Sim. E a prova disso está no projeto “sapatos ilustrados” em que uma ilustração passou do papel para uma pele que foi aplicada em calçado 

A demonstração de que existe potencial para aplicar a ilustração em produtos e a criação de um diretório de ilustradores foram as grandes novidades anunciadas por Helena Couto, presidente da Junta de Freguesia de S. João da Madeira, entidade responsável pela organização do Encontro Internacional de Ilustração, aquando da apresentação desta sua 12ª edição em conferência de imprensa realizada na primeira semana de setembro.

A primeira foi concretizada através do projeto “Sapatos Ilustrados” que nasceu de uma parceria entre a junta de freguesia e a marca “Perks” da empresa sanjoanense Evereste. Entre as ilustrações finalistas da edição anterior que teve como tema o “trabalho”, a escolhida pertence à ilustradora Ana Rita Robalo. E assim a ilustração passou do papel para a pele de um modelo unissexo de um par de sapatos que estiveram à venda durante o encontro e continuarão a estar através do contacto com a Junta de Freguesia de S. João da Madeira e, futuramente, no seu site.

Assim Helena Couto conseguiu levar um exemplo visível e palpável de como ilustração a tem potencial para ser aplicada em produtos para a conferência “Aplicação da ilustração no produto” que reuniu na mesma sala ilustradores e empresários para uma conversa que devido à interação contínua entre as partes levou a que começasse pouco depois das 17h30 e acabasse por volta das 20h15 na Torre da Oliva.

O principal objetivo desta conferência era a união entre empresários e ilustradores e estava cumprido com a presença de inúmeros ilustradores e dos empresários sanjoanenses André Fernandes da Evereste, Rodolfo Andrade da Multicouro, Hugo Silva e Joana Santos da DAM, e Álvaro Gouveia da CEI – Companhia de Equipamentos Industriais.

Ao ilustrador Manel Cráneo coube a missão de apresentar exemplos concretos de aplicação da ilustração em produtos como em garrafas de água e em garrafas de cerveja. “A ilustração não é só livros, a ilustração é comunicar através da imagem” em qualquer produto, reconheceu Manel Cráneo, admitindo que enquanto ilustrador esteve enganado durante muitos anos ao achar que a ilustração estava limitada a determinados produtos como é o caso dos livros.

Ao longo dos anos em que trabalhou numa empresa de publicidade para quem produzia conteúdos que eram vendidos a outras empresas, Manel Cráneo percebeu que isso “anula o direito inalienável que são os direitos de autor”.

Perante os casos apresentados por Manel Cráneo e o projeto “Sapatos Ilustrados”, André Fernandes relembrou que “nos últimos tempos a tecnologia avançou e há 10 anos não imaginávamos adotar a impressão de um cartoon na pele, permitindo uma enormidade de possibilidades”. Para além dos avanços tecnológicos, “também é preciso abertura e coragem por parte do empresário”, acrescentou Helena Couto.

Um outro aspeto mencionado durante a conversa sobre estas parcerias foi o princípio básico de que “o trabalho artístico tem de ser pago”, indicou Helena Couto até porque é “impossível trabalhar por voluntariado”, salientou Manel Cráneo. O que mereceu concordância por parte dos empresários que melhor do que ninguém entendem que uma parceria implica trabalho de parte a parte e sobretudo risco de ter lucro ou prejuízo.

