Quando e onde é que começou os estudos em música?

Aos cinco anos na minha cidade natal, Ekaterinburg, capital dos Urais.

Decidiu estudar música por iniciativa própria ou por influência de familiares?

Foi a minha mãe que me levou à escola de música e procurou um professor de violino, pois sempre adorou ouvir o que considerava ser o “rei dos instrumentos” e sonhava que tocasse esse belíssimo instrumento. Mas, curiosamente, comprou um piano antes de eu nascer e o violino só anos mais tarde. A minha própria mãe, professora de literatura e de língua russa, tocava guitarra e cantava. O meu pai era piloto de aviões, tocava um pouco de piano, guitarra e bayan (instrumento semelhante ao acordeão, só que com botões para a mão direita em vez de teclas como o acordeão). As primeiras experiências musicais aconteceram em casa. Desde muito cedo fui envolvido pela música e de pequenino ouvia tocar “sinfonias” improvisadas nestes instrumentos.

O seu pai também o influenciou no estudo da música?

O meu pai insistia sempre que seguisse os rastos dele e levantasse voo. Cheguei a ter algumas experiências de voo, mas a minha mãe foi implacável na definição do meu percurso e afirmação na música. Quando ainda era pequeno, levava-me aos teatros, concertos, a assistir aos espetáculos mais variados, ao mesmo tempo que me proporcionava oportunidade de experimentar e participar no coro infantil, ballet, ginástica, desporto, pintura, línguas e patinagem artística, onde desenvolvi técnicas e qualidades artísticas que me permitiam sonhar em seguir uma carreira artística nesta área.

E acabou por escolher a música em detrimento da patinagem artística?

Passaram-se vários anos até que chegou o momento de escolher, quando o treinador de patinagem artística me fez um ultimato: “Ou a patinagem ou a música”. Foi com muita pena minha que tive de abandonar a patinagem porque correu muito bem, já estava com participações em competições com êxito e várias medalhas ganhas, mas não havia dúvida de que a música era a opção principal, indissociável da minha pessoa, do meu ser.

Apesar de ter escolhido a música, continua a patinar?

A patinagem artística de competição foi completamente posta de parte. Mas acho que ainda era capaz de me aventurar a calçar os patins e deslizar no gelo ao som de alguma boa música.

“Depois de algum tempo de preparação, entrei na Escola Especial Musical para Crianças Superdotadas”

E como foram os primeiros anos de aprendizagem de música?

Um dia fui assistir a um concerto da orquestra sinfónica com a minha mãe e ela perguntou-me: “Qual é o violinista que toca melhor e o que gostas mais?”. Era um concerto para dois violinos com a orquestra e os solistas eram bem diferentes: um alto e fisicamente bem constituído e o outro baixinho, franzino, mas que curiosamente me dava a sensação de ser grande, tinha a postura de um leão. A minha mãe quase não tinha dúvidas de que escolheria o primeiro deles, mas foi ao contrário. Era intenção dela ir falar com o violinista em causa que por acaso era o melhor na cidade – respeitado concertino da orquestra e professor de mérito no ensino superior – para me dar aulas. E assim foi. Ele estranhou o pedido porque não era comum ser abordado daquela forma nem era habitual dar aulas a crianças pois na altura lecionava só ao ensino superior, mas no final concordou fazer-me uma audição e admitiu-me na sua classe de violino, na qualidade de iniciante, no Conservatório Nacional Superior dos Urais, onde lecionava. Depois de algum tempo de preparação, entrei na “Escola Especial Musical para Crianças Superdotadas”, onde segui sempre os estudos sob orientação do mesmo professor. Posteriormente prossegui os estudos no Conservatório Nacional Superior, acompanhado desde sempre pelo Professor Lev Mirtchin, aluno do Professor Lev Zeitlin (professor do Conservatório de P. I. Tchaikovsky, em Moscovo), que por sua vez, foi aluno do professor Leopold Auer – o Fundador da Escola de Violino Russa, uma referência internacional.

Como era a escola para prodígios musicais?

