sons,

Proferidas à porfia na sombra de altas palmeiras,

Que no deserto se erguem, nos mais variados tons,

Procurando os seus alvos, quais as últimas, quais as primeiras

Se elas se perdem nos ventos com eles vagueiam só,

Em monólogos entre si, inalando ar e fumo,

Em corridas à disputa não são mais que denso pó,

Entrevendo-se ao acaso, sem saber qual o seu rumo.

Palavras, letras coladas, atabalhoada união,

Sem destinos, o mistério, como flechas lançadas,

Em conjunto ou separadas, em suave turbilhão,

À procura de algos às vezes, que não será mais do que nadas.

Vocábulos de uma gramática, semiótico sistema,

Qualquer bebida alcoólica no consenso popular,

Dizem arte sobre as letras, fonema sobre fonema,

Não mais que meras pedradas, que se perdem pelo ar.

Chamemos-lhes expressão, opinião ou parecer,

Ensinamento, doutrina, afirmação, um recado,

Exortação ou discurso, uma forma de dizer,

Mas também da sua falta, de tudo ser perdoado.

Palavras dizem que o vento as levará sem destino,

Apenas serão parábolas, segundo os mestres gregos,

Ou mesmo a comparação, o conceito peregrino,

Que se honra ou atraiçoa em salões ou fundos pegos.

Ouvem-se vindas do nada, de ninguém ou de alguém,

Perseguem-nos sem as querermos, corremos no seu encalço,

Fugindo ou procurando-as, essas por perto ou além,

Trazem penas em suas asas, na poesia soam a falso.

Foto de Arquivo Labor

Flores Santos Leite

 

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