“Só usava os pronomes porque de resto nunca vivi nem me senti no sexo feminino” 

O “João” (nome fictício) tem 28 anos, é natural de Oliveira de Azeméis e está a passar pelo processo de mudança de identidade de género.

“Desde sempre, desde que tenho consciência de mim, soube que algo estava fora do normal. Sempre soube também que não podia falar disso. Não ia ser bem aceite. O receio esteve sempre lá”, contou o próprio ao labor.

A infância, a juventude e uma parte da vida adulta foram complicadas e ficaram marcadas pela questão: “é menino ou menina, rapaz ou rapariga, homem ou mulher?”. Quem conhecia sabia que o seu género era feminino, mas quem não conhecia ficava na dúvida devido ao cabelo curto e às roupas largas. “Nunca vivi no género feminino completamente. A minha mãe nunca me obrigou. Aliás, vestia-me sempre com roupa masculina. Nunca me obrigaram a usar o cabelo comprido, basicamente só usava os pronomes porque de resto nunca vivi nem me senti no sexo feminino”.

A puberdade foi “difícil” e a disciplina de Educação Física era “o terror”. “Não gostava de ir para os balneários porque sentia que estava a invadir aquele espaço que não era meu”. O que era então “difícil”, a partir da puberdade “começou a ser insuportável”, só que “ainda não sabia bem o que era a transsexualidade. Isso não se falava. Pensei que ia ser para sempre assim ou que num dia mágico ia acordar no corpo certo. É um bocado estúpido, não é? Mas para uma criança…” não o é.

Já a frequentar o ensino secundário numa das escolas de S. João da Madeira, nunca ponderou sequer falar sobre o que sabia e sentia que estava fora do normal consigo.  “Acho que tem de partir das instituições demonstrarem que estão abertas a isso. Uma criança nunca vai…” fazê-lo. E a falta de conhecimento ajuda a alimentar ideias erradas. “As pessoas que se aperceberam muito provavelmente pensavam que era homossexual e detestava essa ideia. As pessoas confundem transsexualidade com a homossexualidade. A orientação sexual não é identidade de género. Podia ser homossexual, mas não, gosto de mulheres”, esclareceu “João” que em todo o seu percurso escolar e académico vivido no género feminino nunca sofreu qualquer tipo de discriminação por parte dos colegas.

“Sei que não ia aguentar uma vida toda assim”

“João” tinha 20 anos quando decidiu acabar com a vida que vivia com base numa mentira como se estivesse a cumprir uma pena, ao não conseguir revelar quem realmente era, numa espécie de prisão que era o seu corpo. Ele decidiu reescrever a sua história desta vez suportada pela verdade. E de repente as grades que sentia que o prendiam, deixaram de existir e encontrou o caminho rumo à liberdade. “João” começou por contar a uma primeira pessoa, depois aos amigos, a um tio que é psicólogo, à mãe, que, entretanto, faleceu vítima de cancro, e só depois ao resto da família. A razão para o ter feito tão tarde teve apenas um único motivo. “Tinha receio. Achava que ia conseguir viver sem nunca fazer nada. Só entrou como tema na sociedade civil muito recentemente. Há apenas três, quatro anos que se fala muito disto. Há 10 anos atrás não havia muita informação na internet. Em Portugal era quase um não assunto. Principalmente o meu caso. Conhecem-se na esfera pública mais casos ao contrário: homens que querem ser mulheres”, justificou. A reação dos amigos e da família foi de pura aceitação e acima de tudo de respeito pela coragem de lutar por aquela que é a sua felicidade.

“A minha mãe ficou chateada por falar com o meu tio primeiro. Alguns amigos disseram que sabiam ou, pelo menos, já desconfiavam que alguma coisa não estava certa. Toda a gente aceitou bem”. A pessoa a quem mais tinha receio de contar era ao seu avô e só o fez já depois de ter começado a terapia hormonal, quando “as coisas começaram mesmo a não se conseguir esconder”. Portanto, esta é “uma história que nesse aspeto não é muito trágica. Foi trágica mais por ter sido tão tarde. Não ia conseguir viver assim. Percebi que ou era infeliz para sempre ou acabava em suicídio. Sei que não ia aguentar uma vida toda assim”. Entretanto começaram a “aparecer vários casos na esfera mediática como a Caytlin Jenner e outros que me ajudaram a ter representatividade e a perceber que a mudança para outro género era possível”.

