No último ano letivo, 82 alunos estrangeiros frequentaram estabelecimentos de ensino da cidade 

 

Foi, sobretudo, a “falta de segurança” nos países de origem que levou as mães de João Tiago António e de Lorenzo Ghirardini a deixarem tudo para trás e a virem para Portugal em busca de uma vida melhor. Em S. João da Madeira (SJM), segundo disseram ao labor, encontraram o “paraíso”, de onde nem elas nem os seus filhos querem sair mais.

João Tiago e Lorenzo são dois dos 82 alunos estrangeiros que, no último ano letivo, frequentaram estabelecimentos de ensino sanjoanenses. João Tiago, de seis anos, andou no Jardim de Infância do Parque onde tinha muitos “colegas”, entre os quais “três namoradinhas”, imagine-se! Este ano, vai para “a primeira classe”, para a Escola EB1/JI de Fundo de Vila.

Já Lorenzo tem 11 anos. Vai continuar na Escola Básica e Secundária Oliveira Júnior, onde vai fazer o sexto ano de escolaridade. Revelou à nossa reportagem que “quando crescer quero ser empresário”.

“Se o quiseres castigar é dizer-lhe que vai voltar para Angola. Ele chora, mas chora amargamente”

Com o filho mais novo ao colo, Dinamena Soares abriu-nos as portas do apartamento que, em SJM, partilha com mais duas pessoas com um sorriso do tamanho do Mundo. Pouco depois apareceu o pequeno João Tiago que estava no quarto a ver “bonecada” na televisão.

Dinamena, de apenas 27 anos, é uma mãe solteira angolana, que não conta com a ajuda de nenhum dos pais dos seus dois filhos. Em setembro de 2018 não hesitou em trocar Angola, onde “havia muita violência, raptavam e matavam pessoas”, por Portugal, onde, anos antes, também já tinha vivido, em Lisboa e Oliveira de Azeméis. Com ela trouxe as crianças e uma enorme vontade de mudar de vida.

Veio parar a S. João da Madeira, por intermédio de uma tia que já vivia na cidade, e aqui encontrou não só a tão almejada segurança, mas também melhores condições, inclusive em termos de Educação. “A Educação lá é péssima, as escolas são péssimas”, afirmou ao nosso jornal.

“Em Angola era secretária numa empresa de gás. Não faltava trabalho nem o pão de cada dia aos meus filhos, mas não havia segurança e as coisas básicas como água e luz. E eu não me acostumei”, desabafou a jovem, acrescentando que, “passado um ano [desde que veio para Portugal], admito que não tem sido fácil. Mas também ninguém me disse que seria”. Além do mais, o bem-estar dos seus filhos “fala mais alto” do que quaisquer dificuldades.

Dinamena contou ao labor que João Tiago gosta muito de Portugal e não quer voltar para Angola: “Diz-me mesmo ‘não, mamã, não quero voltar. Lá é sujo, tem lama”. Aliás, “se o quiseres castigar é dizer-lhe que vai voltar para Angola. Ele chora, mas chora amargamente”, confidenciou.

Jovem mãe solteira está à procura de trabalho

Desde que chegou a S. João da Madeira, Dinamena já trabalhou um mês na empresa Faurecia e, depois, num restaurante, que “tive de deixar por causa do horário que era incompatível com o bebé [irmão de João Tiago, agora, com um ano e meio]”. Desde então “não consegui arranjar mais nada”, lamentou, garantindo que continua à procura de trabalho e que aceita “qualquer coisa, seja limpeza, fábrica, etc.”. Esta jovem quer arranjar um cantinho só para ela e para os meninos o quanto antes.

Entretanto, e a nível de apoios, da parte da Segurança Social, conta apenas “com alimentos”. “Não posso contar com mais ajudas por causa dos documentos [que tem em falta e que está a tentar arranjar]”, justificou.

“Adversidades à parte”, Dinamena está de “consciência tranquila”, porque, como assegurou, “sei que estou a fazer o melhor pelos meus filhos”.

“Aqui encontrei paz”

Antónia Rose e Lorenzo são outro exemplo de uma família monoparental que escolheu SJM para ser feliz. Antónia é brasileira e o seu filho é italo-brasileiro. O pai de Lorenzo, já falecido, era italiano. Antónia conheceu-o em 2004 durante umas férias em Itália.

Depois do falecimento do companheiro em 2015, Antónia, que na altura vivia em Itália, regressou ao Brasil com Lorenzo. Lá “tínhamos a família e tudo do bom e do melhor”, mas “há muita delinquência, muita insegurança”. E ela, como seria de esperar, não quis isso para o filho!

Veio para Portugal com a ideia de morar em Vila Nova de Gaia. No entanto, quis o destino que, há cerca de um ano e meio, viesse parar a S. João da Madeira e “aqui encontrei paz”.

“Não me passa pela cabeça deixar Portugal nem S. João da Madeira, nem para férias. Não tenho a mínima vontade de regressar ao Brasil. Só irei pela minha família, mas hoje nem sentimos saudades por causa da tecnologia”, referiu Antónia, completando: “E o Lorenzo também não pensa em sair daqui mais! Diz que ama Portugal e isso não tem dinheiro que pague”.

GN

 

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