A Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo, através do seu Centro de Leitura Especial, já produziu mais de 20 audiolivros dirigidos especificamente ao público com cegueira ou baixa visão, mas também a pessoas de idade isoladas e “com algumas limitações” 

Segundo dados da ACAPO- Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, haverá “uma média de 420, 450 pessoas com deficiência visual, entre cegos e amblíopes” na região, sendo que no concelho de S. João da Madeira serão “à volta de 30”.

Foi, precisamente, a pensar neste público específico que a Biblioteca Municipal (BM) Dr. Renato Araújo inaugurou em 2011 o seu Centro de Leitura Especial (CLE) no âmbito de um Programa da Fundação Calouste Gulbenkian, que apoiou a criação deste serviço com cerca de 20.000 euros, para além de uma percentagem assegurada pelo Município de S. João da Madeira.

Com o CLE, e aproveitando a evolução tecnológica no domínio da produção e disponibilização de conteúdos para audição e leitura, pretende-se colmatar a lacuna no acesso à informação, por via da insuficiência ou impossibilidade visual. Através de livros em áudio e braille, softwares e equipamentos próprios, os cegos e amblíopes podem usufruir da BM sanjoanense, a par de todos os outros utilizadores.

Só para se ter uma ideia: o Centro de Leitura Especial tem um pequeno Fundo em Braille com aproximadamente 300 livros e 70 audiolivros e já produziu com a “prata da casa” – leia-se um funcionário a meio tempo e uma única voluntária que “doa” duas horas e meia semanais – 21 audiolivros (ver caixa).  Embora o número de utilizadores que se deslocam à BM não seja muito elevado, há um movimento considerável de empréstimos a outras bibliotecas e inúmeros contactos via telefone ou internet “para esclarecer dúvidas sobre Informática”.

Precisa-se de audioleitores e… também de voluntários

Tanto Vítor Ferreira, um sanjoanense invisual de 46 anos que é o funcionário do Centro de Leitura Especial, como a voluntária de 62 anos, que nos pediu anonimato, são de opinião que “há ainda um grandedesconhecimento da existência do CLE e, em concreto, do Projeto Audiolivros, iniciado em 2013”. É certo que os audiolivros que vão sendo produzidos (apenas) pelos dois são divulgados no blogue da BM e também mensalmente em formato de podcast. Mas é necessária uma maior divulgação do CLE junto dos seus potenciais utilizadores.

Mais do que nunca, precisa-se de áudio leitores… e também de voluntários para “darem voz” a mais audiolivros. Vítor Ferreira disse ao labor que se sente “realizado com o que faço, porque estou a trabalhar para as pessoas que têm os mesmos problemas que eu”. Mas esta é, na sua ótica, “uma área em que há muito para explorar” e, como tal, “era bom que mais pessoas se juntassem a nós”.

Além disso, defendeu que “o período de funcionamento [do CLE] devia ser estendido ao dia todo, precisamente, para podermos levar o livro a mais pessoas”.

“Centro de Leitura Especial “já funcionou a tempo inteiro”

Na altura em que Vítor Ferreira ainda era estagiário, o Centro de Leitura Especial funcionava “a tempo inteiro” e “era possível fazer muito mais” do que é feito agora. “Participávamos na Poesia à Mesa, como também, na Semana da Leitura, fazíamos um périplo pelas escolas da cidade”, contou à nossa reportagem, acrescentando que “a ideia original era articular o Centro de Leitura Especial com outros serviços”, o que depois acabou por não se concretizar.

Atualmente, o CLE funciona apenas de manhã, de segunda a sexta-feira. Mas “se funcionasse a tempo inteiro a ideia era, junto com os outros serviços da Biblioteca Municipal, nomeadamente o Serviço Educativo, levar o audiolivro e o livro em braille não só a lares de terceira idade, mas também às casas das pessoas, fazer visitas itinerantes”, exemplificou Vítor Ferreira, deixando claro que com o horário atual “o que podemos fazer apenas é ir gravando os audiolivros e ir disponibilizando livros aqui no nosso arquivo e mediante a disponibilidade das pessoas elas virem cá”. “Mais não é possível”, garantiu.

O labor tentou recolher junto da câmara declarações sobre o assunto, mas tal não foi possível até ao fecho da presente edição.

 

Livros produzidos em áudio pelo Centro de Leitura Especial

Unhas Negras/João da Silva Correia (escritor sanjoanense)

Um Minuto de Silêncio/João da Silva Correia (escritor sanjoanense)

Porta aberta/João da Silva Correia (escritor sanjoanense)

Farândola/João da Silva Correia (escritor sanjoanense)

Aurora Adormecida/Eva Cruz (escritora sanjoanense)

(Alguns) Contos de Eva Luna/Isabel Allende

Crónica do Rei Pasmado/Gonzalo Torrente Ballester

História da Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar/Luís Sepúlveda

O Natal e outras histórias/Truman Capote

Debaixo de Algum Céu/Nuno Camarneiro

Edição 2013/Poesia à mesa

Centelha de Vida e Outros Contos/Américo Azevedo

Vem Comigo Comer Amendoim/Adão Cruz (escritor sanjoanense)

Microcontos/Ana Paula Oliveira (escritora sanjoanense)

O Santo Guloso/Ana Paula Oliveira (escritora sanjoanense)

O Principezinho/Antoine de Sant-Exupéry

O Gato de Upsala/Cristina Carvalho

O Velho e o Mar/ Ernest Hemingway

A Viagem do Elefante/José Saramago

A cidade de que eu gosto/Josias Gil (escritor sanjoanense)

Histórias de bichos/Margarida Negrais (escritora sanjoanense)

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