O que te levou a deixar a tua cidade, o teu país?

Depois de acabar o curso, procurei oportunidades por cá porque queria ser eu própria a pagar o meu mestrado e não os meus pais, mas não encontrei nada. E sendo um bocado irrequieta, a minha mãe disse-me: “Não. Já estou a ficar ´maluca´ contigo. Procura mestrados”. E foi aí que o meu avô, que era belga, entretanto faleceu, disse-me: “Olha tem cá um mestrado em Liège, na Bélgica, vê se gostas e se gostares perfeito”. Já tinha visto na Alemanha, em Inglaterra, não havia nenhum assim que me entusiasmasse, mas quando vi o da Bélgica soube que era mesmo aquilo que queria. Era um mestrado de Bioquímica e Biologia Molecular e Celular. Então fui lá fazer o mestrado durante dois anos e morei em casa do meu avô. Adorei, o meu avô ajudou-me muito. Fiz lá muitos amigos. Os primeiros seis meses foram muito difíceis porque tinha que estudar em francês, mesmo que soubesse falar francês, foi complicado. Foi um ano de aulas e um ano de laboratório. Passados seis meses de estágio no laboratório o meu chefe perguntou-me se não queria fazer o doutoramento no laboratório dele. O que não era o meu plano ao princípio, que era fazer um doutoramento na Alemanha, mas pensei: “O doutoramento é quatro anos, gosto do projeto, gosto do chefe. Se calhar é melhor ficar aqui”. Não me arrependo nada. Fiz o meu Doutoramento em Bioquímica lá. Correu super bem.

E sobre o que foi o doutoramento?

Basicamente estive a tentar determinar o funcionamento de uma proteína, principalmente no desenvolvimento dos vasos sanguíneos. O que descobri foi que essa proteína muito surpreendentemente é importante especificamente para o desenvolvimento das veias e dos vasos linfáticos, mas em nada afeta o desenvolvimento das artérias. Isto tudo a usar um modelo animal, o “zebrafish”, um peixe que se utiliza cada vez mais em investigação científica. Portanto, depois disso, o meu chefe disse para continuar na investigação científica. Durante o meu doutoramento fui a uma conferência em Boston onde vi vários chefes a falarem dos projetos deles e encantei-me com um de Boston.

 

“A nível de estrutura de laboratório, Harvard tem mesmo muito poder económico”

 

Sobre o que era o projeto que chamou a tua atenção?

A leucemia. E disse: “Quando acabar o meu doutoramento é isto que quero fazer”. Estava eu a escrever a minha tese de doutoramento num cafezinho em Liège, de repente recebo uma notificação no email a dizer que esse chefe, Dr. David Langenau, estava à procura de alguém para um pós-doutoramento, para trabalhar no laboratório dele. Ainda não tinha acabado o meu doutoramento, mas tive de candidatar-me a esta oportunidade.  E então fiz o meu currículo rápido, pedi as cartas de referência e mandei tudo. Passados dois dias tinha uma entrevista com ele. Fiquei um bocado nervosa, passei a noite toda a estudar os artigos dele para saber o que tinha feito e para saber responder às perguntas porque a conferência dele já tinha sido há dois anos. Tive a entrevista com ele ao telefone. Correu bem. Depois ele disse-me que tinha de ir a uma entrevista a Boston em frente ao laboratório todo. Isto foi em outubro e em janeiro fui à entrevista lá. O meu chefe da Bélgica tinha-me preparado super bem para ir à entrevista e consegui.

 

Onde estás a trabalhar?

No Laboratório de Patologia de Harvard Medical School.

 

Há quanto tempo?

Um ano.

 

Como tem sido trabalhar na área que querias?

