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Joana Galhano

Tem 38 anos, é natural de Águeda e é diretora do Museu da Chapelaria e do Museu do Calçado desde janeiro deste ano.

Joana Galhano é licenciada em História pela Universidade de Coimbra e depois de um estágio durante um ano na Caranguejeira em Leiria encontrou a oportunidade de integrar um projeto de investigação especificamente relacionado com a Empresa Industrial de Chapelaria e a indústria chapeleira em S. João da Madeira.

A partir de 2005 integrou a equipa daquele que viria a ser na época o Museu da Chapelaria. Além da equipa de investigação, integrou a equipa de Serviço Educativo. Após 14 anos a trabalhar em S. João da Madeira, oito dos quais a morar cá, Joana Galhano é oficialmente uma sanjoanina, alguém que veio de fora para “vingar” na vida.

Enquanto investigadora que trabalhos tem desenvolvido ao serviço do Município?

O grande cerne da investigação que fui desenvolvendo ao longo destes anos centra-se especificamente no caso da indústria chapeleira, no caso particular da Empresa Industrial de Chapelaria, mas obviamente que também se foi estendendo para áreas complementares e que estão interligadas, como é o caso da indústria de S. João da Madeira, da história da cidade, inclusivamente para o desenvolvimento das exposições que o museu já desenvolveu até dos 90 anos da Elevação Concelhia, no caso da Oliva e depois obviamente também para o próprio Museu do Calçado.

Quando foi nomeada para diretora dos museus da Chapelaria e do Calçado?

A Dr.ª Suzana saiu em dezembro e em meados de janeiro fui nomeada para a direção do Museu da Chapelaria e do Museu do Calçado.

“O cargo foi recebido com naturalidade, considerando a minha ligação à terra e ao museu”

A nomeação surpreendeu-a ou recebeu-a com naturalidade?

A saída da Dr.ª Suzana da direção dos museus e da Divisão de Cultura do Município foi recebida com surpresa por todos, mas também com grande agrado porque é não só um grande passo para a sua carreira, como também uma grande honra para S. João da Madeira por ter alguém da terra como Diretora Regional de Cultura do Centro. E não deixa de ser um justo reconhecimento por todo um grande trabalho que foi desenvolvido na cultura em S. João da Madeira. No meu caso, o assumir o cargo de certa forma, sim, foi recebido com naturalidade, considerando a minha ligação à terra e ao museu. De facto, apesar de ter começado por integrar a equipa de Serviço Educativo, acabei por reunir outras várias responsabilidades dentro do museu como é o caso da gestão do Centro de Documentação, a preparação da investigação, da montagem das exposições temporárias. Ao longo deste tempo todo houve um processo de preparação não com o objetivo de, mas secundariamente um processo de preparação que acaba por desembocar nesta nomeação. Por isso, obviamente fiquei muito agradada com a nomeação, com o reconhecimento e o apoio do Município. Acho que acima de tudo também é uma continuação de uma política que a própria cultura tem vindo a desenvolver em S. João da Madeira e que estará num bom caminho.

Esta nomeação em que é que alterou o seu dia a dia?

Em termos de funções tem de haver uma maior responsabilidade no próprio dia a dia dos museus. O foco tem que ser muito mais procurar uma visão de futuro para os museus e uma linha de caminho que os museus vão querer ou vão ter que seguir e procurar ajustar todo o trabalho e toda a dinâmica que os museus têm dentro dessa linha de continuidade. Simultaneamente, manter os padrões de alto rigor, de alta qualidade, de disciplina de trabalho que sempre regeram o trabalho desta equipa e levar os museus neste bom caminho. Levar a que os museus continuem não só, mas que tenham ainda mais visibilidade e importância. Muito para além da visibilidade, tanto o Museu da Chapelaria como o Museu do Calçado são dois museus estruturantes no panorama museológico. O Museu da Chapelaria – o único na Península Ibérica – e o Museu do Calçado – com este tema é o único no país – têm uma dinâmica muito forte e são reconhecidos no panorama museológico, cultural, nacional e, de certa forma, também internacional. Isso deve-se muito à linha e à qualidade do trabalho que temos vindo a desenvolver e é precisamente essa a nossa preocupação: continuar a fazer com que os museus sejam reconhecidos nesse sentido.

Qual o objetivo dos museus?

