Pediu-me um euro

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Retrato de quem precisa

Ao pé de mim chegou, mas muito devagarinho. Teve medo de me assustar.

Disse-me que sabia que eu não tinha culpa da situação a que tinha chegado. Disse-me também que sabia que eu tinha uma profissão mas a que tinha que nada podia fazer por ele, que já não havia solução. Não deveria ter ainda 30 anos. Estava cansado, demasiado cansado de enviar candidaturas de emprego para todo o lado, mas ninguém lhe respondia.

Olhava, mas não virado para mim, sempre com os olhos postos na mesma direção para o chão. Era a imagem de quem já perdeu tudo, menos a dignidade.

A tremer, não com frio, com aquela sinceridade que denuncia a verdade, mas com muita vergonha pediu-me um euro para enganar o estômago. Sei que não sou o único. Sei que muitos vão e estão a ler, provavelmente já viveram situações parecidas ou piores do que esta, nos últimos tempos. Sei que esta é a história que passou a ser frequente neste país, mas não posso aceitar que seja! Depois de dar àquele jovem o dinheiro que tinha à mão entrei no carro.

Ainda dei uma volta, curta mas dei, voltei ao mesmo sítio para lhe perguntar o nome, dar mais dinheiro e saber, porque a curiosidade era tanta, qual era a sua história, mas a fome ou a vergonha já o tinham feito desaparecer com toda a certeza entrou no café mais próximo.

Quando cheguei ao meu local de trabalho, ao meu pequeno, mas muito honesto comércio, fiz o que faço todos os dias, ligo a televisão e oiço o telejornal. Cuidadas e por ordem lá vinham arrumadas as notícias de declaração do Governo, da oposição, da oposição à oposição.

Seguiam-se os números da economia, as estatísticas sobre a situação dos portugueses, algumas festas e o entretenimento do Zé Povinho, o futebol.

Tudo são notícias importantes, relevantes, mas será que mostram a verdadeira realidade do país?

Por que é que a história deste jovem que me apareceu na rua não cabe num noticiário ou nas páginas principais de um qualquer jornal? Os canais noticiosos dão informação importante para quem quer estar informado, esclarecido ao mesmo entretido. É um verdadeiro bacanal para quem gosta de pura informação. No entanto, se quisermos ver para conhecer os portugueses reais, vamos ter grande dificuldade se apenas espreitarmos pelo ecrã de televisão ou as páginas dos jornais.

Vamos lá saber porquê!…

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