Só por se entrar numa escola destas não são atribuídos galardões de mérito, mas os que entram são considerados como pré-vocacionados, sim, o que significa que trazem em si uma predisposição natural e cultural para assimilar e interpretar a música. Os critérios de admissão eram rigorosíssimos, começava logo no momento de seleção, ao “detetarem os dotes” dos futuros “prodígios”. Eram feitos exames de audição e ritmo, capacidade de repetir as melodias e os algoritmos da batida, da canção, adivinhar as notas tocadas no piano, sons, e eram e são exigidos conhecimentos de cultura geral. Para além das capacidades técnicas também era considerado o temperamento, o perfil artístico, as características individuais, como postura, comunicação, etc. Eram ainda tidas em conta certas capacidades e condições físicas (estrutura e pormenores anatómicas das mãos e dedos, ouvido absoluto).

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O aluno que integrava esta escola passava a maior parte do dia a estudar, sem grandes intervalos ou dispersões, que não fossem de natureza complementar ao conhecimento profundo da música, os horários eram combinados em prol do melhor aproveitamento do tempo. Era habitual com 10, 12 anos chegar à escola às sete horas da manhã, depois de andar em transportes públicos e ainda com percursos feitos a pé, para conseguir um espaço adequado para treinar, ainda com os dedos frios, gelados, principalmente durante o inverno que, como se sabe, é imenso lá nos confins dos Urais, perto da Sibéria. Isto era de um esforço enorme e isto era pertencer à “Escola Especial de Música para Crianças Superdotadas”, o mesmo é falar em superação e motivação e, claro, numa enorme vocação.

“Gostava muito de fazer uma carreira a solo, livre de condicionalismos externos”

Quais as características dos instrumentos que toca?

O violino é um instrumento melódico, lírico, capaz de transmitir as nuances mais frágeis e finas da alma humana, até pode “falar” e cantar, imitando a voz. O piano é um instrumento riquíssimo que pode soar como uma orquestra de mil vozes e também transmitir a elegância, delicadeza e afinidade com a natureza e com o mundo interior do ser humano.

Qual o seu instrumento preferido, o violino ou o piano?

Gosto dos dois. Depende do que se pretende transmitir ou do que “esteja na alma” no momento. O piano é como uma orquestra completa, com todas as suas capacidades, mas o violino tem a sua própria vibração, a sua afinidade com o corpo humano, é uma extensão não só do corpo, mas da alma, proporciona transmitir as mais delicadas nuances emocionais e sentimentais. É um instrumento transportável, passa a fazer parte de nós, de quem o toca, é um instrumento muito expressivo e que permite ao artista uma paleta extraordinária de tons e variações, diria que um acorde reverbera na atmosfera, insinua-se sempre de forma diferente, propaga-se e funde-se com o sentimento de quem o toca de quem o ouve de uma forma talvez mais intensa do que qualquer outro instrumento. Por isso, é considerado o “rei dos instrumentos”, e muitos músicos, mesmo depois de uma carreira como profissionais de outros instrumentos, acabam por dizer que se voltassem atrás optariam pelo violino porque lhe reconhecem propriedades únicas.

“A Rússia tem uma cultura secular em que a música é indissociável da vida dos cidadãos”

O que o levou a vir para Portugal em 1996?

Portugal foi o final de um percurso que se iniciou em França, passou por Espanha e que através da sugestão de colegas amigos que já cá estavam surgiu como possibilidade. Devo dizer que sair da Rússia e fazer um périplo pela Europa, se não pelo mundo, foi sempre meu propósito. Precisava de paisagens ensolaradas. Lembro-me que entrei em Portugal de comboio e o que via através das janelas, e provavelmente à mistura com o sonho, eram charcos e uma paisagem quase lunar, praias, palmeiras, castelos, catedrais e pareceu-me que entrava numa espécie de reino medieval, uma impressão quase mística, diria surreal que me ficou na memória. Também gostei imenso do povo português. Já tinha visitado muitos países da Europa, mas cá, em Portugal, a sensação era de proximidade e de uma certa semelhança com o povo russo.

A profissão de músico é devidamente reconhecida?

O público foi sempre muito recetivo comigo, mas a profissão do músico em geral nem sempre é reconhecida, nem sempre o esforço de um percurso único e exigente é devidamente tido em consideração.  Diria que ser músico é uma vocação, principalmente para aquele que, à parte de tudo e de todos, se torna peregrino, por sua conta e risco, porque tem o objetivo de ser simultaneamente intérprete e um profissional livre.  Já trabalhei com várias orquestras a tempo inteiro, mas hoje quero ter a liberdade de poder desenvolver os meus próprios projetos a solo e também variar as minhas participações com duos, quartetos, quintetos, orquestras e respetivos repertórios.  Para mim é muito importante dar um significado, um cunho pessoal ao que faço. Gostava muito de fazer uma carreira a solo, livre de condicionalismos externos.