Empresários colocaram desafios aos ilustradores que passam pela ilustração em peles e até em mobiliário

O empresário Rodolfo Andrade foi o primeiro a desafiar os ilustradores. Como está ligado à indústria dos curtumes, lançou a ideia de desenvolver com um ilustrador uma coleção de peles para cada estação, com base num tema, que depois poderão ser usadas em sapatos, bolsas, cintos, entre outros produtos. “Só comecei a perceber o que era a ilustração quando comecei a frequentar este encontro que considero importante”, afirmou Rodolfo Andrade. “O trabalho da ilustração é difícil” e “obviamente tem de ser pago”, mas “também cabe aos ilustradores mostrar como a ilustração pode ser útil”, considerou o empresário. A intervenção de Rodolfo Andrade levou a que uma das ilustradoras presentes, Mariana Mattos, sugerisse que a troca de cartões fosse efetuada ali mesmo porque “não temos de ser sempre nós (ilustradores) a irmos atrás”. O que levou a conversa a um impasse. O empresário propôs aos ilustradores apresentarem ideias e a ilustradora propôs que visse os trabalhos dos ilustradores e depois contactasse aquele cujo trabalho chamasse a sua atenção para ser aplicado em peles. E aqui Manel Cráneo alertou os seus colegas de profissão. “Também é preciso ter noção de que o empresário pode não ter critérios artísticos” e a aí cabe ao ilustrador dar a conhecer o seu trabalho e aconselhar sobre o que poderá ser mais adequado ao que é pretendido.

DF

A impressão de uma ilustração em sapatos não apanhou propriamente de surpresa a Evereste devido à parceria que tem com Gary Teriete, responsável pela marca POMP que cria sapatos exclusivos e em edições limitadas para homem e mulher, para a qual já imprimiu cartoons entre outras coisas e que também marcou presença nesta conversa.

Para André Fernandes, “o que faz sentido é estarmos na capital do calçado e num encontro que está a permitir potenciar isto tudo” como apresentar o protótipo dos “sapatos ilustrados”, cujo modelo é da POMP e produzido pela Evereste, e trocar experiências. Por isso, neste ou em qualquer outro projeto “vamos partilhar o risco e dividir o que der disto”, simplificou o empresário sanjoanense.

Hugo Silva e Joana Santos são responsáveis pela DAM que é uma marca de mobiliário sanjoanense que prima pela diferença. Os empresários desafiaram os ilustradores a contar a história do ponto de vista gráfico de um dos seus produtos. Estamos a falar da cadeira “Sacadura” que homenageia o primeiro cruzamento aéreo do Atlântico Sul realizado pelos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho em 1922.

Já Álvaro Gouveia assumiu que a sua presença poderia ser difícil de perceber pelo facto de ser responsável por uma empresa de produção de equipamentos de corte que pesam toneladas. “Considerando a ilustração como uma ferramenta de comunicação, de eleição, que vai para além dadimensão externa das empresas mais conhecidas, como sejam o marketing, ou outros modos, consideramos que na comunicação interna dentro das empresas e organizações, a ilustraçãodesempenha um papel único, que rompe com os modelos atuais da comunicaçãodigital, que está esgotada e pouco eficaz”, explicou o empresário.

Assim sendo, “o desafio proposto passa por potenciar a ilustração na nossa missão de promover o crescimento dos colaboradores na empresa, necessária à gestão colaborativa e integradora e para a qual a comunicação assume, hoje em dia, um papel fulcral”, explicou Álvaro Gouveia ao labor à margem da conferência devido ao facto de o desafio lá não ter ficado bem definido.

Um dos apoiantes do encontro está à procura de um embaixador

Aproveitando o momento em que os empresários lançaram desafios aos ilustradores, Lara Rodrigues, representante da Wacom em Portugal, aproveitou para deixar um outro.

A marca sempre foi muito virada para os nichos de mercado como os ilustradores profissionais, mas neste momento está a alargar horizontes.

Nesse sentido, “estamos à procura de um embaixador” que saiba desenhar, revelou Lara Rodrigues.

Quase duas horas depois do início desta conferência, o contentamento estava espelhado no rosto de Helena Couto depois de ver mais um passo dado no sentido de tornar o encontro e a própria ilustração autossustentáveis.

“A utopia é um sonho e enquanto pessoa mais pragmática do que sonhadora dou pequenos passos à minha disposição como este contacto entre ilustradores e empresários”, concluiu Helena Couto.

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