Passou a ser legalmente “João” em 2017

Antes de se ter libertado de uma das suas prisões, ao contar aos outros quem realmente sentia que era e queria ser, “João” já tinha contactado, através da internet, a Associação Plano I para a Igualdade e Inclusão (API), onde está integrado o Centro GIS – Centro de Respostas às Populações LGBTI – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo, anteriormente Associação JANO, em Matosinhos. E aqui começou a trilhar o caminho que o levaria a libertar-se de outras prisões. Primeiro, a de identidade, e, mais tarde, a de género. Começou o processo com consultas gratuitas com uma psicóloga e depois com a psiquiatra Zélia Figueiredo que lhe passou o relatório médico para que pudesse mudar de nome. E em 2017 passou a ser legalmente “João” no Cartão de Cidadão. “Foi um alívio. Fui sozinho. Atenderam-me muito bem. Ficaram contentes. Nunca tinham tido um caso assim. Queriam aprender como é que tinham de o fazer”.

A mudança do nome seguiu-se noutros documentos como a carta de condução e o cartão do banco. Nesse mesmo ano começou a terapia hormonal que terá de ser feita “para a vida toda”. “Tudo isto foi a Associação GIS que me proporcionou de forma gratuita com o apoio do Serviço Nacional de Saúde”. “Geralmente faço tudo sozinho com a grande diferença de que agora é com as pessoas a saberem”. Em relação à reação das pessoas próximas e importantes para si, “João” relembrou as palavras de uma psicóloga: “as pessoas quando gostam de nós às vezes surpreendem. Ela dizia isso em relação ao meu avô. E o mesmo em relação a nós. Quando gostamos fazemos o esforço para compreender”. E mesmo quando as relações não têm vínculo sentimental, apenas profissional, podem igualmente surpreender. Como aconteceu com a entidade patronal de “João” depois deste lhe ter contado que estava prestes a iniciar o tratamento hormonal. “Tinha medo, mas também reagiram bem. Só me disseram: tens mesmo é de ser feliz. Admiraram a minha coragem. Podiam ter preconceito e tornar a minha vida mais difícil, mas não”.

A primeira cirurgia foi realizada na semana passada

A primeira de muitas cirurgias – uma mastectomia (remoção dos peitos) – pelas quais vai passar “João” foi realizada na semana passada, no dia 10 de outubro.

“Nunca fui aquela pessoa de estar a pressionar muito os psicólogos e demais profissionais de saúde. Se calhar se tivesse colocado mais pressão tinha sido mais rápido. Mas sou uma pessoa mais paciente. E tento não dramatizar as coisas. Acho que precisei de fazer um trabalho interior muito grande para chegar onde estou hoje, para ter realmente dado o passo. Nunca fui impulsivo”. A ansiedade começa a tomar forma com o dia da cirurgia a estar mais perto. “No dia é que realmente vou estar mais nervoso. Ainda não sei ao certo o que vou fazer, mas se fizer tudo será um total de cerca de 10 cirurgias”. Depois desta cirurgia, “nem vale a pena ter muita ansiedade” em relação às outras. “O Serviço Nacional de Saúde é muito demorado”. A primeira consulta de “João” foi em fevereiro e esteve mais de seis meses à espera da cirurgia. Como não foi operado no prazo de meio ano, o Estado passou um vale-cirurgia para que a pudesse fazer no privado através do Serviço Nacional de Saúde. “Sempre tive a ideia de fazer tudo. Sou o caso mais tradicional”, mas “a pessoa até pode nem fazer” a transformação completa. Olhando uma vez mais para trás, “João” admite: “no fundo fui o meu maior opressor”.

“Ainda não sou o homem que quero ser para a mulher que quero ter”

Como qualquer outra pessoa, “João” tem sentimentos e consequentemente relacionamentos. “Neste momento, não estou em nenhum, mas se aparecer alguém. Podia ser homossexual, mas não. Gosto de mulheres”. “Neste momento, acho que não é o momento. É aquele cliché de que ainda não me encontrei a mim mesmo. Acho que ainda não sou o homem que quero ser para a mulher que quero ter. É uma frase em que penso muitas vezes. Depois da cirurgia vou-me sentir mais confortável”.

O contacto de “João” com outras pessoas que estão a passar por processos semelhantes aqui na região não é muito. “A associação promove encontros em Matosinhos para as pessoas terem um núcleo em que sabem que estão confortáveis. Não conheço muita gente, não comunico muito, sempre tentei resolver tudo muito sozinho. Mas já é da minha personalidade. Agora estou a abrir-me contigo, mas até chegar a este ponto foi muito difícil. Sempre muito sozinho, mas sem que isso fosse um problema. Temos de aceitar as coisas como elas são e não dramatizar nada. O meu avô tem uma frase que é: quando não consegues resolver nada sofre com paciência”.

Em relação às pessoas que não respeitam nem aceitam os seus outros semelhantes por serem “diferentes”, a opinião de “João” é muito sucinta: “as pessoas hoje são ignorantes porque querem. Existe muita informação, mas ficam-se pela rama”.

O “João” decidiu dar o seu testemunho ao labor desde que a sua identidade fosse preservada pelo facto de ser uma pessoa discreta que dispensa a exposição “mediática”.