Foi muito complicado porque mudei completamente de área. Não trabalhava na área do cancro, trabalhava na área do desenvolvimento. Foi difícil. Depois os americanos não são nada como os europeus. São muito individualistas. É um trabalho mais solitário do que aquele que tinha na Bélgica ou em Paris, mas aprendi muita coisa. Tenho a impressão de que amadureci de uma certa maneira. A nível de estrutura de laboratório, Harvard tem mesmo muito poder económico. Não há muitos limites para o que queremos fazer na ciência. O meu chefe é diferente também, é americano, não há horas de trabalho, mas isso na ciência não há muito. Ele está sempre à espera de mais, o que todos os chefes estão, mas a pressão é outra. Se soubesse o que sei hoje voltaria a fazê-lo. Não é o mundo encantado da ciência, mas gosto muito.

 

“O que eu estou a tentar determinar é a origem (da leucemia) que ainda não se sabe”

 

Quais as tuas funções nesta pesquisa?

Na leucemia hoje em dia há muitos tratamentos que são eficazes. O problema da leucemia é que passado um, dois anos, normalmente as pessoas, principalmente as crianças, têm o ressurgimento da leucemia que é muito mais agressiva do que a “primeira” leucemia. Isto tudo por causa da célula de origem. A célula de origem é onde tudo começa e que provoca as primeiras mutações genéticas e que depois desenvolve a leucemia. Quando fazemos os tratamentos conseguimos ver a “superfície” da leucemia, podemos dizer assim, mas é raro o tratamento que consegue atacar a origem. O que estou a tentar determinar é a origem que ainda não se sabe. Estou a tentar descobrir as primeiras mutações por várias táticas de sequência de ADN.

 

Este é um projeto para quanto tempo?

Pelo menos cinco anos.

 

Se conseguirem descobrir a origem da leucemia seria…

Revolucionar o mundo nessa área e poderíamos aplicar a outro tipo de leucemia e de cancro. Isso seria espetacular.

 

Este é o primeiro emprego fora de Portugal?

No doutoramento já recebíamos um salário, mas sim sem ter de defender nada ao fim é o pós-doutoramento este ano.

 

Foste sozinha?

Sempre sozinha.

 

Nunca tiveste receio de estar sozinha?

Receio de estar sozinha não. Às vezes sentia-me sozinha. Isso sim. Sobretudo nos primeiros seis meses seja em qualquer lugar. Mas receio não. Sempre foi mais ansiedade por conhecer as coisas novas.

 

Onde moras?

Sommerville. A 20 minutos do meu laboratório e a 10 minutos de Boston de metro, mas ainda é considerado Boston.

 

 “Boston é conhecido por comerem muto marisco”

 

Conheces muita gente? Portugueses e estrangeiros?

Conheci mais portugueses na Bélgica do que em Boston. Mas eles devem existir (risos). A maior parte que conheço são americanos ou de outras nacionalidades.

 

Quais os pratos e bebidas característicos?

A lagosta. Eles adoram lagosta. Boston é conhecido por comerem muito marisco. Eles têm muito marisco lá. Não é tão bom como o de Portugal, mas…(risos). Há pessoas que fazem quilómetros e quilómetros para ir a Boston comer a lagosta, as patas de caranguejo… “lobster rolls” que é lagosta toda esfiapada com uma pasta de maionese ou manteiga num pão como se fosse um cachorro, mas com lagosta.

 

Quais as tradições?

Eu diria mais em relação ao desporto. Eles são completamente doidos por futebol americano. E por acaso a equipa deles, os Patriots, ganharam este ano e toda a gente saiu à rua para festejar com os jogadores de futebol americano. É como os portugueses em relação ao futebol.

 

Quais os locais emblemáticos?

O meu preferido é a Biblioteca Municipal de Boston. Aquilo é enorme, super bonito, tem um jardim no meio da biblioteca onde há concertos no verão e tudo. Um parque onde tem a estátua do George Washington que foi uma das pessoas que começou a revolução em Boston dos americanos contra os ingleses, tornando-se o primeiro Presidente dos Estados Unidos.

 

Como são os habitantes/o povo do local onde estás?

As pessoas são muito simpáticas, pensava que seriam mais frias. Mas chega a um ponto em que vão falar connosco, mas não vão confiar logo em nós. Eu moro com duas americanas lá e sempre que tenho algum problema elas ajudam a cem porcento. Mesmo as pessoas do laboratório em relação a algum processo administrativo.