O objetivo dos museus é que possam ser um elemento dinamizador da cidade, que possam ser um elemento de divulgação e de preservação da herança e do património cultural de S. João da Madeira. Obviamente que os museus agregam um outro potencial que é o de atrair e desenvolver a própria indústria, os próprios turistas e promover o desenvolvimento da cidade. Para além disto, obviamente que há grandes necessidades que os museus têm. Uma é do crescimento, outra é de se reafirmarem no panorama museológico desenvolvendo projetos, parcerias, inclusivamente abrindo as suas portas ao mundo internacional, quando digo mundo internacional estou a falar do conhecimento, no caso específico dos designers que temos vindo a trabalhar, em que  os museus não só estão a mostrar o que está a acontecer em S. João da Madeira para o mundo, mas também precisamente o contrário trazer o que se passa no mundo para S. João da Madeira, e através destas sinergias criar novos conhecimentos. Isto é feito através da criação de novas exposições, das masterclasses, do Serviço Educativo, das conferências, dos seminários, e obviamente também através dos próprios projetos paralelos a que os museus estão associados como é o caso do Hat Weekend (Festival do Chapéu). Agora obviamente que há aqui necessidades pontuais que têm que ir sendo cumpridas e há projetos de longo prazo que vão ter que ser desenvolvidos ou que se gostaria de vir a desenvolver. Mas nesse caso específico vamos tendo de gerir as necessidades de acordo com as possibilidades do contexto presente da política e do próprio trabalho dos museus.

“Os museus trabalham exclusivamente para os seus públicos e aqui não podemos estar a excluir qualquer tipo de público”

Como é que é a interação dos visitantes convosco?

Vamos dizer que temos um bocadinho de tudo. O leque é muito extenso. Os museus trabalham exclusivamente para os seus públicos, são os seus grandes clientes, e aqui não podemos estar a excluir qualquer tipo de público. A cultura tem de ser de todos e para todos. E também tem de ser trabalhada de acordo com as necessidades de cada um. Obviamente que em contexto escolar ou em contexto educativo temos aqui um conjunto de informações que são passadas às quais a maior parte das pessoas não tem qualquer tipo de conhecimento, seja sobre a própria história de S. João da Madeira, seja sobre o facto de ser a única terra nacional onde se continuam a produzir chapéus, seja pelo facto de ter feltro de alta qualidade porque é isso que identifica também a nossa indústria, ser feito por pelo de fibras animais e por esta ser uma indústria com uma grande preocupação ambiental ao não ter o intuito de exploração animal para a promoção de um produto. Estamos a falar aqui de alguma forma de economia circular. Aqui temos uma primeira fase que é a introdução do que é o museu, do que é S. João da Madeira, do que é a indústria chapeleira, a indústria do calçado. Depois temos o público especializado, estamos a falar de empresários de chapelaria ou de calçado que vêm a S. João da Madeira porque sabem que tem estes dois grandes núcleos, querem vir conhecer o próprio potencial e aqui estamos a falar mesmo a nível comercial, conhecer as indústrias que existem e que a partir daí possam desenvolver contactos comerciais, estamos a falar de público universitário que vem e quer “beber” do conhecimento das masterclasses dos designers internacionais que se calhar será a primeira e única vez que vêm a S. João da Madeira, mas esperemos que não. Todos estes contactos permitem um trabalho de continuidade que não se esgota com as exposições e o regresso dos públicos aos museus.

O contacto com os designers e os artistas é fácil?

Temos designers que já conhecem S. João da Madeira que inclusivamente já trabalharam com empresas de S. João da Madeira ou que são clientes das empresas de S. João da Madeira. Nesse caso o contacto é muito mais facilitado. Depois temos designers ou artistas que não conhecem e que quando chegam a esta “pequenina terra”, como muitas vezes eles dizem, ficam absolutamente surpreendidos com todo o potencial. Primeiro, pelo facto de ser uma terra tão pequena, mas ao mesmo tempo ser tão grande seja pela importância, seja pela própria dinâmica cultural que aqui existe e turística com os circuitos pelo património que também são muito importantes. E depois pelo facto deles próprios perceberem que têm possibilidade de manter uma continuidade não só de trabalho com os museus, mas com as próprias empresas.  Obviamente que isto depois abre portas a todos os níveis. Se há casos em que se nesta primeira fase foi o museu que contactou, que quis fazer a exposição, que quis trazer este conhecimento para aqui, para o contexto nacional, casos há em que são os próprios designers que nos contactam e é ótimo porque significa que resulta.

 “A ideia é continuar com mais (murais) até porque a recetividade da comunidade tem sido fantástica”

O que pode adiantar da 3.ª edição do Festival do Chapéu que regressa em julho à cidade?

O Hat Weekend é um festival absolutamente único. Único na sua temática, único nas propostas que apresenta e único na visão de trabalho que tem. Estamos a falar de um festival muito novo, depois da edição do ano passado por ter tido uma grande adesão e ter sido um grande sucesso. Foram mais de 50 espetáculos, estamos a falar de mais 300 artistas e este ano obviamente não queremos ficar abaixo do que foi a última edição. O festival vai decorrer a 19, 20 e 21 de julho, mas já tivemos a partir de abril momentos que serviram não só de “teaser” para o próprio festival, mas momentos que são parte integrante do próprio projeto.

Os “Murais com História”. Estão previstos mais dois…

Em contexto de festival sim, mas a ideia é continuar com mais até porque a recetividade da comunidade tem sido fantástica. O total de murais do projeto são cinco. Começámos com a Mariana, A Miserável na primeira edição e continuámos com o Andrés Lozano e o André da Loba nesta segunda edição e estão previstos mais dois. Já estamos a desenvolver a próxima instalação que vai ser inaugurada este mês e a próxima no primeiro dia do festival (ver página 13).

