É preciso saber viver

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Ninguém acha que ser pobre seja uma escola para a vida. Nem um meio de aprender a ter carácter. É que para endurecer o corpo e a alma é, no primeiro caso, necessário levar sova de criar bolha e, no segundo, passar dificuldades e comer o pão que o diabo amassou.

Viver mal não é seguramente direção para coisa nenhuma e, por isso, considero indigna (para não dizer coisa pior) a aceitação da normalidade de cerca de dois milhões (embora se sinta algumas melhorias) de portugueses no limiar da pobreza.

Para o número, o concelho de S. João da Madeira, seguramente contribui com cerca de 1.700 pessoas carenciadas. Posto isto, inclino noutra direção. Para dizer que, não obstante, num país (na mira estão alguns sanjoanenses residentes) onde a miséria bate às portas, se estragam recursos, se desperdiça comida e gasta em inúmeras situações o que não se tem.

Como atira em conversa um amigo meu: quem só tem dinheiro para “Jaquinzinhos” é natural que não possa comer lagostim. Há locais em S. João da Madeira (também os há) onde, no final das refeições, causa repulsa ver o que sobrou. E o que se deita fora para os contentores do lixo. E há famílias (cada um sabe de si) onde os meninos são treinados não para viverem como cidadãos mas para serem consumidores, esbanjadores ou predadores. A velha máxima dos tempos atrasados de que tudo o que se punha no prato era para se comer foi para o caixote do lixo com desperdício (hoje não é bem assim, porque já há quem leve os restos).

Vem esta alocução pública a propósito de uma carta que me facultaram, escrita em 1968 por um sanjoanense que passou pela guerra colonial (Angola) ao serviço da Pátria. A mesma pessoa (vou dizer quem foi, o “Antunes”, como era tratado no campo militar) lembra anos de pura miséria para muita gente que vivia (ainda hoje se vive) nos bairros, lugar de pobres e remediados.

O “Antunes”, hoje com 82 anos de idade, avô de um rapazola, homem feito assim se  pode dizer, revela algo que está a faltar: ponderação e atitude. Se quiserem princípios ou saber viver.

Advertia então o avô ao neto. O menino, é assim que tratam o fernandinho, fica prevenido de que quando não puder ou quiser cá vir comer faça o favor de avisar de véspera a sua avó para evitar despesas inúteis. O mesmo fará quando precisar de vir para avó saber com que se deve contar. A isto bem chamo eu de educação. Afinal é preciso saber viver sem dúvida que sim, mais agora que vivemos numa era moderna!

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