Reconhecimento foi a palavra de ordem numa tarde de festa que fica para a história desta empresa fundada em 1919 e do concelho de S. João da Madeira 

No último domingo à tarde, José António Pais Vieira não cabia em si de contente. O “homem do leme”, como alguém o chamou na ocasião, encontrava-se reunido com a sua “grande família” – não só a de sangue, mas também a da Vieira Araújo S.A. – a festejar os 100 anos da mais antiga empresa de S. João da Madeira, que o seu avô Manoel Vieira Araújo fundou, pouco tempo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, e a que os seus tios Manuel e António Pais Vieira Araújo, juntamente com o seu pai, Manuel Pais Vieira Júnior, deram continuidade nas décadas seguintes.

GN

“Na estrutura da Vieira Araújo todos são importantes, sempre que cumprem a sua missão”

Nas atuais instalações situadas na Rua de S. Roque, junto ao IC2, o empresário sanjoanense de 73 anos – 48 dos quais dedicados àquela que é atualmente a única fábrica centenária sanjoanense – foi surpreendido pela Partituna – Tuna Académica do Isvouga, à qual coube abrir as hostilidades, digamos assim. Minutos mais tarde, foram os seus colaboradores a surpreendê-lo com oferta de lembranças, uma das quais um quadro “feito com muito engenho e arte” por um deles, e umas sentidas palavras dirigidas “a este grande senhor que nos dá oportunidade de pertencermos a esta família”.

E por falar em colaboradores, os mais antigos, que “quase fazem parte da mobília”, foram igualmente alvo de reconhecimento público, entre os quais Isabel Bastos que, “com 40 anos de casa, conheceu também os dias difíceis dos anos noventa e muito colaborou para se atingir o progresso que alcançámos”, como sublinhou Pais Vieira.

Mas ao longo do seu discurso, que preparou previamente para esta tarde de festa, o industrial também não poupou elogios aos restantes dos 60 homens e mulheres com que a Vieira Araújo conta para ser hoje uma referência no mundo dos plásticos. Aliás, não é por acaso que aquela que começou por ser uma pequena fábrica de “chapéus de pelo, lã e palha”, “instalada na cave” da casa de Manoel Vieira Araújo em Carquejido, e que ao longo das décadas passou de igual modo pelos lápis, calçado e camisas, é “neste momento um dos principais ‘players’ mundiais no mercado de asas e cápsulas para embalagens”.

“Sozinho ninguém consegue fazer nada”, fez ver Pais Vieira, acrescentando que “na estrutura da Vieira Araújo todos são importantes, sempre que cumprem a sua missão. São importantes os operadores das máquinas de injeção, os operadores de armazém, os da manutenção, o motorista e os da qualidade”.

À semelhança destes, também foram “importantes” os ex-sócios da Vieira Araújo: “estão aqui presentes a minha tia Elza, que pertence à segunda geração de sócios, e o meu irmão Manuel Mário que foi sócio durante 10 anos e já é elemento da terceira geração, tal como eu”.

Pais Vieira também não se esqueceu da sua esposa, Maria Manuela. “Sem esta retaguarda, não teria alcançado grande parte do que a vida me veio a proporcionar”, disse. Referiu-se posteriormente ao filho André, que o empresário acredita que “irá no futuro ser um digno continuador das gerações que me antecederam”, e aos netos André e Duarte, que “são um forte bálsamo para continuar a ter muita alegria em viver”.

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“A Vieira Araújo atravessou períodos muito complicados”, “mas valeu a pena”

Segundo Pais Vieira, “a Vieira Araújo atravessou períodos muito complicados, como o arranque da empresa em 1919/1920”, altura em que o seu avô “se levantava todos os dias às cinco da madrugada para garantir que, quando os operários chegassem às oito, tivessem as fulas e os ferros quentes, à temperatura ideal para o início do ciclo de trabalho”.

Passadas décadas, seguiu-se o P.R.E.C.(Processo Revolucionário Em Curso), período de acontecimentos políticos, militares e sociais que agitaram Portugal no pós 25 de Abril, que “nunca mais esquecerei”.“Eu e os meus primos Manuel Guilherme e António José tivemos de enfrentar bandos de arruaceiros, com correntes e paus ameaçar-nos e a querer invadir e paralisar as fábricas. Os nossos colaboradores queriam continuar ordeiramente a trabalhar e aquela escumalha não o queria permitir”, recordou o dono da Vieira Araújo.

Por último, “os anos noventa do século passado [quando em conjunto com o irmão Manuel Mário assumiu o comando da empresa] também não foram nada fáceis”. “As indústrias que recebemos não conseguiam gerar receitas suficientes para solver todas as responsabilidades. Foi muito complicado. Algumas vezes cheguei ao fim do mês sem saber como pagar os ordenados. É uma aflição enorme, que só quem já passou por ela é que consegue compreender”, desabafou Pais Vieira, lembrando-se, ainda, “de ficar sozinho, muitos domingos, a tomar conta de várias máquinas de injeção, e de passar, igualmente sozinho, noites inteiras na fábrica velha, para esta não parar. Muitas vezes ajudei a descarregar às costas os sacos de matéria-prima, que chegavam fora das horas normais de trabalho”. “Mas valeu a pena”, garantiu.

Desde então até agora, “dedicámo-nos ao desenvolvimento de novos artigos, muitos deles com patentes e registo de modelo comunitário ou nacional, mais exigentes tecnologicamente, necessitando de maiores investimentos e quase sem concorrência em Portugal. Construímos novas e modernas instalações, comprámos máquinas da última geração, adquirimos moldes e demos formação profissional para obtermos diversos graus de certificação de qualidade. Houve muito trabalho, dedicação, capacidade de sofrimento e muito boa colaboração dos que estavam mais próximos”, sendo que o resultado está à vista e pôde ser constatado in loco pelo labor e por todos os que marcaram presença na comemoração do centenário da Vieira Araújo no passado dia 20 de outubro.

 

Vieira Araújo na atualidade

60 colaboradores

– em 2018 o volume de negócios ultrapassou os 8.600 000 euros

– das peças comercializadas em 2018 (618 milhões), 73%foram destinadas ao mercado externo

– crescimento médio de 7% nos últimos anos

10 milhões de euros investidos na última década

– previsão de vendas em 2019: ultrapassar os nove milhões

 

VOX POP

 

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Andreia Pinto, 37 anos, administrativa

“A Vieira Araújo é um marco. Faz parte da história de S. João da Madeira. E não há dúvida que é motivo de orgulho para a cidade ter uma empresa que, ultrapassando todas as dificuldades, tenha chegado aos 100 anos.

É como se fosse uma segunda casa para mim. Visto mesmo a ‘camisola’ e dou de mim todos os dias para contribuir para o seu sucesso”.

 

GN

João Amaral, 48 anos, fiel de armazém

“A Vieira Araújo é como se fosse uma segunda casa. Passo, se calhar, mais tempo aqui do que na minha própria casa. Foi um lugar que me acolheu muito bem quando vim para cá e tenho vestido esta ‘camisola’ ao longo destes nove anos. Tem sido muito bom trabalhar aqui.

Celebrar 100 anos não é muito normal nos dias que correm. Não se vê todos os dias uma empresa a fazer 100 anos. Por isso, esta é uma ocasião bastante solene, bastante importante para nós”.

 

GN

Hélder Santos, 36 anos, técnico de manutenção

“A Vieira Araújo tem sido uma ‘aventura’. Quando vim para aqui pouco conhecia de injeção. Comecei do nada e neste momento sou chefe de manutenção. Apostaram em mim e todos os dias tento fazer o meu melhor e tento agradecer a oportunidade que me deram e ajudar a empresa a chegar cada vez mais longe.

Estou aqui há 12 anos. Tento ajudar a empresa diariamente, de segunda a domingo. Quando precisam de mim, inclusive de madrugada, estou aqui.

Nesta empresa reconhecem o nosso trabalho. Somos uma grande família. Faço parte desta casa, da qual tenho muito orgulho”.

 

GN

Marta Martins, 36 anos, subchefe do turno da manhã

“A Vieira Araújo é uma família. Damo-nos bem. Gosto do que faço. Celebrar o centenário é uma raridade mesmo! Sinto orgulho por isso”.

 

 

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