“Queremos que o projeto cresça não só em quantidade de chapéus, de artistas, mas também do próprio modelo”

E os “Chapéus Gigantes” …

Temos o conceito dos “Chapéus com Memória” que foram trabalhados exclusivamente por artistas com ligação a S. João da Madeira. Este projeto dos chapéus é me particularmente querido não só pela temática de trabalho, mas pela dinâmica que ele próprio pode vir a desenvolver e pode vir a ter dentro do festival. É um projeto que não se vai esgotar nesta edição. Aliás, nenhum deles. Queremos dar continuidade ao circuito e aos chapéus. Mas no caso dos “Chapéus com Memória” começámos com os artistas sanjoanenses e queremos vir a abranger não só mais modelos, porque aqui só pegamos na cartola que acabou por ser a “rainha” dos chapéus, que está associada à revolução industrial e o seu formato é muitas vezes associado às próprias chaminés. Temos aqui uma ligação com a indústria sanjoanense, com as chaminés que ainda se veem no horizonte de S. João da Madeira. Mas depois também toda uma visão destes artistas que não foi condicionada, foi-lhes dado um tema, explicado o conceito do projeto e a partir daí eles desenvolveram a sua obra, a sua peça, utilizando os conhecimentos e aquela que é a sua visão. E saíram daqui oito peças, na minha modesta opinião, que são absolutamente fantásticas, belíssimas que atingem todos os públicos desde aquelas que poderão ser mais óbvias às mais intrincadas, mas que com um pouco de observação e contemplação poderão extrair do chapéu informação e criar um significado e um conhecimento para o chapéu que poderá não ser o do artista. Entretanto, queremos que o projeto cresça não só em quantidade de chapéus, de artistas, mas também do próprio modelo. Este projeto pode sair de S. João da Madeira e gostaria de vê-lo a percorrer o país e não só. As nossas ambições são sempre muito grandes.

Estes chapéus já mudaram de localização. A ideia é que continuem a circular pela cidade?

O conceito é que os chapéus se tornem habitantes de S. João da Madeira. Eles próprios são os habitantes de S. João da Madeira e como qualquer habitante de S. João da Madeira o chapéu também tem de se mover. Por isso o conceito é que até ao Hat Weekend a cidade seja surpreendida por um chapéu num sítio que não seria expectável ou pela surpresa de que estava ali um chapéu e já não está. Queremos que este seja um projeto dinâmico.

A parte da investigação continua a ser conciliada com a de direção?

Eu continuo a fazer investigação, naturalmente, procuro conciliar o trabalho. É claro que já não haverá tanta disponibilidade, mas continuarei a fazer até porque de facto é algo que me toca e do qual tenho muito gosto.

“Ambição de crescer ainda mais, sermos ainda melhores e levarmos S. João da Madeira para fora da região e do país”

Qual o balanço destes seis meses a dirigir os museus?

É um desafio interessante. Obviamente que há aqui vários pontos, fatores que não estavam comigo quando estava cá a Dr.ª Suzana Menezes, dos quais tive de me inteirar e tive de perceber as dinâmicas. É sempre um trabalho em progresso. Estamos sempre a aprender e a crescer. O balanço para mim tem sido positivo dada a recetividade do público, o feedback que temos recebido das empresas e dos próprios designers, dos contactos que temos vindo a estabelecer e das parcerias tem sido muito positivo. Percebemos que o caminho está no sentido que queremos que esteja a ter. Voltamos à ambição de crescer ainda mais, sermos ainda melhores e levarmos S. João da Madeira para fora da região e do país. E continua a ser um desafio. Todos os dias é um desafio estar sentada naquela cadeira. Mas acho que acima de tudo quando se gosta do sítio onde se está e do trabalho que se faz as coisas acabam por fluir e correr bem com dias mais difíceis do que outros. Para já tudo positivo.

 

Os museus em números

O Museu da Chapelaria recebeu 279.419 visitantes desde a sua abertura a 22 de junho de 2005 até maio de 2019

O Museu do Calçado recebeu 33.706 visitantes desde a sua abertura a 5 de novembro de 2016 até maio de 2019

Para além dos visitantes portugueses, pelo Museu da Chapelaria passaram visitantes de Espanha, França, Brasil, Itália, Holanda, Alemanha e Reino Unido*

Para além dos visitantes portugueses, pelo Museu do Calçado passaram visitantes de Espanha, França, Brasil, Holanda e Itália*

*Os países estão ordenados por nível de expressão desde a abertura dos museus e

o público estrangeiro que se tem vindo a receber nos museus é, maioritariamente, público escolar (nível secundário, profissional ou universitário), onde também se incluem professores e educadores, seguindo-se o público técnico (designers ou empresários) e, não menos importante, grupos de turismo, informou Joana Galhano ao labor

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