 

“Isto vai soar muito mal, mas diria um bocado a falta de moral no trabalho”

 

O que mais te surpreendeu?

Isto vai soar muito mal, mas diria um bocado a falta de moral no trabalho. Eles têm um objetivo na cabeça e vai tudo à frente até lá chegarem.

 

O que mais custou a adaptar?

A essa realidade.

 

Há alguma expressão típica do local onde estás?

Não. Eles vão relacionar o gosto da lagosta com o tempo. Se for mais salgada vai haver um temporal no mar, se estiver mais doce quer dizer que o verão está a chegar. Eles têm muitos trocadilhos à volta da lagosta.

 

Que sítios costumas frequentar?

Tem muitos bares de estudantes à volta das faculdades, tem muitas cervejas artesanais, também gosto de passear ao longo do rio (Charles River) que é muito fixe. Outra coisa muito fixe em Boston é a existência de muitos restaurantes de várias nacionalidades. Já provei etiopiano, palestiniano…também gosto de provar novas comidas.

 

Onde te vês daqui a cinco anos quando terminares este projeto?

Vai depender muito do trabalho que tenho agora. Se correr mesmo muito bem vou tentar abrir o meu próprio laboratório. Estou a pensar em Paris no Instituto Pasteur ou então na Alemanha. Se não também vou para o privado para a indústria farmacêutica e isso seria também para voltar para a Europa, mas onde mesmo não sei. Sei que não será Portugal, não porque eu não goste de Portugal, eu adoro Portugal, mas mais uma vez o mundo é demasiado grande. Acho que não consigo voltar a viver num sítio onde já morei. Tem de ser diferente.

 

“É mais fácil publicar lá os artigos científicos por ter dinheiro e capacidade para fazer as coisas com maior rapidez”

 

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?

Muito positiva. Mesmo que tenha sido muito difícil, cresci muito.  Não só conheci muitas culturas, como a nível profissional não tenho limites a nível financeiro. Isso faz toda a diferença. É mais fácil publicar lá os artigos científicos por ter dinheiro e capacidade para fazer as coisas com maior rapidez.

 

Do que sentes mais falta?

Dos amigos, da família e de natas (risos). A primeira coisa que faço quando chego a Portugal é comer uma nata e tomar um “cafezinho”.

 

Do que é que sentirás falta, do local onde estás, se um dia fores para outro país ou regressares a Portugal?

Da dinâmica da cidade provavelmente.

 

Os teus planos passam por voltar a Portugal?

Não. Pelo menos nos próximos 15 anos diria que não (risos). Se calhar vejo-me aqui (Portugal) a acabar os meus diazinhos quando tiver 80 anos, mas antes não.

 

Impressão digital

Alexandra Veloso

 

Tem 30 anos, é natural de S. João da Madeira e é investigadora científica na área do cancro, mais precisamente leucemia, na Harvard Medical School em Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos da América.

Alexandra Veloso frequentou a escola dos Ribeiros, depois o ciclo (EB2,3) e no sétimo ano mudou para a escola João da Silva Correia. “Foi no ciclo que soube que queria ir para ciências porque tinha uma professora (da qual não se lembra do nome) que era espetacular”, contou a sanjoanense ao labor.

Começou por querer seguir Biologia, mais especificamente Biologia Marinha, mas ficou encantada com a Microbiologia. Já a estudar Microbiologia na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, mudou para Bioquímica graças ao professor Tim Hogg que lecionava essa cadeira. Alexandra Veloso estagiou no departamento de Imunologia e Virologia no Instituto Pasteur em Paris. Depois de acabar o curso, procurou oportunidades em Portugal, mas acabaria por encontrá-las no estrangeiro. “Não foi pela crise ou por quer que seja, mas sempre achei que o mundo era demasiado grande para ficar num só sítio”, confessou a sanjoanense ao labor.

Loading Facebook Comments ...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui