Em iniciativa promovida pela Biblioteca Municipal para assinalar o centenário do nascimento da poetisa

Nos Paços da Cultura, na noite fria da última terça-feira, Paulo Condessa partilhou com dezenas de pessoas a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma fábula da sua autoria, inspirada na vida da poetisa, e ainda uma descoberta que mostra que as coincidências são como as bruxas: “que las hay, las hay”.

Durante pouco mais de uma hora, o autor, performer e mediador de leitura, que estamos habituados a ver em S. João da Madeira (SJM) na qualidade de comissário da Campanha Poesia à Mesa, fez uma intervenção poética simples e intimista, ao som de taças tibetanas, com leituras sensíveis e irrequietas reflexões sobre a mulher e a sua “obra descomunal” que marcaram o imaginário coletivo português do século XX. Entre os poemas recitados ao longo deste serão, destaca-se “O velho abutre” sobre Salazar.

Como por magia, Paulo Condessa trouxe o “mundo encantado” de Sophia para o auditório dos Paços, embalando os presentes e levando-os até algures entre o sonho e a realidade. Na “Cidade do Trabalho” partilhou a prosa dos dias e a música subtil do pensamento poético, fez uma viagem profunda e lúdica ao oceano da fada que se manteve fiel ao seu fresco olhar de menina e para sempre adormeceu, junto à cabeceira da nossa eterna juventude. Em SJM, celebrou-se com alma e coração Sophia.

Convidado pela Biblioteca Municipal (BM) Dr. Renato Araújo, o autor d’ “A Fada Sophia”, projeto a solo ainda “em fase de construção” encomendado pela Câmara Municipal de Loulé, falou-nos de uma Sophia única. Uma Sophia que lutou por ideais em pleno regime salazarista, arriscando perder o apoio dos familiares e até mesmo a prisão, e na qual existia um sentimento de revolta perante aqueles que traíam as palavras.

“Se não fosse eu, nesta casa, almoçavam-se versos”

Paulo Condessa dividiu a sessão em três partes, começando por dar um lamiré sobre o que foi a vida da escritora que nasceu no Porto a 6 de novembro de 1919 e que “aos três anos já declamava e aos cinco dizia Camões”. Seguiram-se uma fábula, na qual Sophia “é uma fada [“Fada Sop(h)ia”] nascida no mundo dos humanos” com a missão “de resgatar a poesia”, e uma “curiosidade” ligada a Einstein e à sua teoria da relatividade.

A “honestidade” e a “inocência misturada com sabedoria” de Sophia eram “traços constitutivos” da sua pessoa. Já casada e mãe de filhos, digamos que as lides domésticas não eram o seu forte. Tanto que a criada chegou mesmo a dizer que “se não fosse eu, nesta casa, almoçavam-se versos”. “Viver naquela casa era [verdadeiramente] criativo”, com Sophia, por exemplo, a dançar ballet ou a recitar versos “às três da manhã”. Também escrevia durante a madrugada, porque dizia precisar “daquela concentração especial que se vai criando pela noite fora”.

Nos Paços, passo a passo, Paulo Condessa ainda traçou o caminho de Sophia desde a ditadura ao 25 de Abril, não esquecendo a “desilusão” da Assembleia Constituinte após a revolução de Abril. Recorde-se que esta grande poetisa “no sentido moral, estético e ético” fora eleita pelo círculo do Porto numa lista do PS em 1975. Mas não demorou muito tempo a perceber que “só a liberdade não era suficiente. Era preciso mais qualquer coisa”. E, a partir de então, decidiu que tinha de “intervir no meio da arte”. Aliás, note-se que “até à altura de Sophia os contos infantis não formavam pessoas”, chamou à atenção o performer, salientando ainda esta “contribuição em termos políticos e de cidadania indiscutível” de Sophia.

Sophia “nasceu no dia em que a ciência provou que o invisível existe dentro do visível e vice-versa”

Einstein revolucionou o mundo com a teoria da relatividade. Uma revolução que passou por pôr na mesma equação a energia e a matéria, fazendo tudo parte da mesma unidade.

Ora, no entender de Paulo Condessa, Sophia fez o mesmo na sua vida e poesia: “Tal como a energia existe na matéria, o invisível existe no visível”, podendo a ciência e a poesia “entrar na mesma equação e resolver o mesmo problema, embora de maneiras diferentes”.

É que “à semelhança de Sophia que fazia grande questão de trabalhar o visível, também a Einstein se exigia provas visíveis a validarem a sua teoria. Provas que podiam ser confirmadas apenas com fotografias ao sol, mas olhando de olhos fechados”.

Segundo o mediador de leitura, curiosamente. há muitas fotografias de Sophia de cara virada para o sol de olhos fechados. Além disso, as tais provas exigidas a Einstein foram obtidas por um físico inglês no ano de 1919, o mesmo ano do nascimento de Sophia. Portanto, para Paulo Condessa, o centenário da confirmação visível da teoria da relatividade coincide com o centenário da “poeta do visível”. Mais do que isso: essas fotos foram obtidas em terras de língua lusa (Ilha do Príncipe e Brasil) e os resultados foram apresentados ao público na Sociedade de Geografia de Londres a 6 de novembro de 1919, dia do nascimento da poetisa.

Sophia, que orientaria toda a sua poesia para que se visse o visível, “nasceu no dia em que a ciência provou que o invisível existe dentro do visível e vice-versa”.

Para assinalar o centenário, além desta performance que contou com a participação apaixonada, a que já nos habituou, de Paulo Condessa, a BM ofereceu, no dia 6, alguns dos poemas impressos de Sophia e de um marcador de livros a todos os seus leitores e visitantes e tem patente até 30 de novembro uma exposição bibliográfica.

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