Para onde querem levar os velhinhos?

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A pergunta é sempre a mesma e à hora do jantar, pela quarta vez esta semana: “Avô, se encontrasses todos os dias um velhinho a descer a rua, a nossa, e ele te parecesse tristonho o que farias?”. A questão terá sido levantada na escola e os oito anos do meu neto não ajudavam a descobrir respostas que o satisfaçam. E eu fiquei uma vez mais em silêncio. A ouvir  algumas possibilidades práticas de ação dadas por ele. Confesso que tenho muito receio de chegar à chamada terceira idade. Porque os reflexos de mim em certas pessoas mais velhas imobilizam-me. Veja-se o que se passa, por exemplo, numa urgência hospitalar: idosos, acompanhados de bombeiros ou de funcionários de lares, sem terem por perto a mão de um familiar que os ajude a suportar a dor.

Entra-se numa igreja ou capela à hora da celebração de eucaristia (missa) num dia da semana e repara-se o pequeno grupo que normalmente se tranca num luto sombrio. Estão ali rostos de gente que sente mágoa, infelicidade, para quem a vida se atraca numa fé que seguem de uma religião, uma doutrina desde sempre, muitas vezes de forma algo irrefletida. Entre o risco pelo interior do país sonda-se um conjunto de casas dispersas pela paisagem rural, e ali estão pessoas de idade avançada entregues a si próprias, com uma saúde demasiado debilitada para estarem sozinhas.

Creio que foi no mês passado (junho), que o boletim económico do Banco de Portugal veio acrescentar outro ângulo de aproximação a esta realidade: sendo um país cada vez mais envelhecido e com a taxa de desemprego a cair, haverá um impacto negativo desta tendência na capacidade de crescimento da nossa economia. Isto é um modo racional e afirmativo de abordar o problema. Não é fácil pensar de forma macroestrutural a terceira idade. Porque convida demasiados setores e ,acima de tudo, exige um considerável investimento. No entanto, é urgentíssimo criar e desenvolver políticas públicas para os mais velhos. E os próximos governos tem uma palavra a dizer e não podem falhar. E cada um de nós também deve, como pode ir fazendo algum caminho. O meu neto pensou em algumas propostas para o suposto idoso que eventualmente passaria à nossa porta com frequência: Cumprimentá-lo e dizer algumas frases engraçadas para perceber se gostaria de conversar, perguntar-lhe se queria ajuda por exemplo para ler o jornal e, numa versão mais ousada, arranjar-lhe uma companheira. Todas estas possibilidades têm uma substância em comum: relações humanas. Talvez quem sabe esteja aí a chave de muitos problemas, a existência de companhia. É isto que os nossos velhos mais desejam: ter quem, alguém que se interesse por eles, sem lhes pedir nada em troca.

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