“Aqui não há públicos para a maior parte dos espetáculos de música clássica”

Os músicos são melhor reconhecidos na Rússia ou em Portugal?

Na Rússia, sem dúvida. A Rússia tem toda uma cultura secular em que a música é indissociável da vida dos cidadãos, da pátria mãe, da alma russa. É todo um espirítico que começa desde muito cedo a desenvolver-se e, como já referi, envolve toda uma dinâmica que caracteriza a vida da maior parte das cidades. Para muitos é uma necessidade – as idas a concertos, as exposições de arte, os espetáculos de ballet, a leitura dos clássicos, o desenvolvimento do sentido crítico através da participação de musicólogos nos concertos. Tudo isto faz parte, naturalmente, da vida social e da mentalidade do povo russo. É, claro, que na sequência de tudo isto, na Rússia, um músico tem naturalmente um reconhecimento, significativo, o que aqui em Portugal não acontece. Aqui não há públicos para a maior parte dos espetáculos de música clássica, as pessoas não têm formação, mas também não têm opção. É sempre um risco para as entidades que gerem os orçamentos públicos optarem por este tipo de concertos, caem sempre no mesmo facilitismo dos grandes cartazes e nomes comerciais. A formação de públicos para estes e outros eventos artísticos requer muito tempo e investimento por parte dos poderes locais. No entanto, já vai havendo neste sentido vários exemplos pelo país.

Algum dia ponderou deixar a música?

Não, mas reconheço o teor da pergunta. Pois cá, em Portugal, encontrei um “fenómeno” de não reconhecimento da profissão do músico. Isto acontece quando as pessoas às vezes perguntam: “Sim, és um músico, mas o que é que fazes?”… Enfim.

E regressar à Rússia? Uma vez que lá a profissão de músico é reconhecida e em Portugal nem tanto…

Parti da Rússia com o intuito de descobrir o mundo. Gosto de Portugal, simpatizo com o povo que acho muito hospitaleiro, das pessoas que encontrei, do clima, da cultura portuguesa, “sinto-me em casa”. Não tenho intenção de regressar à Rússia. O tal “reconhecimento” encontro-o na minha realização pessoal, naquilo que define as minhas opções, independentemente da posição geográfica. Também, desde sempre, tenho a ideia de que não se desiste perante as dificuldades, elas existem em qualquer parte do mundo, por isso estas mesmas ultrapassam-se e transformam-se. As divergências enriquecem, pois são oportunidades de evolução. Ganhei a noção que o artista está sempre “acima” das circunstâncias, ele é como um “Prometeu”, que ergue a tocha e ilumina o caminho para os outros, que mostra algo novo e desconhecido, que dá abertura e visão do mundo. Isto, dito sem qualquer síndrome de Napoleão. O artista não se deixa condicionar pelos outros, por natureza não vai atrás dos “gostos” dos outros, se assim não fosse, seria não um artista, mas antes um comerciante, sem desmérito para o último. Na sua definição mais profunda, o artista tem e terá sempre uma missão, o da revelação e elevação do espírito humano, e isso é o que importa.

“A criação e sensibilização de públicos é um dever cívico de quem gere a cultura”

Atualmente, é músico a tempo inteiro?

Atualmente sou músico a tempo inteiro, artista livre, combinando duas vertentes, o violino e o piano. Paralelamente ao violino, tenho vindo a desenvolver interesse e desempenho musical ao nível do piano. À semelhança do violino, o repertório pianístico compõe um vasto leque de estilos e géneros musicais, o que me permite atuar em diversos ambientes culturais.

Qual a sua ligação a S. João da Madeira?

A ligação a São João da Madeira é baseada em laços de amizade e pessoais.

Por que é que o recital não foi uma iniciativa municipal, mas individual?

A proposta chegou a ser feita à câmara municipal que não negou a possibilidade de inserção numa futura agenda, a intenção foi sendo adiada e esta oportunidade, do Patrick de Hooghe vir a Portugal, não podia esperar, impunha-se em tempo real e embora a comunicação com a autarquia não se tenha fechado, tivemos que tomar a iniciativa. Graças à ajuda de algumas pessoas, da Mariana Melo Tavares, promotora do evento, da Helena Couto, presidente da junta de freguesia, que reconheceu o valor cultural da iniciativa e do Pedro Silva Teixeira, que foi responsável pela elaboração do cartaz, foi possível realizar este concerto.  Recordo que Patrick de Hooghe é um pianista de grande mérito, com uma agenda internacional. Recusar esta “oferta” seria não ter noção do valor cultural deste tipo de espetáculos. Por aqui, como me habituei a ouvir, diz-se: “não há público para este género de concertos”. Pois, mas os públicos criam-se e as pessoas acabam por apreciar quando lhes é dada a oportunidade de crescerem nesse âmbito. Penso que investir no desenvolvimento cultural é uma prioridade que será uma mais-valia para a nação, a médio e longo prazo. Por isso, a criação e sensibilização de públicos é um dever cívico de quem gere a cultura.

 

Impressão digital

 

Vladimir Omeltchenko

Tem 54 anos, é natural da Rússia e vive desde 1997 em Portugal. Este músico tem dupla nacionalidade, russa e portuguesa, e tocou juntamente com Patrick de Hooghe num recital de violino e piano que teve lugar no dia 14 de junho nos Paços da Cultura. Vladimir Omeltchenko já atuou várias vezes em S. João da Madeira. Uma vez a solo no Festival “Noites de Verão” em 2017, a convite da junta de freguesia, na Praça Luís Ribeiro, uma outra vez no projeto “Verão com Vida” em 2018, em duo de Violino e Contrabaixo, a convite da câmara municipal, também na Praça Luís Ribeiro e uma terceira vez a solo na Igreja Matriz por iniciativa própria na altura natalícia de 2018. As suas ligações a S. João da Madeira têm por base ligações pessoais e amizades.

O seu percurso profissional na música

“Desde novo, participei em concertos da classe do meu professor e durante os estudos participei em diversos concursos, tendo recebido vários primeiros prémios. Fui Concertino da Orquestra de Câmara, da Orquestra de Música Contemporânea e da Orquestra Sinfónica do Conservatório Nacional Superior dos Urais. Em 1983 fundei um Quarteto de Cordas, seguido de um Quinteto de Cordas, formado por músicos da Orquestra Sinfónica da Filarmonia dos Urais. Fiz arranjos para estas formações. Realizei uma série de espetáculos e concertos comentados que foram gravados para a Rádio e TV. Realizei alguns projetos noutros conjuntos e formações musicais, tendo sido apresentados concertos com o organista Alemão Harry Koniaev e com o guitarrista São-Petersburguense Mikhail Radiukevitch e que foi integrado no 11º Festival Internacional de Guitarra, em Ekaterinburg. Na mesma altura colaborei com o compositor Guiya Kantcheli na redação de uma nova música para violino e orquestra de câmara, que foi composta a pedido de Gidon Kremer. Em 1996 toquei, como Solista, o 2º Concerto Brandenburgues, F-Dur, de J.S. Bach, num Concerto de Gala auspiciado pelo Ministério da Cultura Russo, dirigido pela Maestrina Americana Sarah Caldwell, gravado para CD (Columbia). Colaborei ainda com outros maestros e compositores nacionais russos e estrangeiros: Mark Paverman, Andrei Chistiakov, Yuri Nikolaevski, Fedor Gluschenko, Gennady Rozhdestvenski, André Boreiko, Dmitri Liss, Valentim Silvestrov, Guia Kantcheli, Sofia Gubaidullina, Georg Hörtnagel, Patrick de Hooghe, Samuel R. Friedman, entre outros. Desde o primeiro ano do conservatório (na Rússia equivalente ao ensino superior) entrei na aclamada Orquestra Sinfónica (que integrava 80 músicos) da cidade de Ekaterinburg. Trabalhei na Orquestra Sinfónica Académica dos Urais durante 14 anos. Desempenhei funções de Professor Assistente no Conservatório Estatal Nacional Superior dos Urais. Participei em vários concursos, onde ganhei prestigiados prémios: 1º prémio do Concurso dos Conservatórios Regionais, em 1983, 3.º prémio no Concurso All Russian em Kazan, em 1991, uma distinção no Concurso Nacional de Música de Câmara. Participei nos festivais internacionais: Sound Ways em São Petersburgo, Festival Internacional de Música Contemporânea em Moscovo, International Guitar Festival e International Organ Festival, ambos em Ekaterinburg, International Festival em Ferrentino, Itália, noFestival de Monflanquin, em França, Vendsyssel Festival na Dinamarca, sempre como solista, tendo gravado para a Rádio, TV e CD´s.”.

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