 

Despacho sobre a Identidade de Género 

“Está a ser mal interpretado” 

“Se houvesse algo do género na minha altura teria sido bom” 

O Despacho n.º 7247/2019 que estabelece as medidas administrativas que as escolas devem adotar para efeitos de implementação do previsto no n.º 1 do artigo 12.º da Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, que estabelece o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e o direito à proteção das características sexuais de cada pessoa “está a ser mal interpretado”, afirmou “João” ao labor.

“A percentagem de pessoas transgéneros que existe é tão reduzida que isso nas escolas não vai fazer assim tanta diferença. Vai ser uma pessoa por escola? Se tanto. Isto é a promoção do medo. Se houvesse algo do género na minha altura teria sido bom”.

E teria certamente evitado o desconforto que sentia sempre que tinha de ir à casa de banho ou de estar no balneário para as pessoas do sexo feminino. “Não ia à casa de banho praticamente. Não usei casas de banho públicas durante anos porque não queria entrar naquele sítio e quando tinha de usar era porque estava desesperado para ir”. “Ainda hoje em dia quando entro parece que finalmente estou a entrar no sítio certo. Mas ainda é um bocado desconfortável porque às vezes sinto: e se reparam? Como estou a fazer terapia hormonal há tempo suficiente não se apercebem, mas tenho sempre esse medo”.

Todas estas situações foram tratadas “com toda a discrição”

O labor questionou os três agrupamentos de escolas públicas – Dr. Serafim Leite, João da Silva Correia e Oliveira Júnior – e o colégio privado Centro de Educação Integral (CEI) sobre este despacho, mas apenas recebeu resposta por parte de dois deles.

Enquanto o agrupamento um (Dr. Serafim Leite) já teve alunos que estavam a passar pelo processo de transição de género, o agrupamento três (Oliveira Júnior) não.

Este despacho não vai “alterar nada” que já não tenha sido feito noutros anos letivos em que o Agrupamento de Escolas Dr. Serafim Leite teve alunos a passarem pelo processo de mudança de identidade de género, assumiu a diretora Anabela Brandão ao labor.

Todas estas situações foram tratadas “com toda a discrição” e com o envolvimento do agrupamento e dos encarregados de educação para salvaguardar o bem-estar do aluno, tal como prevê o despacho, assegurou a diretora do agrupamento um. Para quem não era preciso criar este despacho para que a comunidade escolar saiba lidar com estes processos. “No Agrupamento de Escolas Dr. Serafim Leite não. Não existe a necessidade de relembrar princípios e valores a um agrupamento que se baseia neles”, afirmou Anabela Brandão, relembrando que são “uma escola que trabalha com a Amnistia Internacional há muitos anos e por isso somos uma Escola Amiga dos Direitos Humanos”.

Este despacho, “em termos gerais, vem legitimar um conjunto de ações que a escola, sobre este assunto – tal como faz em outras situações e temáticas que o justifiquem -, pode ter necessidade de tomar, na salvaguarda do superior interesse de todas as crianças e jovens que frequentem o nosso agrupamento (de escolas Oliveira Júnior)”, disse o diretor Mário Coelho, destacando o facto de já terem “docentes e técnicos atentos a todas as situações que possam interferir com o bem-estar dos nossos alunos”.

O artigo deste despacho relativo às casas de banho e aos balneários foi destacado por uma grande parte da opinião pública que parece ter ignorando a restante informação do mesmo e causou uma polémica quase sem fim.

“Por sabermos que é muito mais que isso, não acrescento mais nada”, reagiu Anabela Brandão. “Infelizmente a discussão pública de assuntos sensíveis por não especialistas contribui com frequência para a desinformação e manipulação da opinião pública, nem sempre no caminho desejado”, considerou Mário Coelho.

“Realização mais intensa de campanhas de (in)formação e sensibilização da comunidade”

Uma das preocupações deste despacho é precisamente evitar a discriminação, qualquer tipo de bullying ou de violência para com os alunos que estão a passar por este processo, mas o certo é que a violência física, psicológica e virtual tem sido uma problemática crescente nos últimos anos. Por isso, quisemos saber o que foi, é e será feito para combater esta problemática. “Esta situação coloca-se a todos e a qualquer aluno pelo que é tratada com a devida atenção”, indicou a diretora do Agrupamento de Escolas Dr. Serafim Leite, com a certeza de que “todas as questões que envolvam qualquer tipo de condicionamento à liberdade do outro são tratadas através de diversas formas de intervenção”. “Para além das necessárias regulamentações legais, é igualmente importante a realização mais intensa de campanhas de (in)formação e sensibilização da comunidade educativa”, reconheceu o diretor do Agrupamento de Escolas Oliveira Júnior que tem “investido de forma sistemática” neste sentido.

Loading Facebook Comments ...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui